7/23/2010


















O meu início do ano foi passado com os senhores Publius Ovidius Naso e Tomáš Straussler. Agora, o meu Agosto terá por companhia os cavalheiros Pierre Carlet de Chamblain de Marivaux e Leonard Norman Cohen. No regresso haverá novidades, no blogue e fora do blogue. O Lei Seca volta em Setembro. Cheers.

7/22/2010

Muito cá de casa







Terminam hoje, a meu pedido, as minhas funções na Cinemateca. Durante vinte anos, fui visita da casa. Durante dois anos e meio, fui da casa. Continuarei sempre «muito cá de casa».

7/20/2010

Não se incomodem

Lot of water under the bridge, lot of other stuff too
Don’t get up gentlemen, I’m only passing through


[Bob Dylan]

Vou para casa

Piccoli com os seus sapatos novos em Vou para Casa. O gozo e o conforto da novidade útil e já acomodada, ele quase juvenil a mexer os pés calçados, pronto para andar na rua e para ir para casa, não para desistir mas para viver ainda.

Equilíbrio



[«Ao Deus Dará», letra de Miguel Esteves Cardoso, música de Balla. O álbum Equilíbrio sai em Outubro e inclui também um poema meu, «Lixo», uma canção de Campo de Ourique]

Cuidado com eles

Fatal Attraction (1987) gerou um subgénero a que se chamou «the [substantivo à escolha] from hell». Exemplos: Pacific Heights (1990), Sleeping with the Enemy (1991), The Hand That Rocks the Cradle (1992), Single White Female (1992), The Temp (1993).

As nossas mãezinhas ensinaram-nos a não confiar em estranhos, mas estes filmes tornaram a noção de «estranho» bastante lata, e portanto bastante mais ameaçadora. Os indivíduos com quem convivemos todos os dias podem ser estranhos, incluindo cônjuges, colegas, empregados, inquilinos. E, sendo estranhos, é preciso ter cuidado com eles.

Os taciturnos

Fui-me afeiçoando às personagens taciturnas que povoam os filmes de Jarmusch e de Kaurismaki. Eu também digo poucas coisas, e não vejo razão nenhuma para falar mais do que o essencial, excepto entre amigos chegados. Há uma superstição que diz que quem fala pouco «não gosta de pessoas». Nesse caso, não há gente mais humanista do que os tagarelas.

Bagagem

Aeroporto

Uns voos diziam «cancelado» e outros «atrasado», e agora dizem todos «boarding».

A nuvem

Ironia do destino: tinha viagem marcada e não viajei por causa «da nuvem». Quando fizer em breve essa viagem, «a nuvem» já passou, mas há outra nuvem, uma nuvem que não passou, e eu tento viver nos intervalos de luz dessa nuvem.

Ghostwriting

Queria ter-te contado, mas claro, já cá não estás, ou sou eu que não estou, não sei bem, somos agora de novo desconhecidos, imagina, desconhecidos, morremos civilmente, desaparecemos, é difícil às vezes não ter nojo da vida.

O cinema em 2010













Chegámos a finais de Julho e confirma-se: este ano cinematográfico é fraco. Tivemos a habitual meia-dúzia de novatos prometedores, é verdade, mas dos consagrados não veio nenhuma obra fundamental. Allen, Bellocchio, Burton, os Coen, Herzog, Polanski e Resnais fizeram filmes interessantes, mas não mais que isso. O mesmo se diga de Baumbach. Scorsese e von Trier entraram em colapso. Salva-se Kiarostami (embora Shirin seja sobretudo uma instalação) e, curiosamente, dois filmes sobre ruínas, de Mozos e Zhang-ke. É pouco.

[Whatever Works, Vincere, Alice in Wonderland, A Serious Man, Bad Lieutenant, The Ghost Writer, Les herbes folles, Greenberg, Shutter Island, Antichrist, Shirin, Ruínas, 24 City (na foto); todos estreados em 2010]

Sempre se conversa

Qual a diferença entre os darwinianos sexuais e os nietzschianos sexuais? Parecem ter muito em comum, mas vejo neles espíritos bem distintos. Os darwinianos são fortes, superficiais, predadores. Os nietzschianos são especulativos, misóginos, secretamente frágeis. Têm ambos uma húbris cansativa, mas com um nietzschiano sempre se conversa.

