10/30/2010
Descer de um comboio
Reencontro um poema de Hardy, aquele poema de Hardy: ele vai de comboio, passa por uma igreja às nove, junto ao mar às dez, por uma cidade viscosa às doze, às duas por um bosque de carvalhos e bétulas. «And then, on a platform, she: // A radiant stranger, who saw not me. / I queried, "Get out to her do I dare?" /But I kept my seat in my search for a plea». O comboio arranca de novo, a estação desaparece lá atrás, e ele castiga-se por não ter descido.
Ao longo dos anos fui lendo este poema com desânimo, angústia ou resignação, mas hoje, que é se passa comigo, pensei apenas que não é assim tão difícil descer de um comboio.
[Thomas Hardy, «Faintheart in a Railway Train»]
Ao longo dos anos fui lendo este poema com desânimo, angústia ou resignação, mas hoje, que é se passa comigo, pensei apenas que não é assim tão difícil descer de um comboio.
[Thomas Hardy, «Faintheart in a Railway Train»]
10/29/2010
Ártico
Terra, gelo e rochas permanentemente congelados. E depois mais gelo e neve por cima. E é logo aí que construímos, que nos afundamos, uma e outra vez, e até uma enciclopédia, uma impessoal enciclopédia, avisa «recomenda-se cuidado», até uma enciclopédia nos diz «cuidado».
Recomenda-se cuidado

Permafrost é o tipo de solo encontrado na região do Ártico. A etimologia de permafrost vem de «perma», de permanent (inglês para permanente), e «frost» (inglês para congelado) (...). É constituído por terra, gelo e rochas permanentemente congelados. Esta camada é recoberta por uma camada de gelo e neve que, se no inverno chega a atingir 300 metros de profundidade em alguns locais, ao se derreter no verão, reduz-se para de 0,5 a 2 metros, tornando a superfície do solo pantanosa, uma vez que as águas não são absorvidas pelo solo congelado. Recomenda-se cuidado ao erigir edificações ou pavimentação neste tipo de solo, uma vez que, se a camada de permafrost for rompida, a edificação ou a pista pavimentada pode afundar no terreno.
10/28/2010
A ilusão textual
«Quando una donna è disponibile, o addirittura lo ama, il personagio Pavese (quello reale e gli alter ego dei romanzi e racconti) non sembra avere interesse per lei, non se ne innamora o la rifiuta del tutto. (…) è la reazione violenta al sentirsi amato che è peculiare di Pavese. Non lo lusinga [lisonjeia] sentirsi amato; lo irrita profondamente, gli suscita le peggiore misoginia».
Esta passagem de um dicionário Pavese [R. Gigliucci, 2001] exemplifica bem o paternalismo e a incompreensão que perseguem o romancista italiano, sobretudo quanto à sua biografia. Pavese, como toda a gente, gostava de se sentir amado. Cultivava porém uma certa distância emocional. Questão de feitio, sem dúvida, mas também de cautela. Ele era um escritor, e há sempre quem «ame» um escritor porque imagina uma pessoa a partir dos textos. Pavese não alimentava essa ilusão, nem que tivesse que ser violento. Fazia ele bem.
Esta passagem de um dicionário Pavese [R. Gigliucci, 2001] exemplifica bem o paternalismo e a incompreensão que perseguem o romancista italiano, sobretudo quanto à sua biografia. Pavese, como toda a gente, gostava de se sentir amado. Cultivava porém uma certa distância emocional. Questão de feitio, sem dúvida, mas também de cautela. Ele era um escritor, e há sempre quem «ame» um escritor porque imagina uma pessoa a partir dos textos. Pavese não alimentava essa ilusão, nem que tivesse que ser violento. Fazia ele bem.
10/27/2010
Um depravado
Costumo dizer que o sofrimento me transforma num selvagem: isolado da sociedade civilizada, ensimesmado nas minhas sensações intransmissíveis, esquecido dos deveres básicos de atenção e cortesia. Imagino-me uma pessoa educada, e não passo de um cafre. Mas a definição de Alphonse Rabbe, mestre de pessimismo, é mais dura ainda, porque não procura a desculpa de uma espécie de «mudança de natureza»; Rabbe escreve que o sofrimento causa uma depravação, e portanto não estamos para além do bem e do mal, estamos em plena abjecção ética. Quando digo que me torno um selvagem, estou a fugir a questão; na verdade, torno-me um depravado.
10/26/2010
Como é que se pode ter idade para três vidas
Ela disse «eu já vivi duas vidas, não tenho idade para mais vidas, como é que se pode ter idade para três vidas», fechou gentilmente a minha mão aberta, e ficámos ali, calados, ao fim do dia, as duas pessoas mais tristes de Lisboa.
Uma terceira vida
THEA: (…) Já me lembro de tudo. Comecei a lembrar-me de tudo. Como se já tivesse vivido duas vidas. E depois pensei que se ainda não tinha idade para duas vidas, como é que podia ter idade para ter três vidas. Mas tenho. A minha vida aqui, nesta cidade. A minha vida nas montanhas, com o meu marido. E agora uma terceira…
[Hedda, 2010, de José Maria Vieira Mendes]
Thea Elvsted
E há a comovente Thea: foi ela que acreditou, ela que ajudou Lovborg a escrever o manuscrito, e quando Lovborg morre e o manuscrito é queimado, é ela quem reconstitui o manuscrito através das notas que conservou, é ela, demasiado nova para abdicar da felicidade, quem aceita a felicidade mesmo à custa da tragédia, é ela a única que realmente acredita no futuro.
