9/29/2010

Segundo as suas fragilidades

É injusto fazer um juízo completamente negativo seja de quem for. Na verdade, podemos sempre dizer que aquela pessoa apenas «se defende da vida». Que escolheu aquilo que lhe é acessível, inofensivo e tranquilo. Não é louvável, mas é compreensível.

Segundo as suas necessidades

É injusto fazer um juízo completamente negativo seja de quem for. Na verdade, podemos sempre dizer que aquela pessoa apenas «faz pela vida». Que escolheu aquilo que lhe é conveniente, útil e agradável. Não é louvável, mas é compreensível.

9/27/2010

It's okay to eat fish / 'cause they don't have any feelings



Ninguém pode dizer que não tinhas uma ética.

Poética

Deprivation is for me what daffodils were for Wordsworth.

[Larkin]

A paixão dos fracos

Depois do que me aconteceu, tive de encontrar uma solução radical. Um remédio, uma defesa, uma pantomima. Gostava de ser niilista, mas para um crente é impossível. Gostava de ser cínico, mas não tenho jeito. Gostava de ser eremita, mas há que ganhar a vida. Escolhi então esta paixão rude e soberana: a paixão da indiferença.
Por motivos grafológicos e tecnológicos, os posts têm aparecido às mijinhas, pelo que se aconselha um «escról dáun» durante esta semana para recuperar textos que andavam desaparecidos.

[concerto dos Eels aqui]

Sobre o lixo

(...) Se o jornal tem um conjunto de padrões de qualidade, não deve permitir que nenhum dos espaços subordinados ao seu título se situe abaixo desses padrões. Por muito importante que seja a participação, se é grosseira e de baixo nível, em nada serve os leitores ou o jornal. Até agora quase todos os jornais optaram pela abertura, porque aumenta o tráfego. Mas chegou a hora de escolher, também na participação, entre a qualidade e o tráfego. Um controlo mais apertado dos comentários fará baixar a participação num primeiro momento, mas aumentará a qualidade e, a prazo, interessará mais aos leitores. (…) / É bem possível que a lógica economicista que tem presidido ao laxismo editorial disfarçado de abertura total à "interactividade" (mais comentários representam mais acessos, logo maior atracção de receitas publicitárias) venha a revelar-se contraproducente. O crescimento do lixo tende a afastar leitores fiéis, enquanto a qualificação do debate na edição em linha, elevando o seu prestígio, poderia atrair novos leitores e torná-la mais interessante como veículo publicitário. Ainda que assim não seja, há alturas em que é preciso escolher entre audiência e qualidade.

[da crónica do Provedor dos Leitores do Público, José Queirós, 26/09/10]

9/25/2010

O sucesso





















Cresce o preconceito de que «nenhum bom escritor pode ter sucesso» (Bolaño, Franzen, etc). É um decreto idiota. O que é importante é ter em conta que o «sucesso» não significa nada, ou seja, nem uma coisa nem o seu contrário. Que o «sucesso» é precário e muitas vezes acidental. La gloire est le soleil des morts, escreveu Balzac.

9/24/2010

Uma época passada mas não esquecida

His music, whether for an Evelyn Waugh adaptation or for the concert platform, was invariably accessible and tuneful. Evocative and somewhat wistful in character, it conjured up an atmosphere of nostalgia, depicting a sepia scene of a gone but not forgotten era of English life.

[obituário do compositor Geoffrey Burgon (1941-2010), Daily Telegraph]

O número 1

Quando John Berryman soube que Robert Frost tinha morrido, perguntou: «Who's number one?». Agora que morreu o número 1, quem é o novo [poeta] número 1? [Berryman achava, e bem, que era Lowell].

Desde que Saramago morreu, também temos vivido essa lufa-lufa, «quem é o número 1», «quem é o número 1», «quem é». Uns sobem de escalão pela singela virtude de ainda estarem vivos. Outros tornam-se candidatos porque são «novidade». E no hipermercado do romance é urgente a reposição de stocks.

