
«No fundo, Carolina não é má pessoa, mas faltam-lhe bases morais. A ela e a todos os outros que andam pela Festa da Cerveja de Munique. Uma festa agitada e um pouco melancólica, pois nem a música nem os zepelins podem fazer esquecer por muito tempo a tristeza dos corações e dos corpos. Casimiro, o namorado de Carolina, perdeu o seu emprego de motorista, e Carolina engana-se quando julga que isso não terá consequências na relação. Há já algum tempo que a decomposição da sociedade burguesa se iniciou. Estamos no princípio dos anos 30, e todos conhecemos o que aconteceu depois. Que o nosso tempo seja visto como uma consequência ou uma recorrência das tragédias passadas importa pouco. Em Ödön von Horváth, a acutilância do olhar nasce de uma observação precisa do
kitsch e dos sentimentos fictícios, que ele sabe transformar numa sátira cheia de poesia».
Eis uma fina síntese de
Casimiro e Carolina (1932), tirada da página das edições
L' Arche, que traduziram o teatro completo de Horváth.
Vi ontem
Casimiro e Carolina, numa estupenda encenação de Emmanuel Demarcy-Mota. Em palco, trata-se efectivamente de um espectáculo, é raro uma peça poder ser chamada assim com tanta propriedade.
O texto faz-se de trivialidades de festa, de alegrias, despiques, confissões, fanfarronices, de angústias sociais, humilhações, complexos, desejo carnal, tudo à luz crua de uma robusta cultura popular já inquinada pelos compreensíveis temores passados (1929) e futuros (1933). Entre a crise a o nazismo, Horváth consegue fazer um teatro ao mesmo tempo popular e crítico, sem homilias, que leva gente como Handke a preferi-lo a Brecht.
Conhecia apenas as comédias de Horváth (
Hotel da Bela Vista está editado na Cotovia), e não estava preparado para aquele zoo humano. Sobretudo, fiquei surpreendido com a função da tragédia, que é um pêndulo entre o brutal e o poético.
E o facto de Carolina deixar Casimiro quando ele fica desempregado? É uma tese sobre o colectivo ou uma impressão sobre os indivíduos? É um ataque social ou um ataque de misantropia? É política ou moral? É pessimismo circunstanciado ou pessimismo antropológico?
Perguntas, perguntas. Impossível não simpatizar com Horváth.