Ómega

Lamento trazer uma má notícia aos darwinianos: a sublime Emily Blunt casou com o actor John Krasinski, um moço fisicamente banal, e além disso afável, pacato e inofensivo. Claramente um macho ómega. Ai, ai, as «leis da natureza».

Yesterday is here

Would you?

Numa entrevista ao Observer, em 1984, tentaram pôr Tom Waits a comentar assuntos políticos, coisa que ele não aprecia. Grande resposta de Waits: You wouldn't ask Ronald Reagan about Charlie Parker, would you?

Os sorrisos do destino

Na minha vida privada, quase todos os males vieram por mal. Ao invés, na minha vida pública já não me lembro de um mal que não tenha vindo por bem. De modo que, agora, quando este «mal» apareceu, recebi-o logo com as exultações de um acontecimento benéfico.

7/19/2010

Irkutsk

Sou como o Miguel Strogoff: tenho que chegar a Irkutsk, e para cumprir essa missão aguentarei em silêncio insultos e chicotadas. Estou obrigado a uma missão e a um segredo, e nada me desviará disso. Irkutsk nunca esteve tão perto.

Pauvre Gaspard

Felizmente, não muitas vezes. Mas, infelizmente, algumas, aconteceu-me. De onde menos se espera, de quem menos se espera, a coisa mais dura e mais feia de ver, ouvir ou experimentar: o acto ou a palavra infame, a canalhice em toda a sua brutidade.

Não tenho o dom da resposta pronta. Se o tivesse gostava de ter dito a quem desceu tão baixo a frase que Roland (Jean Kéraudy) disse a Gaspard (Marc Michel) no final de
Le Trou: «Pauvre Gaspard.» Nem mais, nem menos.

[João Bénard da Costa, Os Filmes da Minha Vida – 2º volume, 2007]

Jon Fosse


















Uma vez recebi uma carta do Jorge Listopad que dizia: «Não sabia que você era norueguês». Só percebi a piada quando vi o recorte que vinha junto, um jornal nórdico com uma fotografia de Jon Fosse. Sabia quem era o dramaturgo, mas nunca o tinha visto. Somos, de facto, mesmo muito parecidos (embora eu seja sueco). Mas sei que as parecenças vão mudando com os anos. Quando eu era magro e mais hirsuto, diziam-me que dava uns toques de Alexi Lalas, o exuberante defesa da selecção americana de futebol em 1994. Mais tarde, descobri o meu sósia no actor Philip Seymour Hoffman. E houve, claro o avançado do Benfica Mats Magnusson; em miúdo, apenas por ser alto e muito louro, chamavam-me Magnusson. Outro dia, o sueco voltou a Lisboa para um jogo amigável, e está agora tão rotundo que quando tocou na bola caiu ao chão. Continuamos parecidos.

7/16/2010

Ödön von Horváth


















«No fundo, Carolina não é má pessoa, mas faltam-lhe bases morais. A ela e a todos os outros que andam pela Festa da Cerveja de Munique. Uma festa agitada e um pouco melancólica, pois nem a música nem os zepelins podem fazer esquecer por muito tempo a tristeza dos corações e dos corpos. Casimiro, o namorado de Carolina, perdeu o seu emprego de motorista, e Carolina engana-se quando julga que isso não terá consequências na relação. Há já algum tempo que a decomposição da sociedade burguesa se iniciou. Estamos no princípio dos anos 30, e todos conhecemos o que aconteceu depois. Que o nosso tempo seja visto como uma consequência ou uma recorrência das tragédias passadas importa pouco. Em Ödön von Horváth, a acutilância do olhar nasce de uma observação precisa do kitsch e dos sentimentos fictícios, que ele sabe transformar numa sátira cheia de poesia».

Eis uma fina síntese de Casimiro e Carolina (1932), tirada da página das edições L' Arche, que traduziram o teatro completo de Horváth.