9/21/2010

Se ainda estiveres desse lado

Hereges

De resto, o amor romântico é uma heresia católica [v. Rougemont], e eu estou sempre pronto a receber o castigo dado aos hereges.

E nenhuma ironia nos salva

«Ironia» é passagem do tempo mais filosofia. Excepto quanto o tempo que passa não muda nada, e quando a filosofia é menos que um fardo de palha seca. E então nenhuma ironia nos salva.

The stranger song

And then leaning on your window sill
he'll say one day you caused his will
to weaken with your love and warmth and shelter
And then taking from his wallet
an old schedule of trains, he'll say
I told you when I came I was a stranger
I told you when I came I was a stranger.


[Leonard Cohen]

Um homem sério / um homem estranho

Naquilo que importa, sou um homem sério, ou seja, um homem estranho. Estou totalmente devotado a uma causa, e às consequências dessa causa, e por isso passo por radical, eremita, malcriado, porém não posso ser sério sem ser estranho, a seriedade é incompatível com o «tudo como dantes», com grotescas amenidades, um homem sério precisa de ausências, manias, mutilações. I told you when I came I was a stranger.

Aspas

Encontro umas notas incompletas, confusas, mal escritas, a felicidade como «ilusão», como «propaganda narcísica», como «mercadoria». Cinismo sub specie aeternitatis ou miseráveis anotações em uma noite desolada?

9/20/2010

Vocês agora



O achado dos Eels consistiu em boicotar a dinâmica maníaco-depressiva com uma certa gentileza. Beautiful Freak (1996) e Electro-Shock Blues (1998) espelhavam uma depressão traumática e raivosa, e Souljacker (2001) era feito de guitarras sem piedade, mas Eels with Strings: Live at Town Hall (2006) decantava tudo numa jornada sentimental e orquestral. Tanto maníaco como depressivo, Mark Everett também ia mudado de visual, de totó de biblioteca, com óculos de massa e gravatinha texana, a motoqueiro hirsuto e de poucos amigos. Mas estas canções tinham melodias simples, quase infantis, lamentos, pieguices, ternuras desfeitas. Ainda não ouvi com atenção os recentes End Times e Tomorrow Morning, mas dizem que E está mais contente com a vida. Pelo concerto de ontem, não parece. Os Eels, em fim de digressão, foram medíocres na comunicação com a plateia, mas ontem tiveram momentos de entrega frenética, riffs acompanhados de gritos e gritos acompanhados de riffs (os meus ouvidos ainda apitam). «Flyswatter», «Prizefighter», «Hombre Lobo» e até o pueril «I Like Birds» foram sacos de pancada para aqueles quarentões quietos e barbados, badmotherfuckers todos eles. Não sei se a depressão se cura com a exaltação, mas os Eels raramente foram docinhos (talvez só no inevitável «In My Dreams»); o que dominou foi o exorcismo ruidoso, a bravata anti-social, «fodam-se vocês agora que a mim já não me fodem mais». O público não gostou. Eu agradeci.

Fazível

Continuamos com esta linguagem adolescente de «bonitos» e «feios», categorias sentimentais e estéticas, quando a estética pouco conta e o sentimento não conta nada. As pessoas são, quando muito, «atraentes» ou não. Não são objectos estéticos, mas sujeitos relacionais. Em demótico: as pessoas são «fodíveis» ou não. Há uma idade em que esta ideia nos choca. Há uma idade em que nos choca que alguém fique chocado.

ISBN

Estou a trabalhar em oito livros ao mesmo tempo. É um pouco embaraçoso, confesso, parece uma avalanche que, tal como as avalanches, ninguém pediu. Na verdade, alguns destes livros estavam quase prontos e deviam ter saído algures nos últimos dois anos e meio, não estivesse eu mergulhado em avaliações bietápicas e na renovação estatal do stock de agrafos. De todo o modo, não peço desculpa, é precisamente isto que tenho que fazer. Homem que não espalha a sementinha, ao menos que espalhe o ISBN.

