8/30/2010
Alguma coisa vergonhosa
An autobiography is only to be trusted when it reveals something disgraceful.
[Orwell]
[Orwell]
Amuletos
As recordações que trazias eram quase amuletos. Pacotinhos de açúcar com dizeres, postais de museus, fotografias da chuva, que magias fizeram esses talismãs? A verdade é que não afastaram o perigo nem nos trouxeram sorte. Amuletos fracassados, deixaram-te na mesma estabilidade fictícia e a mim no mesmo estoicismo a termo certo. Até a magia nos falhou.
A morte presumida
Depois de dez anos de ausência e sem nenhumas notícias, é possível pedir a declaração de morte presumida de uma pessoa. Sei que ainda passou pouco, mas temos que pensar nisso. Como vamos fazer, minha querida, quanto tempo é preciso que passe, quem vai declarar a minha e a tua morte?
Glóbulos brancos

Evito o mais possível aquela actividade genérica chamada «pensar na vida». Até porque a conclusão dessas meditações nunca muda: a vida é uma merda.
A última vez que «pensei na vida», em bloco, foi há quatro anos, por causa de uma menina bailarina. Desde então, tive uma agenda muito ocupada, nunca perdi tempo com esse hóbi nefasto.
Até que, há dias, uma subida brutal dos glóbulos brancos deixou-me completamente incapaz de fazer fosse o que fosse. Pus-me, que remédio, a «pensar na vida». E cheguei à conclusão de que a vida é uma merda. Grande surpresa.
Que as meninas me façam isto, aceito; mas vindo de leucócitos e bactérias já acho uma canalhice.
8/24/2010
Código da estrada
Estou numa esplanada junto a um semáforo e imagino o que aconteceria se passasses no teu carro e me visses aqui. Mas não aconteceria nada: se estivesse verde seguias em frente, se estivesse vermelho paravas e arrancavas mal viesse o verde. É tudo o que nos resta: o código da estrada.
8/23/2010
Bataille
Ele discorre sobre Bataille e o «caos do desejo» que afronta os nossos inaceitáveis «tabus e preconceitos» incutidos pela arcaica cultura «judaico-cristã». Está embalado nisto, quando entra no escritório a filha dele, tem talvez catorze anos, e umas pernas altíssimas e moreníssimas. Não consigo evitar uma olhadela. O fã de Bataille franze logo a sobrancelha judaico-cristã.
O jogo do amor e do acaso
Faço uma pausa na tradução para ir ao cinema. E reencontro em Doillon o Marivaux que estava a traduzir em casa. De Marivaux a Doillon, de Musset a Rohmer, devo isto à cultura francesa: o amor como um jogo de palavras.
8/22/2010
Um homem sério
“O apóstolo Paulo tinha um emprego oficial?” Não, Paulo não tinha um emprego oficial. “Tinha então outra maneira de ganhar muito dinheiro?” Não, não tinha nenhuma maneira de ganhar dinheiro. “Era, ao menos, casado?” Não, não era casado. “Mas então Paulo não era um homem sério”. Não, Paulo não era um homem sério.
[Kierkegaard]
[Kierkegaard]
8/20/2010
O vocalista usa aliança
The characters in National songs have real jobs, have uninteresting sex, get drunk, and lie to one another. They do so during the regular course of a workaday week, on Tuesdays and Wednesdays. The National (...) [are] chiefly interested in the complications of being a stable person expected to own certain things and dress certain ways.
[da crítica ao álbum High Violet na Pitchfork]
[da crítica ao álbum High Violet na Pitchfork]
Um mês debaixo de água
You said I came close
As anyone's come
To live underwater
For more than a month
You said it was night inside my heart, it was
You said it should tear a kid apart, it does
[The National]
8/19/2010
Lei Seca
Talvez haja estudos mais eruditos, mas Last Call, o recente livro de Daniel Okrent sobre a Lei Seca, bate-os aos pontos em legibilidade. Apesar do título deste blogue, o tema nem me interessa especialmente, sou aliás meio abstémio, gosto apenas de avisar que não se legisla contra vícios.
Eu próprio legislei e depois tive uma queda inesperada no vício. Fui «levado para o Ohio por uma multidão de abelhas», sabem como é, mas o velho Realitätsprinzip já resolveu a situação.
Bem-vindos, este blogue chama-se Lei Seca.
8/18/2010
The sense of an ending

