O Lei Seca entrou em lei seca. Durante os próximos meses vou conviver de perto com os meus amigos Publius Ovidius Naso e Tomáš Straussler, pelo que o blogue não terá actividade regular, tirando um ou outro texto ocasional. God bless.
1/18/2010
1/13/2010
Negócios estrangeiros
You tell me, "That its getting better",
But, everytime that we say goodnight, goodnight, goodnight,
I am haunted by your eyes and how long they've been crying.
Don't tell me about a bad reaction,
Don't tell me that you plan to hide, to hide, to hide,
Reasoning aside
I'm moving on,
I hope you're coming with me,
I hope you're coming with me.
Anyone can answer their own questions,
All you had to do is look inside, inside, inside.
You know it inside,
You know it will be alright, alright, alright,
You know its alright.
I'm moving on,
I hope you're coming with me,
'Cause I'm not strong, without you.
Don't blame it on your shadow,
'Cause I know all, about you.
[Au Revoir Simone, «Shadows», álbum Still Night, Still Light, 2009]
1/12/2010
1/11/2010
A solidão entre nós
«The loneliness between us / Is just where you are». O que é «a solidão entre nós»? É a solidão a dois, típica das relações degradadas? É a solidão partilhada por duas pessoas que estão separadas? E se estão separadas, querem estar juntas? Ou a solidão está «entre os dois» como um obstáculo? E se é um obstáculo, é intransponível? O segundo verso soa ainda mais estranho. «A solidão é aí onde estás». O que quer isto dizer? Que o lugar da solidão é o lugar da rapariga? Em que sentido? A rapariga está na solidão entre os dois? Ela vive na solidão, e na solidão entre os dois? E, se assim é, será a solidão um obstáculo ou uma condição? A solidão entre nós é o sítio onde estás. Ou o sítio onde eu temo que tu estejas. O amor é aqui uma manifestação da solidão, e não a sua superação. Não é por acaso que Jason Molina se refere quase sempre ao amor como um fantasma.
[Magnolia Electric Co., «Knoxville Girl», álbum Josephine, 2009]
[Magnolia Electric Co., «Knoxville Girl», álbum Josephine, 2009]
1/08/2010
A vida no arame

(...) Mas nada demove Philippe Petit. Explorou longamente o terreno, estudou todas as variáveis, e depois conseguiu introduzir o material de que necessitava. Enfim, na noite de 6 de Agosto de 1974, sobe à socapa ao último andar de uma das torres. Escreve Philippe que o calendário cristão tem o 6 de Agosto como o dia da “transfiguração”: “Não sei o que significa na iconografia do cristianismo, mas quando imagino entrar nas vísceras escuras do WTC, aparecer no cimo da sua coroa, estender um arame na escuridão total e, depois, aparecer inundado de luz, balançando no topo do mundo, acho que transfiguração é uma palavra adequada”.
Esticados os cabos, um trabalho moroso e minucioso, e assentes as espias (cordas verticais que garantem a tensão do arame), tudo está pronto. O jovem Philippe, um miúdo escanzelado, ruivo, quase albino, vai atravessar a mais alta torre. Na manhã de 7 de Agosto de 1974, às 7 horas e 15 minutos, dá-se a transfiguração de Philippe Petit: uma caminhada de 60 metros a mais de 400 metros de altura entre os topos da torre sul e da torre norte. Em cima de um frágil arame. Ele confessou que estava consciente do risco: um quarto de segundo ou meio milímetro a mais ou a menos eram morte certa. Mas Philippe estava finalmente nas suas torres, e para ele não havia nenhum edifício “tão dominador, tão orgulhoso, tão nobre”. Põe o pé no arame, o arame vibra, ele está gelado, há algum vento, algum nevoeiro, a cidade desperta lá em baixo. Andar no arame, explicou Philippe, é uma actividade magnífica porque tem de ser levada a sério. Ele fez da travessia uma aventura lúdica mas também uma aventura espiritual.
Está nervoso, concentrado, esfíngico, enquanto dá os primeiros passos. Vestido de preto, com uma camisola em V sobre o tronco nu, calça sapatos rasos, é um herói impossivelmente elegante e jovem, com a sua mecha de cabelo eriçado e os lábios muito vermelhos. Ao fim de alguns momentos, Philippe sorri. Os pés acomodaram-se ao arame, a tensão está certa, a longa vara que leva nas mãos garante uma horizontalidade que o equilibra, o vento não perturba demasiado. Misto de Houdini e Nureyev, como lhe chamaram, Philippe Petit paira entre os dois edifícios, como se dançasse, deita-se, ajoelha-se, agradece, vai e volta oito vezes, mostra a todos como é esplendorosa a vida no arame, como nenhuma vida vale a pena se não for vivida no arame. (...)
[no Público de amanhã]
1/07/2010
Elephant shoe

(...) «elephant shoe» is a phrase uttered by Scottish youth afraid of saying, «I love you», a way of implying the sentiment while deflecting its articulation.
[do Allmusic]
1/06/2010
Que aconteceu? A pedra saiu do monte
Que aconteceu? A pedra saiu do monte.
Quem despertou? Tu e eu.
Linguagem, linguagem. Co-estrela. Terra-próxima.
Mais pobre. Aberta. Acolhedora.
Para onde se ia? Para o som que não se perdeu.
Ia-se com a pedra, com nós dois.
Coração e coração. Que achámos pesado de mais.
Tornar-se mais pesado. Ser mais leve.
[Paul Celan, trad. Yvette Centeno; na imagem uma peça de Rui Chafes]
Não sei alemão, mas numa versão inglesa [de John Felstiner], este poema termina assim: «Heart and heart. Weighed and found sinking. / Growing more heavy. Taking on lightness». E no meu caderninho tinha apontado uma versão portuguesa, não sei de quem: «Coração com coração. Se os considerares demasiado pesados / mais pesados se tornam. Que sejam ligeiros».