9/18/2010

Denotativo

Houve uma altura em que a bailarina me tratou de tudo. Disse coisas para ferir de propósito, em legítima defesa, imagino, e estava com grande verve verbal. E embora me quisesse magoar, tudo o que me atirou à cara era bastante denotativo.

Aquilo em que acredito

Reencontro sempre em Kierkegaard esta ideia fundadora: só devemos acreditar naquilo que é absoluto e naquilo que é subjectivo. E nunca devemos acreditar em ninguém que diga que «absoluto» e «subjectivo» são incompatíveis. É nisso, e acima de tudo nisso, que acredito.

Por uma vez


















I have no tendency to be a saint (..) Saints are not literary men.

[John Henry Newman, que foi ambas as coisas]

9/17/2010

The special ones

We know we are very special. Yet we keep trying to find out in what way: not this way, not that way, then what way?


[«Special», The Collected Stories of Lydia Davis, 2009]

Especial

Foi tudo especial até ser usada a palavra «especial».

País possível

Já passou, já faz tempo, e não há registos, mas eu lembro-me bem dessa conversa, alta noite, noite dentro, cada um em seu hotel e em seu país, e a tentarmos inventar de madrugada um país possível onde vivêssemos os dois.

9/15/2010

Repeat



Andy Kaufman escreveu a canção pop perfeita: consiste na repetição ad nauseam da frase «I trusted you». A vida amorosa é igualzinha a uma canção pop perfeita: uma asserção sentimental repetida repetida repetida repetida.

A minha vida amorosa

Começou em comédia e acabou em tragédia. Começou em tragédia e acabou em tragédia. Começou em tragédia e acabou em comédia. Começou em comédia e acabou em comédia. Acho que já chega.

Fora de cena

Estás com boa cara, boa disposição, ouço, é verdade mas não importa nada, agem todos como se vissem um actor fora de palco, que interessa isso, o espectáculo acabou, o actor já não está em cena, a personagem morreu, o pano caiu, aquilo que ali vêem, com bom ou mau aspecto, é apenas um homem que demora um tempo infindável a mudar de roupa e a ir para casa de vez.

Último acto

Terminado o terceiro acto, caiu o pano, aplausos, vénias, luzes. O espectáculo acabou. Mas então aconteceu um imprevisto, uma espécie de quarto acto ou talvez um epílogo, todos nós já no átrio, em debandada, conversas, casacos, e agora emboscados por uma peça rápida, uma comédia triste, um definitivo fim. Saímos para a rua com uma angústia que talvez seja apenas um grande desamparo.

História alternativa

Gostavas de mim porque vias em mim uma história alternativa. Ou não gostavas de mim mas da ideia de uma alternativa.

Cheers













MARK: [calling Anna] Hi, this is Mark.

ANNA: Oh, hi Mark. Didn't you get my email?

MARK: The one about being not good enough for you?

ANNA: That's the one.

MARK: Yeah, got that. Cheers.

[Ricky Gervais e Jennifer Garner em The Invention of Lying, 2009]

Terceira escolha

Confessaste que a tua escolha era uma segunda escolha. Estavas então a um degrau de mim, uma terceira escolha. Mas não desceste tão baixo.

O triunfo e a vontade

Quando escolheste, fizeste de conta que tinhas escolha. Que a tua escolha era uma vontade, quando na verdade era um impulso. Mal nenhum nisso. Ninguém escapa ao reino animal.

9/13/2010

Quando escreveres o meu epitáfio

Numa carta ao seu grande amigo Robert Lowell, escreveu Elizabeth Bishop: When you write my epitaph, you must say I was the loneliest person who ever lived. O epitáfio nunca foi escrito. Lowell morreu antes de Bishop.

Toda a gente sabe



[é o texto sobre o concerto]

9/09/2010

Já paguei



It's just time to pay the price
For not listening to advice
And deciding in your youth
On the policy of truth


[«Policy of truth», Depeche Mode]

9/08/2010

O meu manicómio

Quando confesso o meu repúdio radical pela mentira, toda a gente diz que sou louco. E eu não defendo que se diga tudo a toda a gente; acredito apenas que devemos viver em regime de verdade com as pessoas de quem gostamos. Há excepções circunstanciais? Há. Mas a regra, a minha regra, é a verdade.

