2/22/2010

Agora falando sério

Agora falando sério
Eu queria não cantar
A cantiga bonita
Que se acredita
Que o mal espanta
Dou um chute no lirismo
Um pega no cachorro
E um tiro no sabiá
Dou um fora no violino
Faço a mala e corro
Pra não ver a banda passar

Agora falando sério
Eu queria não mentir
Não queria enganar
Driblar, iludir
Tanto desencanto
E você que está me ouvindo
Quer saber o que está havendo
Com as flores do meu quintal?

O amor-perfeito, traindo
A sempre-viva, morrendo
E a rosa, cheirando mal

Agora falando sério
Preferia não falar
Nada que distraísse
O sono difícil
Como acalanto
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar
E chamar polícia e médico
E o síndico do meu tédio
Pedindo pra eu cantar

Agora falando sério
Eu queria não cantar
Falando sério

Agora falando sério
Eu queria não falar
Falando sério


[Chico Buarque, «Agora Falando Sério», álbum Chico Buarque de Hollanda - Nº4, 1970]

2/21/2010

Believe

You believe in me
I believe in you
How come that you don't believe in us


(Jay Jay Johanson)

Estatuesca

2/19/2010

Après la guerre

Rene and georgette magritte
With their dog after the war
Were strolling down christopher street
When they stopped in a men's store
With all of the mannequins dressed in the style
That brought tears to their immigrant eyes
Just like the penguins, the moonglows
The orioles, and the five satins
The easy stream of laughter
Flowing through the air
Rene and georgette magritte
With their dog apres la guerre
Side by side
They fell asleep
Decades gliding by like indians
Time is cheap
When they wake up they will find
All their personal belongings
Have intertwined


[Paul Simon, «René and Georgette Magritte with their Dog after the War», álbum Hearts and Bones, 1983]

Claro enigma

















(...) Tal como acontece com os sonhos, as recordações, as memórias involuntárias, o déjà vu, os códigos privados, os jogos de linguagem, Magritte deixa-nos com a intimidade de um enigma, a superfície enigmática e nítida do quadro e as associações que ele provoca. Não tive no Museu Magritte aquela experiência quase religiosa dos florentinos Uffizi, mas reencontrei um punhado de imagens que estão comigo desde sempre, que fazem parte da minha vida mental, imagens que são minhas mesmo que sejam também de milhões de pessoas.

As minhas imagens são por exemplo aquele Pigmalião de A Tentativa do Impossível (1928), um pintor que em pleno acto de criação de uma mulher, uma mulher nua, ainda incompleta, que se faz à sua frente mulher viva. Ou aqueles quartos completamente preenchidos por uma maçã gigante (1958) e por uma rosa gigante (1960), metáfora que tantas vezes usei e tantas vezes me comoveu.

E há outra imagem decisiva, uma fotografia: René e Georgette Magritte em 28 de Junho de 1922, dia do seu casamento, os olhos luminosos dela e os gestos de ternura garantindo que o amour fou pode durar uma vida inteira. É também dessa felicidade que nasce o enigma.


[no Público de amanhã]

2/18/2010

Al alrobés de Oulices

Al alrobés de Oulices

Anfeliç quien, al alrobés
de Oulices, torne a casa
i nien sequiera un perro, nien
un perro muorto sequiera, lhadre.


Pedro Mexia, «Em Memória» (2000)
(tradução para mirandês encontrada aqui)
No dia 18 de Fevereiro, às 21h30, a poesia volta ao Vinyl, com o Pedro Mexia como convidado. Pedro Mexia nasceu em 1972, é poeta e crítico literário, autor de seis livros de poesia (estando na calha uma antologia, para sair este ano). Para ler os poemas de Mexia, vamos contar com a presença de Carlos Vaz Marques, sendo que Samuel Úria abrilhantará a noite com a sua música de baladeiro audaz.

O Poesia em Vinyl é um evento mensal, organizado por Raquel Marinho e Luís Filipe Cristóvão.

O restaurante Vinyl fica na Travessa da Galé 36, em Alcântara.

A entrada é livre.

Ouvido no café (2)

«Fui feliz até aos 19 anos e 1 dia. 1986, sábado de manhã».

Ouvido no café (1)

«Depende da prostituta».

2/17/2010

Homenagem a Alexander McQueen













Jordana Brewster, ao melhor estilo bumster.

