6/30/2010

Como um doente anestesiado numa mesa

Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherised upon a table


[T.S. Eliot]

Anarquia, Estado e Utopia


















Li este livro há muitos anos. Na altura, grande parte das teses de Nozick eram para mim um desafio. Hoje, acho muitas delas uma evidência. Se essa mudança é positiva ou negativa depende da vossa fantasia.

Vale de Lobos

Vale de Lobos é onde um homem quiser.

E assim sucessivamente

A minha escolha (2)

Antes ter amargos de boca do que ficar com boca de lacaio.

A minha escolha (1)

Alguém que mal me conhece definiu assim uma série de agruras recentes: «abuso e sujidade». É isso mesmo. Escolho então a liberdade e a higiene. Antes correr riscos do que sentir nojo.

A escolha

Há uma frase muito citada que diz que «as ideias têm consequências». É uma tese intelectualmente optimista e certamente falsa. Nem sempre as ideias têm consequências, e nalguns casos ainda bem. As escolhas, pelo contrário, têm sempre consequências. Quem faz uma escolha não pode ignorar que desencadeou uma consequência. Então que a aguente. Não me venham é com homilias éticas, humanismos bacocos, indignações de lacaio. Quem escolhe as acções escolhe as consequências. Não gostam? Temos pena.

6/21/2010

Ein Traum, was sonst?

















Quando descobre que não vai ser executado, que foi perdoado, que fica com a mulher amada, tudo de repente e sem aviso, o Príncipe de Homburg pergunta se aquilo é um sonho. O coronel diz: «Ein Traum, was sonst?».

«Um sonho, claro, que mais podia ser?»

O Príncipe podia ter perguntado se a condenação à morte tinha sido um sonho, de que agora despertava, mas pergunta antes se aquele desfecho feliz é um sonho, como se fosse demasiado bom para ser verdade.

E portanto é terrível a resposta do coronel: ele diz que a realidade é um sonho, que não podia ser senão um sonho. Não acordaste de um pesadelo, Príncipe de Homburgo, para viveres feliz para sempre, acordaste da realidade para este sonho feliz, não te fies que seja outra coisa que não isso, um sonho. Que mais podia ser?

[O Príncipe de Homburgo, de Kleist, tradução de Luísa Costa Gomes, Ática]

Victoria, Sveriges kronprinsessa, hertiginna av Västergötland

Como sueco honorário, aqui deixo as minhas calorosas felicitações nupciais a Sua Alteza Real Vitória, Princesa Herdeira da Suécia, Duquesa de Västergötland, e a Sua Alteza Real, Príncipe Daniel da Suécia, Duque de Västergötland. Lycka till.

Em duas ou três palavras

As minhas «relações», mal se anunciam ou enquanto duram, parecem sempre terrivelmente «complexas». Mas quando abortam ou terminam, são sempre tão simples, tão evidentes, tão tristemente explicáveis em duas ou três palavras.

6/19/2010

The best bugger on the West Coast

Sob escuta

As escutas estão em debate. Juridicamente, tenho um entendimento minimalista do uso de escutas judiciais, mas confesso que nesta altura do campeonato já estou mesmo preocupado é com escutas extra-judiciais. Eu sabia que existiam, mas nunca tinha dado com elas. Até que descobri que alguém andava a ouvir as minhas conversas telefónicas. A princípio nem acreditei nessa hipótese, que achei rebuscada, patusca, implausível. Mas depois vieram os barulhinhos esquisitos e a circulação de informações confidenciais. O espanto deu lugar ao choque. E ainda por cima percebi que a invasão da privacidade è às vezes considerada uma extensão desculpável da «vontade de saber». E lembrei-me que já sabia isto, que isto vem no The Conversation de Coppola: as escutas revelam conversas, mas o uso de escutas revela a natureza humana.

6/17/2010

Out of my league

Kirk é um rapaz perfeitamente comum até ao dia em que, no aeroporto onde trabalha como segurança, conhece Molly, uma rapariga de uma beleza e inteligência excepcionais. Kirk, com as suas inseguranças e inibições, e apesar das várias investidas da rapariga, entra num processo de negação, não compreendendo o que uma pessoa como Molly pode ver num tipo simples como ele. Com o passar do tempo, e depois de vários encontros, ambos percebem que estão apaixonados e que estão dispostos a levar a relação para o nível seguinte. Mas, infelizmente, parece que o mundo se uniu contra os dois e ninguém à sua volta parece acreditar no futuro daquela relação pois, segundo parece, ela é demais para ele. Agora alguém vai ter de trabalhar a sua auto-estima e provar de que material é feito.

[sinopse de She's Out of My League / Ela é Demais Para Mim; estreia hoje]

6/16/2010

A incrível verdade

A última palavra

JOSH: But that's not the last word.

AUDRY: What's the last word?

JOSH: I dunno. Faith, maybe.

AUDRY: Which one: «faith» or «maybe»?


[Robert Burke e Adrienne Shelly em The Unbelievable Truth, Hal Hartley, 1989]

Anedonia

O sofrimento é quase um oásis ao pé da anedonia.