O que é a verdade?, perguntava Pilatos. Também não sei, mas sei o que é a mentira. Uma mentira é uma declaração que sabemos falsa, feita com o intuito de enganar alguém. Fazer isso a quem gostamos, de modo intencional e repetido, é que é saudável? Garantem-me que sim. E eu regresso, mansamente, ao meu manicómio.

Vitamina C

Em miúdo, vi uma vez num livro de História um desenho com os marinheiros do tempo das grandes navegações; tinham quase todos as gengivas em ferida, e o texto atribuía isso à falta de vitamina C. Mas eu achei que eles na verdade estavam a ser castigados por dizerem mentiras. E de certo modo aindo acho.

O mal-entendido

«Os mal-entendidos são o meio de comunicação do incomunicável», disse Adorno. Há poucas situações humanas verdadeiramente incomunicáveis, mas mesmo as mais intransmissíveis se transmitem aos outros de algum modo, geralmente erróneo. Somos entendidos através do mal-entendido. Bela comédia.

Cães

Aviso aos cucos

Who hath no wyf, he is no cokewold.

[Chaucer]

Galo

Percebi há tempos que alguns dos meus mais fiéis inimigos andavam desapontados. A grande aposta deles era na minha vaidade: que eu me perdesse por excesso de vaidade ou que caísse um dia na amargura da vaidade frustrada. Quando perceberam que eu troco sempre a vaidade pela liberdade, ficaram desasados. E de facto é preciso galo: tenho toneladas de defeitos, e calhou logo porem as fichas todas num defeito que nunca tive.

9/07/2010

Because we separate



Because we separate like
ripples on a blank shore


[Radiohead]

A vida que escolhemos

E esta noite deitamo-nos de novo com a vida que escolhemos.

9/06/2010

Corinne Day 1962-2010

Colombo descobriu a América, Cabral descobriu o Brasil, Corinne descobriu Kate Moss (The Face, Julho 1990).

Haverá ou não Governo depois de dia 9, mas há com certeza Governo Sombra no dia 10.

9/05/2010

Rogo-vos esse obséquio

As pessoas têm a mania de se «reconhecerem» em textos que não lhes dizem respeito. Estou sempre a receber protestos baseados nesse equívoco. Às vezes tem graça, outras vezes é cansativo, outras é simplesmente estúpido.

Quando Bulhão Pato se «reconheceu» no «Tomás de Alencar» de Os Maias, Eça de Queirós respondeu:

Por onde se reconheceu o Sr. Bulhão Pato no Sr. Tomás de Alencar? Pelo feitio exterior?... Foi pelos bigodes? Todos em Portugal usamos esse retorcido apêndice. Pelas receitas de cozinha? Todos os homens de letras, desde Virgílio a Dumas pai, ensinavam a arte sem igual. Pela efusão dos gestos? Todos nós nestas terras expansivas do sul, lançamos os nossos gestos até às nuvens... (…) A julgar por estes traços exteriores, poderiam considerar-se retratados no Alencar, e vibrarem sátiras contra mim, todos os homens que em Portugal têm bigodes, cometem versos, gesticulam largo, e sabem modos de cozinhar o bacalhau - isto é, uma farta metade dos habitantes do reino! (...) só uma indiscreta ilusão e um zelo excessivo pela glória própria puderam levar o autor da «Paquita» a introduzir-se, com tanto ruído e tanta publicidade, dentro do autor da «Flor de Martírio». E visto que nada agora pode justificar a permanência do Sr. Bulhão Pato no interior do Sr. Tomás de Alencar, causando-lhe manifesto desconforto e empanturramento - o meu intuito final com esta carta é apelar para a conhecida cortesia do autor da «Sátira», e rogar-lhe o obséquio extremo de se retirar de dentro do meu personagem...

Rogo-vos esse obséquio.