Vi ontem Casimiro e Carolina, numa estupenda encenação de Emmanuel Demarcy-Mota. Em palco, trata-se efectivamente de um espectáculo, é raro uma peça poder ser chamada assim com tanta propriedade.

O texto faz-se de trivialidades de festa, de alegrias, despiques, confissões, fanfarronices, de angústias sociais, humilhações, complexos, desejo carnal, tudo à luz crua de uma robusta cultura popular já inquinada pelos compreensíveis temores passados (1929) e futuros (1933). Entre a crise a o nazismo, Horváth consegue fazer um teatro ao mesmo tempo popular e crítico, sem homilias, que leva gente como Handke a preferi-lo a Brecht.

Conhecia apenas as comédias de Horváth (Hotel da Bela Vista está editado na Cotovia), e não estava preparado para aquele zoo humano. Sobretudo, fiquei surpreendido com a função da tragédia, que é um pêndulo entre o brutal e o poético.

E o facto de Carolina deixar Casimiro quando ele fica desempregado? É uma tese sobre o colectivo ou uma impressão sobre os indivíduos? É um ataque social ou um ataque de misantropia? É política ou moral? É pessimismo circunstanciado ou pessimismo antropológico?

Perguntas, perguntas. Impossível não simpatizar com Horváth.

7/15/2010

Um interesse tão terno

Les dépositaires de l'autorité ne manquent pas de nous y exhorter. Ils sont si disposés à nous épargner toute espèce de peine, excepté celle d'obéir et de payer! Ils nous diront: Quel est au fond le but de vos efforts, le motif de vos travaux, l'objet de toutes vos espérances? N'est-ce-pas le bonheur? Eh bien, ce bonheur, laissez-nous faire, et nous vous le donnerons. Non, Messieurs, ne laissons pas faire; quelque touchant que ce soit un intérêt si tendre, prions l'autorité de rester dans ses limites; qu'elle se borne à être juste. Nous nous chargerons d'être heureux.

[Benjamin Constant]

Blefar

«Blefar», como dizem os brasileiros, é criar uma ilusão sobre o nosso jogo, sobre a nossa situação, com intenção de tirar proveito disso. Ora eu limito-me a manter uma discrição deontológica, sem fazer ou desfazer as ilusões alheias. E não retiro daí nenhuma vantagem. Só um grande gozo.

7/14/2010

À minha espera


















(daqui)

A felicidade dos livros

Ontem à noite, esvaziando caixotes, senti inesperadamente a felicidade dos livros. Uma felicidade que não se esgota em lê-los nem em tocar neles, mas exige ambas as dimensões, intelectual e táctil. Gosto de vê-los assim, arrumados ou desarrumados, o volume dos volumes em várias salas, parede acima, simétricos e exactos. Gosto de lhes encontrar o sítio, de ir folheando, tocando, lendo, perdido no impecável caos dos livros.

Católicos

Em Catholics, bizarro telefilme de 1973 baseado num romance de Brian Moore, a Igreja teve o seu Concílio Vaticano IV, e depois disso um grupo de frades rebeldes refugiou-se numa ilha. Aí celebram a missa em latim e vivem uma cristandade antiga, em comunidade. A Igreja Católica do futuro, tal como surge nesta ficção, é a Igreja dos sonhos de Küng. Ou, desçamos o nível, de Anselmo Borges. É uma Igreja modernaça, onde tudo o que é sagrado ou metafísico foi tornado meramente «simbólico» e mediaticamente aceitável. A Igreja aboliu a confissão, a transubstanciação, a oração, e defende a união de todas as religiões numa única grande ideologia «humanista» e imanente. Já não há «mistério da fé», porque já não há mistério nem fé. E a hierarquia tenta que os rebeldes se submetam à ortodoxia liberal. Somos então confrontados com uma curiosa dúvida: vale mais uma fé inabalável baseada em possíveis falsidades ou a verdade humanista mas sem convicção? Não é de todo esse o estado do catolicismo em 2010, mas este objecto de 1973 deve ser guardado para memória futura.

A guerra do sexo

Não tenho nada contra a Igreja de Inglaterra, mas é irónico que, quinhentos anos depois, os anglicanos enfrentem uma cisão por causa da guerra do sexo.

