3/26/2010
3/22/2010
Cento e noventa e dois
1 - Quem, sem consentimento e com intenção de devassar a vida privada das pessoas, designadamente a intimidade da vida familiar ou sexual:
a) Interceptar, gravar, registar, utilizar, transmitir ou divulgar conversa ou comunicação telefónica;
(...)
é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 240 dias.
[Código Penal, artigo 192º]
a) Interceptar, gravar, registar, utilizar, transmitir ou divulgar conversa ou comunicação telefónica;
(...)
é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 240 dias.
[Código Penal, artigo 192º]
Alguma coisa aí
há alguma coisa aí
onde
aí fora
aí fora onde
e fora
de quê
da cabeça claro
alguma coisa algures fora
da cabeça
alguma coisa que se desfaz
ao mais leve ruído
ainda antes
de o mundo ficar devastado
olhos que se
abrem
e abrem mais ainda
até que por fim
já nada
os fecha
assim às vezes
aí fora
algures aí fora
como se alguma coisa
alguma coisa
mas não necessariamente
a vida
[Beckett, «Something There», 1974, versão PM]
onde
aí fora
aí fora onde
e fora
de quê
da cabeça claro
alguma coisa algures fora
da cabeça
alguma coisa que se desfaz
ao mais leve ruído
ainda antes
de o mundo ficar devastado
olhos que se
abrem
e abrem mais ainda
até que por fim
já nada
os fecha
assim às vezes
aí fora
algures aí fora
como se alguma coisa
alguma coisa
mas não necessariamente
a vida
[Beckett, «Something There», 1974, versão PM]
3/21/2010
Conselhos teológicos
Um dentista judeu vai ter com um rabi e conta que descobriu nos dentes de um paciente gentio umas inexplicáveis inscrições em yiddish. Inquieto, quer saber se se trata de um sinal de Hashem (Deus). E pergunta o que deve fazer depois de ter recebido esse sinal, se deve «ajudar os outros» ou alguma coisa assim. O rabi responde: «Look. The teeth, we don't know. A sign from Hashem? Don't know. Helping others... couldn't hurt».
[A Serious Man, 2009, dos irmãos Coen]
[A Serious Man, 2009, dos irmãos Coen]
3/20/2010
Esse género de coisas
DEVLIN: (…) When you lead a life of scholarship you can’t be bothered with the humorous realities, you know, tits, that kind of thing (…).
Harold Pinter, Ashes to Ashes, 1996
Harold Pinter, Ashes to Ashes, 1996
3/18/2010
O Centro Cultural de Belém assinala o Dia da Poesia, 21 de Março. Estarei presente na sessão «De viva voz», que decorre das 14:30 às 19:00 na Sala Luís de Freitas Branco. André E.Teodósio diz Alexandre O’Neill, Luís Lucas diz Cesário Verde, Luísa Cruz diz Sophia de Mello Breyner Andresen. E Álvaro Magalhães, Amadeu Baptista, Pedro Mexia, Maria do Rosário Pedreira, António Poppe, Pedro Tamen, Filipa Leal, Armando Silva Carvalho, Tolentino Mendonça, Fernando Luís Sampaio, Nuno Júdice, Sérgio Godinho, Gastão Cruz e Miguel-Manso lêem poemas seus.
3/17/2010
3/16/2010
«Purezza e peccato nel mondo di Alessandro Manzoni»