He never


















He never kissed an ugly girl

[epitáfio de Groucho Marx, escolhido pelo próprio]

Uma coisa interessante

ANNIE: (…) é tão cansativo e desinteressante. Vocês [os escritores] nunca escrevem sobre isso.

HENRY: Sobre quê?

ANNIE: Rios de tinta e toneladas de papel gastos na infelicidade do apaixonado não correspondido. Mas nem uma palavra sobre o enorme tédio da pessoa que não corresponde. É uma curiosa...

HENRY: Lacuna?

ANNIE: O quê? Não, acho que é um curioso...

HENRY: Preconceito?

ANNIE: É uma... coisa interessante.

HENRY: Sim, uma coisa.

[Tom Stoppard, Agora a Sério]

9/04/2010

Devido a vários factores (gamanço, burocracia, incompetência), estive cinco semanas sem telemóvel, e portanto pouco contactável. Ao contrário do que chegou a ser aventado, não faleci, nem no sentido Cutting Crew da coisa. Aproveito para pedir desculpa a quem me tentou ligar durante estas semanas (excepto aos que me queriam fazer «inquéritos de verão»). Estou agora a reconstituir os contactos, e portanto ser-vos-ia muito grato se me enviassem por mensagem ou e-mail os vossos celulares.

9/03/2010

As lágrimas de Eros














O Thyssen-Bornemisza organizou há meses uma exposição chamada Lágrimas de Eros. Como assim, lágrimas de Eros? Na nossa cultura de optimismo sexual, parece uma contradição. Não é. Em Les larmes d’Éros (1961), Georges Bataille escreveu: “A morte é associada às lágrimas, e às vezes o desejo sexual é associado ao riso. Mas o riso não é, como parece, o contrário das lágrimas: o objecto do riso e o objecto das lágrimas estão ambos ligados a uma espécie de violência que interrompe o curso regular e habitual das coisas. As lágrimas estão geralmente associadas a acontecimentos inesperados, desoladores, mas um resultado feliz e inesperado também nos pode comover até às lágrimas. A desordem sexual evidentemente, não nos causa lágrimas, mas ainda assim perturba-nos (…)”.

A exposição nasceu das ideias de Bataille. No ensaio já citado, um estudo de antropologia sexual, o escritor francês recusa a visão inócua da sexualidade. Há em todas as culturas, diz Bataille, uma coincidência entre a morte e o erotismo que torna este em algo de “diabólico”. A sexualidade está ligada ao nascimento, à procriação, à utilidade, mas o homem, espécie consciente, quebrou essa naturalidade. Consciente da morte e consciente da libido, o homem sabe que Eros tem uma dimensão diabólica. Eros é um impulso demente, um transporte irreprimível, que nos deixa por vezes à beira do abismo. Na pintura ocidental, lembra Bataille, Eros foi sempre alegoria de Thanatos, de Cranach e Bacon.

A cultura do optimismo sexual não compreende o conceito de “lágrimas de Eros”. Bataille explica porquê: desvalorizámos a componente religiosa da sexualidade. E agora há aspectos que nos escapam. É fácil dizer que o cristianismo condena a sexualidade; mas é preciso percebermos que o interdito religioso é a suprema homenagem ao erotismo, e também um elo de ligação entre o sagrado e o profano. A sexualidade, tal como o divino, é alguma coisa que excede a simples realidade, é uma dimensão visceral que violenta o nosso conforto quotidiano. E isso não nasceu com o cristianismo: Bataille lembra que os cultos dionisíacos eram cultos do trágico. O que mudou, desde os gregos, foi o avanço do sujeito individual, que cultiva um utilitarismo hedonista indiferente ao religioso. Muita gente vive hoje como se houvesse sexualidade sem tragédia. Como se houvesse Eros sem lágrimas. (...)


[amanhã no Público]

Variações sobre uma escolha

Quando me escolheste, avisaste logo que não tinhas escolha. Já tinhas escolhido, e escolheste ser fiel a essa escolha. Mas para seres fiel à tua escolha tinhas de te pôr naquela situação angustiante de não ter escolha.