7/13/2010

Giuseppe Tomasi di Lampedusa

Os dois espectáculos

Em 1984, a actriz Cynthia Nixon entrou em duas peças que estavam em exibição simultânea (The Real Thing e Hurlyburly). Como os teatros ficavam perto um do outro, ela corria de um espectáculo para o outro.

A certa altura, já cansa.

Uma força

O «inconsciente»? Tenho sentimentos divididos. Sou como aquelas pessoas que não aceitam a existência de nenhum deus mas acreditam que existe «uma força».

Vagamente superior e indecifrável

















La donna, forse a motivo dell'educazione familiare, gli era parsa sempre una creatura straniera, con una donna non era mai riuscito ad avere la confidenza che aveva con gli amici. La donna era sempre per lui la creatura di un altro mondo, vagamente superiore e indecifrabile. [Dino Buzzati, Un amore, 1963]. Não subscrevo, mas entendo.

O doente Buzzati

Leio uma colectânea de textos diarísticos de Dino Buzzati e sou surpreendido com um prefácio em que se procura desculpar o pessimismo de Buzzati. Como se fosse uma doença ou um vício. De facto, não há nada mais repugnante do que o higienismo intelectual.

Harvey Pekar 1939-2010

Não sou um incondicional daquele registo «underground entediado» de Harvey Pekar (American Splendor), mas a verdade é que, como já se escreveu, ele foi o Seinfeld dos comics; não apenas deu um contributo importante à ficção autobiográfica como criou uma espécie de «comics about nothing». E «nada» é o que a vida em geral é. As minhas homenagens.

Madre mia



Já toda a gente viu, mas aqui fica outra vez o melhor golo do Mundial 2010.

O pugilista

Como diz o pugilista, é melhor dar do que receber.

Um luxo

Que tal este ano? O costume: enganos, decepções, fracassos. Mas uma coisa é certa, já lá vão sete meses e estou de bem com a minha consciência. Não é um consolo: é um luxo.

7/12/2010

Ezra Pound, «With usura»

With usura hath no man a house of good stone
each block cut smooth and well fitting
that delight might cover their face,

with usura

hath no man a painted paradise on his church wall
harpes et luthes
or where virgin receiveth message
and halo projects from incision,

with usura

seeth no man Gonzaga his heirs and his concubines
no picture is made to endure nor to live with
but it is made to sell and sell quickly

with usura, sin against nature,
is thy bread ever more of stale rags
is thy bread dry as paper,
with no mountain wheat, no strong flour

with usura the line grows thick

with usura is no clear demarcation
and no man can find site for his dwelling
Stone cutter is kept from his stone
weaver is kept from his loom

WITH USURA

wool comes not to market
sheep bringeth no gain with usura
Usura is a murrain, usura
blunteth the needle in the the maid's hand
and stoppeth the spinner's cunning. Pietro Lombardo
came not by usura
Duccio came not by usura
nor Pier della Francesca; Zuan Bellin' not by usura
nor was "La Callunia" painted.
Came not by usura Angelico; came not Ambrogio Praedis,
No church of cut stone signed: Adamo me fecit.
Not by usura St. Trophime

Not by usura St. Hilaire,

Usura rusteth the chisel
It rusteth the craft and the craftsman
It gnaweth the thread in the loom
None learneth to weave gold in her pattern;
Azure hath a canker by usura; cramoisi is unbroidered
Emerald findeth no Memling

Usura slayeth the child in the womb
It stayeth the young man's courting
It hath brought palsey to bed, lyeth
between the young bride and her bridegroom

CONTRA NATURAM

They have brought whores for Eleusis
Corpses are set to banquet

at behest of usura.

