
Com o amor não se brinca, diz Musset, cunhando um dos seus «provérbios». Ele não brincou, esteve física e mentalmente mal depois dos seus amores tumultuosos com George Sand, e escreveu
On ne badine na ressaca. A peça é um texto para ser lido, uma «comédia num sofá». É a primeira novidade, uma acção que está nas palavras, como acontece aliás com as paixões. Quando Musset vai buscar a ideia de «coro», não é um coro grego, é um coro colectivo mas subjectivo, irónico, na verdade uma espécie de «voz
off». Aquilo que é mais estritamente comédia na peça é do domínio da caricatura, os clérigos comilões, mas depois há outra dimensão da comédia, que é o boicote do princípio trágico mais comum. Em vez de dois amantes que contrariam as famílias com o seu amor, temos uma rapariga que se recusa a um casamento arranjado pelo pai, ainda por cima um casamento com um rapaz que ela provavelmente ama. Camille diz que o seu noivo não é deste mundo, que é noiva de Cristo. Está influenciada pelas freiras do seu convento, que inculcaram nela um revanchismo contra o amor carnal («o céu não é para elas», comenta o rapaz, Perdican). Mas não é apenas o puritanismo religioso que a afasta. É a sua inconstância, a sua fingida indiferença, o seu orgulho. Camille quer Perdican, mas a sua «autonomia» só se exerce sob a forma de capricho, e com falsas desculpas. Por isso ele também brinca, envolvendo uma terceira rapariga. Camille admite então que não é contra o jogo, porque ela também joga, também muda de pensamento e de linguagem. Representa, ou seja, mente. Mente por necessidade e por passatempo. E enquanto os meninos se entretêm a brincar, os inocentes sofrem por causa disso, eles próprios sofrem no fim, pode-se brincar com quem quer brincar, mas não com aqueles que não têm feitio nem malícia para isso. Brincar aos casais, como sugere Perdican, tem graça. Brincar ao amor, como descobre Camille, é fatal. Daí que
On ne badine pas seja o exercício moralista por excelência: a comédia com final infeliz.
[On ne badine pas avec l'amour, Alfred de Musset, 1834]