2/15/2010

O teu alcaçuz

O neurologista norte-americano Alan R. Hirsch é especialista no tema da excitação sexual e sua relação com os cheiros. Os estudos que ele conduziu chegaram a conclusões patuscas. Cito a notícia do jornal i: «O processo consistia em medir o fluxo sanguíneo do pénis enquanto se testavam diferentes aromas. Concluiu-se que o cheiro a tarte de abóbora com lavanda era a melhor combinação: aumentava 40% o fluxo no pénis. Seguia-se o cheiro a donuts com alcaçuz preto, um estímulo de 31,5%, e o aroma da laranja, com um resultado de 19,5%». Quanto às mulheres, «o que funciona melhor é o aroma de pepinos e pó de talco, mas só desencadeia um aumento de 13% da irrigação vaginal. Segue-se mais uma vez o alcaçuz e pão com nozes e banana. Já o cheiro a cerejas (-18%) e carne grelhada no churrasco (-14%) se revelaram inibidores da excitação». O darwinismo sexual é assim: nasceu como tragédia narcísica e repete-se como farsa gourmet.

2/12/2010

A small blue demo

Viagem de inverno

(...) Outra pessoa apanhava de imediato um avião e estava em Paris numa hora e meia. Werner Herzog preferiu demorar três semanas, porque acreditava que quanto mais tempo demorasse mais tempo Lotte tinha para ficar boa. Ele confiava nos sonhos mais tresloucados, e nada impedia que aquela viagem de Inverno conseguisse impedir a morte de alguém.

(...) A solidão, escreve Herzog, dá-nos “intuições dramáticas do futuro”. E “dramáticas” aqui é uma palavra esperançosa. (...)


[no Público de amanhã]

2/10/2010

Do pecado

A inabilidade é um pecado tão grande como a má intenção.

Steven Soderbergh














Jules Asner, mulher de Steven Soderbergh.
Também gosto dos filmes.

Não dizem nada

Detesto aquele cliché «todos os pessimistas dizem que são realistas». Eu nunca disse que sou realista. Claro que acho que o pessimismo está mais perto da «realidade» do que o optimismo. Claro que defendo a sensatez do «realismo». Mas sou um realista não-praticante, ao passo que o meu currículo pessimista é impecável.

2/09/2010

Blackbird


















A pedofilia é um tema impossível? Blackbird, peça de 2005 do escocês David Harrower, prova que não. O que é «idade do consentimento», pergunta o texto, qual a fronteira entre o amor e o abuso, entre o desejo e o engano? Miguel Guilherme e a extraordinária Isabel Abreu jogam este jogo intimista e perigoso, bem dirigidos por Tiago Guedes.

Blackbird, de David Harrower
Encenação de Tiago Guedes
Teatro Nacional D. Maria II, sala estúdio, Lisboa

Betão

Segundo a wikipédia, o betão pré-esforçado é «um método de ultrapassar a fraca resistência à tracção que o betão possui. Ao pré-esforçar o aço dos varões cria-se uma carga de aperto que faz com que se crie uma força de compressão que compensa a tensão que o betão exibiria face à carga». Talvez me faltasse isso: betão pré-esforçado. Devia ter pensado nisso a tempo. O esforço que agora faço é em vão.

2/08/2010

Girl afraid / boy afraid



In the room downstairs
She sat and stared
In the room downstairs
She sat and stared
I'll never make that mistake again

2/07/2010

Alemão sem mestre

Diga: Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.
Repita: Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.
Mais uma vez: Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.
É isso: Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.

Casa

No meio da metafísica, diz Rilke: quem não tem ainda a sua casa, já não a constrói. Terrível verso. Mas como pode haver metafísica sem que haja esperança? Como sabemos se pertencemos a algum lado, quando em nenhum lado temos casa?

Boletim clínico



I wish that I had known in that first minute we met,
The unpayable debt that I owed you.
Because you'd been abused by that bone that refused you,
And you hired me to make up for that.

Walking in that room when you had tubes in your arms,
Those singing morphine alarms out of tune
Kept you sleeping and even, and I didn't believe them
When they called you a hurricane thunderclap.

When I was checking vitals I suggested a smile.
You didn't talk for awhile, you were freezing.
You said you hated my tone, it made you feel so alone,
And so you told me I ought to be leaving.

But something kept me standing by that hospital bed,
I should have quit but instead I took care of you.
You made me sleep and uneven, and I didn't believe them
When they told me that there was no saving you.


[The Antlers, «Kettering», álbum Hospice , 2009]

2/06/2010

A escolha de Sofia

A «escolha de Sofia» (do romance de Styron e do filme de Pakula) consiste na obrigação de decidir entre duas opções igualmente más, e naquele caso igualmente terríveis. Ninguém faz uma «escolha de Sofia» se não for obrigado a isso. Mas quando escolhe, seja o que for que escolha, a pessoa faz parte de uma tragédia, e mais ainda, é agente da sua própria tragédia.

2/05/2010

Circe / um despejo quieto e vergonhoso