Os filisteus

Indivíduos de uma direita dogmaticamente «liberal», aliados a uma esquerda analfabeta, deram agora em atacar os artistas independentes. Armam-se em tontos, perguntando por que razão chamamos «independentes» a artistas «subsidiados», como se não percebessem que a «independência» é uma situação profissional, enquanto o «subsídio» é um modo de financiamento. Todos os artistas não vinculados a uma instituição são «independentes». Não existe nenhuma contradição entre isso e o facto de algumas artes precisarem de apoio financeiro, uma vez que não são sustentáveis apenas com a bilheteira. Dir-me-ão que devem ser pagos por mecenas, patronos, fundações? Óptimo, excelente, magnífico, eu também acho isso, assim a Lei do Mecenato funcione bem e os capitalistas mostrem um módico de apetência cultural. Mas claro que o discurso sobre os «independentes subsidiados», mascarado de indignação fiscal, é apenas o arremesso filisteu do costume. O velho ódio à cultura. O que a direita dogmática e a esquerda analfabeta querem é que tudo o que não dê lucro acabe de vez. Fazem-se de cosmopolitas, mas são uns taberneiros.

7/06/2010

Adelante, Uruguay













Setecentos jornalistas. Imagine-se que entre as quatro selecções sobreviventes no Mundial sobra uma única sul-americana e que todos os jornalistas disponíveis nas redondezas de Joanesburgo que arranham castelhano tiram o dia para ouvir o que é que o Uruguai tem para dizer antes do jogo com a Holanda. Entre o punhado de jogadores disponíveis está "Loco" Abreu, chamemos-lhe o jornalista número 701.

Washington Sebastián Abreu Gallo é de longe o jogador mais extravagante do Mundial. Por todas as razões e mais algumas. Gera-se um rebuliço cada vez que Abreu entra na sala de um hotel ou cada vez que passa pelo corredor nas catacumbas de um estádio. O uruguaio, 33 anos, 1,92m, aparece quase sempre com a câmara de filmar ligada e apontada aos jornalistas. Na outra mão, uma caneca de chimarrão a fumegar. A plateia fica sempre à espera de um bom título, pelo menos de uma tirada genial como a primeira frase que soltou quando apareceu na zona mista no final da vitória com o Gana. "Ainda bem que a Internet ainda não chegou ao Gana..."

Abreu já foi um de nós. Quando tinha 14 anos trabalhava para o El Serrano, jornal diário de Lavalleja, a sua cidade natal. Desenrascava crónicas de jogos de futebol e de basquetebol, dava notas aos jogadores, escolhia a figura, o normal. Um dia foi cobrir a final de um torneio juvenil em basquetebol entre o Atenas e o Libertad, clube que o próprio representava. "Tinham-me pedido para entrevistar a figura e foi o que fiz." Chegou a casa, tomou um banho e sentou-se à máquina de escrever. Sebastián Abreu, o jornalista, entrevistou Sebastián Abreu, o "artilheiro" do jogo e do campeonato.

Na África do Sul continua a ser a figura. Mesmo quando não joga. E, no limite, Óscar Tabárez nem o convocou para jogar. O seleccionador queria tê-lo por perto como uma espécie de capitão sem braçadeira, um conselheiro e animador, um faz-tudo que entrou em campo para deixar marcas no dramático jogo com o Gana. "Pediu-me que entrasse e que incomodasse os adversários, que estivesse entre os centrais, que esticasse a equipa, que fosse o pivot, que tapasse o 5 e que tomasse decisões". Cumpriu à risca. E mais além. Foi na lotaria de grandes penalidades que "El Loco" Abreu tirou o prémio da noite. Os uruguaios e os brasileiros lembravam-se perfeitamente da grande penalidade que Abreu, camisola do Botafogo, tinha ensaiado na final do campeonato carioca frente ao Flamengo. Guarda-redes para um lado, "cavadinha" à Panenka, à Postiga, à Zidane, à Abreu para o meio da baliza. "Quando se toma uma decisão dessas é preciso morrer com ela", comenta o seu autor. Da primeira vez, a bola ainda ameaçou não entrar. Roçou na trave antes de entrar e Abreu, humano, pensou "Meu Deus! Se não entrar, continuo a correr até ao balneário." À segunda, foi limpinho. "Ainda bem que a Internet ainda não chegou ao Gana..."