Frank Kermode (1919-2010) foi o maior crítico inglês das últimas décadas, o sucessor, na academia, de Leavis, e, na imprensa, de Pritchett. É essa dupla condição que o torna único: a erudição universitária e a comunicabilidade jornalística cruzavam-se perfeitamente, de modo que aprendíamos realmente com ele, escrevesse sobre o Beowulf ou sobre Roth. Especialista em Milton, Donne, Shakespeare, publicou algumas obras de referência, como The Romantic Image (1957), sobre as continuidades imagísticas entre o romantismo e o modernismo, e The Sense of an Ending (1967), onde estuda a escrita apocalíptica e investiga as «ideias de ordem». Foi o introdutor em Inglaterra da teoria literária francesa, mas depois afastou-se dos seus excessos, defendendo o amor pela literatura e a acessibilidade da crítica. Editou uns quantos ensaios de Eliot inéditos em livro e tornou Wallace Stevens conhecido no Reino Unido. Dominava os clássicos e os grandes novecentistas, mas acompanhava os novos, até à geração dos trintas e tal. Era um excelente guia. Fui-o lendo sobretudo na London Review of Books, jornal que ajudou a fundar em 1979 e onde se pratica uma crítica que vai além da recensão e tende já para o ensaio. Muitas dessas colaborações para a LRB estão reunidas em The Uses of Error (1991), Pleasing Myself (2002) e Bury Place Papers (2009). Era sempre um prazer ler Kermode: cultíssimo, atento, inteligente, aventuroso, mas também discreto, modesto, irónico, tranquilo. Foi feito Sir em 1991, distinção nada óbvia para um crítico literário. Mas ele era de facto um aristocrata da crítica, quem sabe se o último. Ainda há gente muito capaz, Eagleton, Ricks, Wood, mas vamos ter saudades de Frank Kermode, o homem que sabia, como nós sabemos, que é na literatura que existe um sentido para tudo isto.
Vontade indómita
Há duas Patricia Neal.
Há a Patricia Neal que foi Dominique Francon. Uma mulher orgulhosa e carnal que se apaixona pelo arquitecto interpretado por Gary Cooper no magnífico (e fascistóide) The Fountainhead (1949), que em português se chamou, grande título, Vontade Indómita. Patricia e Cooper tinham um caso, e aquelas cenas selvagens (a vergastada, o agarranço, o elevador fálico) ganham uma força adicional por causa disso, uma violência primitiva no meio daquela conversa programática sobre o individualismo e o triunfo da vontade. The Fountainhead é um filme erótico para nietzschianos, e Patricia Neal tem a segurança e o desprezo patrícios necessários.
E há a Patricia Neal que foi Mrs. Dahl. Ela casou em 1953 com Roald Dahl, escritor, aviador, espião, casanova, e nem sequer gostava dele, nem ele dela. Ele aliás tinha um feitio difícil (ela chamava-lhe Roald the Rotten) e andava com outras mulheres. Mas num curto espaço de tempo o casal perdeu dois filhos pequenos, num acidente e numa doença, e depois Patricia tem três derrames cerebrais, entra em coma, fica paralítica e a afásica. E Roald, o Rotten Roald, trata de tudo o que é preciso, mudanças, viagens, exercícios, operações, terapia, companhia, acompanhamento, incentivo, e Patricia recupera completamente, ao ponto de voltar aos palcos e aos estúdios.
Patricia amou Gary e Gary amou Patricia, mas ele era casado, a relação durou pouco, e só ficou aquele amor furioso em celulóide.
Patricia não amava Roald e Roald não amava Patricia, mas ele fez tudo por ela, trouxe-a de nova à vida, e depois trocou-a pela melhor amiga dela.
Patricia Neal nasceu em 1926 e morreu em 2010.
Bruno Cremer
Quando li a notícia da morte de Bruno Cremer lembrei-me de Sous le sable (2000). Cremer é o entradote marido de Charlotte Rampling, e anda melancólico, não se sabe bem porquê. Um dia, nas férias, desaparece sem deixar rasto. Passados uns tempos, a mulher, agora provavelmente viúva, arranja outro homem, mais novo. Quando estão na cama, ele em cima dela, ela desata a rir, convulsivamente. Ele sente-se ofendido, mas ela diz que não se está a rir dele. «Vous êtes très leger», explica, muito mais leve que o marido, um homem corpulento. «Só tenho que me habituar». Já adorava essa cena, até que a vivi uma noite. Ela tinha tido um namorado magrinho, explicou, e eu era «très lourd», muito pesado, isso dava-lhe vontade de rir, era uma questão de se habituar. E eu lá fiz de Bruno Cremer.
Linha lombarda

Morreu Luciano Erba. Nascido em 1922, teve um papel importante na chamada «linha lombarda», uma corrente italiana que se distanciou do hermetismo e do experimentalismo, escrevendo uma poesia que foi definida como «irónica, urbana, actual, autobiográfica, imaginativa mas discreta». Não admira que goste dele. Aqui vos deixo um poema que se chama precisamente «Linha lombarda», publicado na colectânea Nella terra di mezzo, de 2000.
Adoro os preconceitos os lugares comuns
gosto de pensar que na Holanda
há sempre raparigas com tamancos
que em Nápoles ainda tocam bandolim
que tu me esperas um pouco ansiosa
enquanto eu mudo da estação de Lambrate para a Garibaldi.
Quem?
KARL (cortante): Que história é essa em Portugal?
MAX: Mas tu estiveste em Portugal?
KARL: Sim. (Pausa.) O que é que se passa com Portugal? (...)
MAX: Em Portugal há naturezas corruptas, muito corruptas... (....) Não era possivel lembrar a ninguém a sua palavra de honra sem ser punido.
KARL: Que queres dizer com isso?
MAX: Em Portugal já muita gente foi punida. Assim... punida, ao virar da esquina.
KARL: Quem?
MAX: Por exemplo, aquele... (Hesita.)
[Ödön von Horváth, Hotel da Bela Vista, 1926, trad. Anabela Mendes, Cotovia)
MAX: Mas tu estiveste em Portugal?
KARL: Sim. (Pausa.) O que é que se passa com Portugal? (...)
MAX: Em Portugal há naturezas corruptas, muito corruptas... (....) Não era possivel lembrar a ninguém a sua palavra de honra sem ser punido.
KARL: Que queres dizer com isso?
MAX: Em Portugal já muita gente foi punida. Assim... punida, ao virar da esquina.
KARL: Quem?
MAX: Por exemplo, aquele... (Hesita.)
[Ödön von Horváth, Hotel da Bela Vista, 1926, trad. Anabela Mendes, Cotovia)