9/02/2010

Moscovitas

A sua experiência vasta, e realmente amarga, ensinara-lhe havia muito que qualquer intimidade, de início uma coisa agradável para variar na vida, uma aventura fascinante mas ligeira entre duas pessoas decentes, se transformava inevitavelmente em problemas bastante complicados, sobretudo entre os moscovitas indolentes e irresolutos, e se volvia, ao fim e ao cabo, em situação penosa.

[Tchékhov, «A senhora do cãozinho» (1899), trad. Nina Guerra e Filipe Guerra]

Oci ciornie


















Não via televisão há muito tempo. A programação continua péssima, mas há uma nova geração de pivots a ter em atenção.

A TVI, por exemplo, joga forte, com os olhos faiscantes e o sarcasmo campestre de Ana Guedes Rodrigues ou o ar estranhamente neutral de miúda mais gira da turma de Rita Rodrigues.

O meu canal favorito é a SIC-Notícias, noite dentro, e aí um cidadão tem Marisa Caetano Antunes, segura e imponente, Rita Neves, com jeito de estagiária zelosa, e Liliana Carvalho, que sorri até ao knock-out.

Mas eu gosto mesmo é das notícias lidas por Ana Patrícia Carvalho. Não é uma Joana Gomes Cardoso, mas milagres não há todas as décadas. Ana Patrícia Carvalho tem que enfrentar com frequência o boicote da equipa de caracterização da SIC, que lhe faz penteados estapafúrdios e a mete em vestidos fracassados, mas em compensação está sempre bem maquilhada, as feições escuras nítidas em um rosto claro e afilado.

Ana Patrícia Carvalho tem oci ciornie muito sérios, pequenos mas fundos, tanto distantes como abandonados. A boca dela faz um jeitinho do lado direito, o lábio levanta um pouco, sem que isso passe por esgar de troça ou momice de sedução. E depois, Patrícia tem uma voz menineira, frágil, às vezes quase partindo-se, como se falasse a contragosto. Nunca sorri, excepto muito levemente, no fim das notícias, quando diz que volta à hora certa.

Adrian Mole em Downing Street

Estava na dúvida quanto às memórias de Tony Blair, A Journey. Trata-se de alguém que me suscita sentimentos divididos: acho que é um homem de convicções e um hábil marqueteiro. Parece contraditório, mas creio que ele é de facto as duas coisas ao mesmo tempo. As memórias podiam ser um bom documento humano, talvez um desempate.

Mas li várias passagens na imprensa inglesa e desisti de querer perceber. O Daily Telegraph, em editorial, diz que tudo aquilo parece o diário de Adrian Mole. E alguns dos excertos que li são atrozes: sentimentais, plebeus, deslumbrados, simplistas, horrivelmente coloquiais.

No mesmo jornal, Simon Heffer lembra que nenhum ex-primeiro-ministro inglês escreveu um livro assim. There have never been prime ministerial memoirs like this. They are not the let-me-tell-you-what-happened type of Lloyd George or Churchill, describing their role as politicians conducting wars. They are not the proper and rather boring type of Asquith, or Callaghan, or Wilson. In their occasional defensiveness they have the smell of Anthony Eden, but without Eden's intellectual hinterland. They fall short of the self-regard of Macmillan's six volumes, but where they do project the ego of the writer do so without Macmillan's wit and elegance. They have none of the autism of the Heath memoirs and none of the serious ideological fervour of Lady Thatcher's. They are the memoirs of a man who tries to marry two conflicting impulses – wanting to be liked (...) and wanting to settle scores.

Logo duas coisas que detesto, a mania da popularidade e o revanchismo. Ainda por cima embalado numa prosa arfante e pueril. Thanks but no thanks.

9/01/2010

Depois do ensaio

Devíamos ter feito como aquele encenador e aquela actriz: eles descrevem amorosamente um ao outro a sua relação futura, sem sequer se tocarem, e sem que haja relação futura.

[Efter repetitionen / Depois do Ensaio, Ingmar Bergman, 1984]