Se se fizer um inquérito de popularidade no Uruguai entre os jogadores "ganha "Loco" Abreu", dizia há dias Luis Ubiña, capitão da selecção que chegou às meias-finais do Mundial de 1970. "O Tabárez construiu um grupo de homens e de trabalhadores. Têm fome de triunfos. Salvo Forlán, quase todos os jogadores jogam em equipas pequenas. O mundo ainda não os conhece", analisa o ex-lateral direito. Abreu já correu os clubes pequenos todos. Dezassete ao todo, distribuídos por sete países. Só não seguiu carreira no basquetebol porque aos 16 anos foi expulso de um estágio por ter fugido pela janela com um colega ("um preto de dois metros, imagina") para ir a um baile. No dia seguinte, o treinador reuniu os atletas. "Disse-nos: "Há um jogador que ia ser seleccionado, mas que fica fora por razões disciplinares." E pensei "pobre preto". Mas o treinador disse "Abreu"." Pouco depois, o jovem Abreu, fã de cúmbia, físico de poste, estava no estágio da selecção de futebol de sub-17.

Ele é o primeiro a dizer que sim. Sim, faço 100 quilómetros de bicicleta entre Montevideu e Lavalleja se o Nacional for campeão. Sim, participo na telenovela argentina Constructores, onde interpreto o papel de um trolha com jeito para a bola. Acções de solidariedade? Estou lá.

Este é o seu segundo Mundial. "Conseguimos o que conseguiu a selecção de 1970, mas vamos a caminho das de 1924 e de 1928, das de 1930 e de 1950. Como se diz no bairro: já que estamos no baile, o melhor é bailar. À medida que fomos avançando no Mundial, fomos consolidando o nosso jogo e agora estamos entre as quatro melhores selecções do Mundo."

Antes de chegar à África do Sul perguntaram-lhe se o Uruguai era favorito e Abreu, sem papas na língua, disse: "Para mim sim, mas na verdade não." Por isso, a Holanda, diz, não pode ser um drama. "Um drama a sério não é um jogo de futebol. Um drama é acordar num hospital depois de capotar, perguntar pelo colega que ia com ele na camioneta e responderem que ele não teve a mesma sorte." De volta ao mais louco do Mundial. "Às vezes vou a correr para cabecear num canto e chego a gritar "Vem aí o tsunami da área!" Mijam-se a rir, até os adversários."


[Luís Octávio Costa, no Público]

Jornal da manhã

José Eduardo Bettencourt, presidente do Sporting, sobre o «caso Moutinho»: [o clube] não quis no seu pomar uma maçã podre, que não soube honrar bandeira e camisola». Ricardo Salgado, presidente do BES, sobre o «caso PT»: «uma parceria que foi sistematicamente afectada por um comportamento inaceitável por parte de um parceiro. (…). Quando se chega a este estado de conflito, não é possível manter uma parceria». Bom dia, foram as notícias.

7/05/2010

Red

















Em Red (vencedor do Tony de 2010), John Logan mostra Mark Rothko num momento de contradição: como é que um homem tão erudito, pretensioso, puritano, exigente, acaba a fazer quadros a metro para um restaurante de milionários que se estão nas tintas? Logan não se detém apenas na «hipocrisia» ou na vaidade social e financeira; ele tenta perceber como é que Rothko se engana a si mesmo, como é que ele finge acreditar que as pessoas que o vêem, que o comentam, que o compram, estão genuinamente fascinadas, comovidas, tocadas pelo sagrado a baixa luz daquele seus vermelhos sem porquê.

Verde


















Bastava às vezes o verde do teu casaco verde quando atravessavas à tarde entre a estação e o teatro onde eu estava.

Um bocadinho

Ponho o disco, e mal ouço o vocalista lembro-me de uma fotografia dele num jornal, algemado e levado por dois polícias, a sair de um motel americano, onde tinha espancado a esposa. E lembro-me daquele cabrão francês que matou a Trintignant de tanta tareia. E lembro-me de uma mulher inteligente a explicar-me que a «agressividade natural» dos homens às vezes se excede um bocadinho, mas que antes isso que o contrário.