Foi o tema que Vanina escolheu. Todos os outros escolheram a outra opção («Parlate di voi stessi»). Foi isso que fascinou o professor de literatura, ou então foi o facto de a rapariga ter um nome stendhaliano. Ou então foi ela: os olhos e a boca e o cabelo e a melancolia.
[Valerio Zurlini, La prima notte de quiete, 1972, com Alain Delon e Sonia Petrova]
Aceitar Walser
O que eu quero é que me deixem em paz. Se há pessoas, apesar de tudo, que se querem ralar comigo, fiquem a saber que eu nunca me hei-de ralar com tão raladoras pessoas. Até hoje, escrevi o que escrevi sem nenhuma espécie de obrigação. Escrevi muito, o que não quer dizer que tenha escrito bem. Não me venham é falar dos “livros precedentes!”. Não os sobrestimem. Esforcem-se é por aceitar Walser, enquanto ele for vivo, pelo que ele aparenta.
[Robert Walser]
[Robert Walser]
Ómega
Há vantagens, e não são poucas, em ser um macho ómega. As mulheres concedem lautos favores aos machos ómega. Claro que o ómega não tem vantagens sexuais, mas isso também já seria abuso.
Les jeux sont faits
Ao contrário do que se diz, o sexo é subvalorizado. Não duvido que outras pessoas tenham vidas mais surpreendentes do que a minha, mas na minha vida não conheço nada que não tenha uma explicação sexual. Tudo o que me acontece ficou previamente decidido na dimensão sexual, mesmo quando o assunto tem uma natureza casta, de modo que quando vou a jogo, ganhe ou perca, já ganhei ou perdi antes. Às vezes duvido que seja um homem livre.
Status
Nos últimos cinco dias, em cinco situações diferentes, um elemento comum: tudo se decidiu de acordo com o estatuto sexual das pessoas envolvidas. Estatuto? Isso mesmo, estatuto: a representação mental que cada pessoa conquistou. Não importa a factualidade, só interessa o status a que alguém subiu (ou desceu) com base em suspeitas, gestos, imagens e expectativas. Em todas as situações, cinco, todas diferentes e nenhuma delas lúbrica, quem ganhou e quem perdeu ganhou e perdeu por causa do seu estatuto sexual. Resultados? Os resultados previsíveis.
3/15/2010
3/13/2010
Concluído o Publius Ovidius Naso, falta o Tomáš Straussler.
O Lei Seca retoma a actividade daqui a quatro semanas.
O Lei Seca retoma a actividade daqui a quatro semanas.
3/10/2010
O efeito Pigmalião

Guimarães (Centro Cultural Vila Flor), de 10 a 14 de Março
Braga (Theatro Circo), 18, 19 e 20 de Março
Famalicão (Casa das Artes), 26 e 27 de Março
O Teatro Oficina, em colaboração com o Centro de Computação Gráfica da Universidade do Minho, promove este projecto de criação, onde arte e ciência, teatro e tecnologia, se unem para contar uma história, transformando a ficção científica de ontem no modo de representar hoje a realidade.
Três cidades unem-se para contar uma história, onde recorrendo à literatura que construiu a civilização que somos hoje, fazemos um texto novo, que fala exactamente daquilo que nos interessa no teatro, a criação do humano.
Este espectáculo é uma variação sobre a história de Pigmalião e Galateia, contada por Ovídio nas «Metamorfoses»: o escultor solitário e esteta que constrói uma estátua da mulher perfeita, se apaixona por ela, e a vê depois transformada numa mulher real.
Através do mito de Pigmalião é explorada a ideia da «invenção do feminino». Partindo-se de Ovídio, e das várias traduções portuguesas e estrangeiras, fazendo da estátua um programa de computador e da Galateia um holograma. Já com Galateia materializada em pessoa, contesta-se a ideia de «mulher perfeita» perguntando-se porque é que a mulher há-de continuar a ser «inventada» pelo homem, em vez de ter o mesmo grau de realidade do homem. Do lirismo da homenagem ao mito, se caminhará para a crítica e ironia.

Texto: Pedro Mexia
Encenação: Marcos Barbosa
Cenografia: Ricardo Preto
Figurinos: Susana Abreu
Desenho de Luz: Pedro Carvalho
Som e Música: Sérgio Delgado
Elenco: Diana Sá e Emílio Gomes
Espectáculo no âmbito da rede Quadrilátero
Co-financida por QREN, ON-Operação Norte e União Europeia
Produção executiva: Teatro Oficina
Apoio: Centro de Computação Gráfica e Hypercube
3/09/2010
3/08/2010
Mark Linkous 1962-2010

Em 1996, Mark Linkous ficou inconsciente depois de tomar um cocktail de álcool, tranquilizantes e anti-depressivos. Caiu em cima das pernas dobradas, e as pernas ficaram privadas de circulação sanguínea durante catorze horas. Quando o reanimaram, Mark sofreu um colapso cardíaco e esteve clinicamente morto durante dois minutos.
Descobri Mark Linkous já depois de 96, e sempre o ouvi como alguém com autoridade, porque esteve do lado de lá. Em 96, e hoje ainda mais, não dava ouvidos a pessoas que tinham teorias mas não tinham cicatrizes. E descobri nos discos de Linkous a capacidade rara de aliar melodias solares e intimismos negros, uma doce e perigosa intimidade. Não por acaso o seu último disco chamou-se Dark Night of the Soul, a noite escura da alma.
Respeito quem entrou nessa noite escura. Só a esses ouço.
Mark Linkous suicidou-se anteontem, aos 47 anos, com um tiro no coração.