Diz

Às vezes o organismo diz-nos coisas básicas, coisas que reconhecemos logo, medo, fome, desejo, coisas dessas, mas eu não percebo o que é isto, que linguagem é esta, que sinais são estes. Não sei o que é que o meu corpo quer de mim. Seja o que for, estou diposto a dar, a ceder, a obedecer. Faço o que for preciso. Só preciso de saber o que é que ele quer.

Perdoar o imperdoável

Derrida escreveu: «le pardon pardonne seulement l'impardonnable». Eu perdoo facilmente o perdoável, mas isso custa pouco; será que seria capaz de perdoar o imperdoável? Não sei, porque nunca fui vítima de uma injustiça, ou seja, de um imperdoável. O meu perdão não vale nada.

Cansado

Estou cansado, só isso, cansado, por favor não me perguntes «cansado de quê», por favor não perguntes isso.

6/15/2010

Viver cansa

Seis dias seguidos de azares, más notícias, episódios desagradáveis, conflitos, dificuldades, contratempos, fracassos. Nada realmente importante, coisas banais, mas o efeito cumulativo é quase insustentável. A vantagem é que cada novo elemento atenua os outros. A desvantagem é que ao fim de uma semana se fica sem vontade de sair de casa, sem vontade de coisa nenhuma. Viver cansa.

6/14/2010

But they were the only ones who ever stood by you

6/09/2010

Vem na cantiga

With your triumphs and your charms
While they're in each other's arms


[The Smiths]

Richter

Houve um tremor de terra, isso ninguém nega. Temos é ideias diferentes sobre o grau na escala de Richter.

Bastidores

A quantidade de textos deixados em rascunho, e agora inúteis.

6/08/2010

Mas exactamente quem dedica isto a quem?

6/07/2010

Não desaparece

Reality is that which, when you stop believing in it, doesn't go away.

[Philip K. Dick]

6/03/2010

With this really ragged notion that you'll return

Teoria da escolha

«Escolha», segundo os dicionários, é um processo mental que envolve o juízo acerca dos méritos de múltiplas opções e a consequente selecção de uma delas.

Acho toda essa definição questionável.

O processo é «mental» mas também pode ser geneticamente condicionado; «mental» sugere uma liberdade que nem sempre existe.

O «juízo» pode ser de facto um juízo, mas pode ser uma pura impressão, sensação, preconceito. Grande parte das nossas escolhas faz-se com base em informação defeituosa.

Esses juízos podem ser de «mérito», mas muitas vezes são também de conveniência, de oportunidade, têm motivos fúteis ou conjunturais, e aliás respeitáveis.

Nem sempre há «múltiplas» opções, às vezes há opções iguaizinhas, a que damos nomes diferentes ficcionarmos um leque de escolhas.

Só há uma coisa que é verdade: a escolha é uma selecção. Pode ser uma selecção provisória, hesitante, incompleta, mas uma escolha é uma opção. Mais do que um resultado, quem decide anuncia uma intenção. Quando a escolha está feita, acabou o «processo mental». A comédia acabou.

6/02/2010

Just 'cause you feel it doesn't mean it's there

Capitis deminutio

Desde os tempos da faculdade que tenho um certo fascínio pela figura jurídica chamada capitis deminutio. Tem origem no direito romano, e refere-se à diminuição de direitos e liberdades de um sujeito. À diminuição do seu estatuto legal. Hoje, não vigora enquanto tal, embora uma sociedade moderna e democrática também tenha casos de restrição de direitos e liberdades, por exemplo no caso de pessoas detidas, interditadas, etc. A capitis deminutio já não resulta de uma condição, mas apenas de uma situação. Mas em muitos casos, uma situação, com o tempo, torna-se uma condição. Não evoluímos assim muito.

6/01/2010

Impressões dessa noite

Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.

[«Missa do Galo», Machado de Assis]

Não aconteceu nada

Depois de Eça, Oliveira vai adaptar ao cinema Machado de Assis: «Missa do Galo», um conto de 1893. Ao pé da «patologia» ambígua mas activa da rapariga queirosiana, a subtileza minimalista do conto machadiano parece quase infilmável. O que é que acontece em «Missa do Galo»? Nada. Um estudante de dezassete anos conversa com a mulher do escrivão carioca em casa de quem está hospedado, enquanto faz horas para ir à missa do galo. Ela sabe que o marido anda com outras. É uma mulher de trinta anos, submissa, tranquila, triste, não especialmente bonita. A conversa sobre tudo e nada, noite fora, encanta o rapaz. À hora da missa, vêm chamá-lo e ele sai. Ela vai-se deitar. No dia seguinte, a mulher porta-se como se nada tivesse acontecido, como se a conversa não tivesse existido, como se naquela banalidade nocturna houvesse alguma malícia, alguma culpa, alguma confissão. Não se passou nada, e ela finge que se passou alguma coisa? Ou aconteceu alguma coisa, e por isso ela finge? O rapaz conta que depois disso foi embora do Rio e nunca mais a viu.