Teofrasto

«A bajulice define-se como uma prática degradante mas lucrativa para o bajulador (…). Se o parceiro abre a boca para falar, o bajulador manda calar toda a gente; se o outro estiver apenas a ouvir, não lhe poupa elogios; se faz uma pausa, ele vá de aprovar (…). A quem quer que se lhe apresente pela frente, manda parar, para dar passagem a Sua Excelência (…). Criva um tipo de perguntas: se tem frio, se quer vestir alguma coisa, se quer que lhe ponha um agasalho pelas costas. E meu dito, meu feito, pendura-se-lhe ao ouvido a bichanar segredos».

E isto na Grécia civilizada de 319 a.C.

Imaginem o que diria Teofrasto se conhecesse a função pública.

7/03/2010

Countdown

O cerro dos enforcados

Como se fora mais abominável a pena [a forca] que a culpa, e mais mofinos e malditos os justiçados pela infâmia do suplício, que pela atrocidade dos crimes. E como esta infâmia e maldição corre pelas veias, e se difunde e estende aos parentes, qual haverá que a queira herdar, ou ter parte nela? Esta é a razão por que, os vivos, destes mortos não podem ser adulados, nem lisonjeados neles; envergonhados e afrontados, sim.

[Padre António Vieira, Sermão ao Enterro dos Ossos dos Enforcados, 1637]

7/01/2010

Os genes


















Sonja Kinski (n. 1986), filha de Nastassja. Os genes não brincam em serviço.

Mal não faz

Já aqui citei a conversa com o rabi no último filme dos Coen, que cada vez faz mais sentido.

O médico conta ao rabi uma história inquietante e pergunta: o que significa isto? Será um sinal de Deus? Devo fazer alguma coisa? E o quê? Ajudar os outros?

O rabi responde. O que significa? Não sabemos. É um sinal de Deus? Não sabemos. Ajudar os outros? Mal não faz.

Nem lhe tocava



As pessoas que não nos querem tocar por repulsa e que dizem que não nos tocam por respeito.

Into song

O grande Samuel Úria confessou ao Expresso que nunca teve um desgosto amoroso. Fiquei banzado. Dizia-me há dias o Samuel que tinha que ir buscar inspiração criativa noutro tipo de angústias. Ele sabe, como bom kierkegaardiano, que sem angústia não há criação, não há sequer vida realmente vivida. Mas, ainda assim, fiquei a pensar: o que seria de mim sem desgostos amorosos? Tenho tido uma existência privilegiada e pacata, que seria de mim sem isso? Que espinho cravado teria eu para escrever, se não fosse isso? To spur me into song, como dizia Yeats. O que seria eu hoje sem desgostos amorosos? Advogado?

A vida comanda o sonho

Leio Schopenhauer, talvez o único sujeito que me faz sentir um optimista em matéria amorosa. A «metafísica do amor» que ele teoriza em O Mundo como Vontade e Representação (1818) é uma das mais desagradáveis e negras especulações sobre o amor cometidas em plena época romântica. Darwin é um menino de coro, meramente descritivo, face ao cinismo prescritivo do filósofo alemão.

É tudo muito simples, segundo Schopenhauer: a única realidade efectiva é a «propagação da espécie». A sexualidade é um instinto funcional, animal, brutal. A atracção física que gera depois o coito e a procriação não depende da nossa escolha, é a própria «vida» que a comanda, e as pessoas não têm realmente escolha. O «amor» é apenas uma criação cultural piedosa. Estamos convencidos de que ele existe, mas é apenas um visão edulcorada da biologia.

O amor, mais do que uma ilusão, é um disfarce, pois a escolha de parceiros, que é feita num processo biológico que não controlamos, assume aos nossos olhos a feição de uma escolha nossa. Uma escolha «sentimental», ainda por cima. Nesse sentido, Schopenhauer diz que o amor voluntário faz simplesmente a vontade à espécie, à vida e ao seu desejo da propagação.

Em contrapartida, os casamentos impostos são um acto de egoísmo. Ao contrariar a vontade da «vida» por conveniências de classe ou casta ou moral, o ser humano está a trair a sua vocação. Ou seja, o amor à força é provavelmente o único que é genuíno. Ao pé disto, sou mesmo um optimista.