Uma história do futuro
Infelizmente, acabei por não ver em palco Hedda, a versão reescrita por José Maria Vieira Mendes da peça de Ibsen [1890]. Mas li o texto, publicado nos livrinhos de teatro Artistas Unidos / Cotovia. Tenho uma certa resistência a Ibsen, que sempre me pareceu demasiado programático, embora tenha, a vários títulos, algum interesse específico em Hedda Gabler. Em compensação, Vieira Mendes é o nosso dramaturgo vivo que mais me interessa. Ele já tinha adaptado outros clássicos, dramaturgos ou não, mas em Hedda desbastou grande parte da ganga burguesa do texto de Ibsen, mantendo apenas algumas referências irónicas (as saídas de cena muito bem delineadas, pela esquerda, direita e fundo) e um nadinha de conversa de salão entediante. A sua Hedda é ao mesmo tempo mais implícita e mais explícita do que a de Ibsen, mais sucinta e mais directa. As ideias de casa e de casal são habituais na escrita de Vieira Mendes, e só achei curioso como ele eliminou as referências à gravidez de Hedda. Em vez de uma pioneira feminista ou de uma neurótica destrutiva, a Hedda de Vieira Mendes tem simplesmente a independência das mulheres modernas, o desencanto das mulheres adultas e a retórica das mulheres letradas. A peça de Ibsen contém passagens que me parecem de comédia involuntária (parodiadas aliás numa peça curta de Barrie, Ibsen's Ghost, 1891); mas aqui toda a comédia é voluntária, incluindo algumas deliciosas alusões contemporâneas (como ao anúncio: «o algodão não engana»). Uma das coisas que mais gosto no texto original e nesta versão é a questão do casamento como «futuro» e de um manuscrito (depois queimado) que é justamente uma «história do futuro». A peça de Ibsen tem uma famosa frase final: «Isso é uma coisa que as pessoas dizem mas não fazem»; é uma tirada cínica sobre o suicídio, mas pode transformar-se numa reflexão pessimista sobre uma espécie de recusa do futuro. A «felicidade doméstica» é tudo menos evidente, falta saber apenas se a «recusa do futuro» consistir em casar, em recasar ou em não casar de todo. Eis uma dúvida a que nenhuma evolução histórica respondeu ainda.
Contra o dicionário
Leio num dicionário que «aceitação» é antónimo de «resistência». Talvez por isso tão pouca gente compreenda esta minha atitude, que se podia definir precisamente como «uma resistência feita de aceitação» ou «uma aceitação feita de resistência».
10/25/2010
Volta [uma carta]
Se eu continuar à espera, talvez uma luz ainda brilhe. Debaixo deste tecto desfeito, sinto a chuva e conto os dias. Volta.
Tenho ensaiado tudo o que te quis dizer desde que foste embora. Por favor diz-me que se não tivesses ido agora eu não te teria perdido. Ouve-me, onde quer que estejas: volta.
Os dias passam mas eu anseio pelas noites em que te encontro em sonhos: e então durmo. Quando não desespero, continuas uma memória nítida. Sei que tu tinhas que ir e que eu tinha que ficar. Mas isto é tão estranho: estás tão longe e eu sinto-te tão perto. E não quero saber porquê. Talvez haja uma porta aberta para tu voltares.
E às vezes estás aqui e falas comigo, e quando chega a manhã podia jurar que estás ao meu lado, e está tudo bem. Está tudo bem. Eu estou aqui. Volta.
Eu continuo aqui. Volta.
Eu estou aqui. Volta para mim.
[tomada de empréstimo ao senhor Edward Louis Severson III]
Tenho ensaiado tudo o que te quis dizer desde que foste embora. Por favor diz-me que se não tivesses ido agora eu não te teria perdido. Ouve-me, onde quer que estejas: volta.
Os dias passam mas eu anseio pelas noites em que te encontro em sonhos: e então durmo. Quando não desespero, continuas uma memória nítida. Sei que tu tinhas que ir e que eu tinha que ficar. Mas isto é tão estranho: estás tão longe e eu sinto-te tão perto. E não quero saber porquê. Talvez haja uma porta aberta para tu voltares.
E às vezes estás aqui e falas comigo, e quando chega a manhã podia jurar que estás ao meu lado, e está tudo bem. Está tudo bem. Eu estou aqui. Volta.
Eu continuo aqui. Volta.
Eu estou aqui. Volta para mim.
[tomada de empréstimo ao senhor Edward Louis Severson III]
10/22/2010
10/19/2010
Hasta luego modern guy

You got a working illusion
In the palm of your hand
Why in the world would you want to lose that?
I clung to believing
Just as long as I could
How in the world could you fail to see that?
Hasta luego modern guy
So when did I cease to see the light?
Maybe you were right
Maybe I’m all dried up inside
Maybe I’m not built for these times
Maybe I don’t know how to live
Maybe I don’t know how to live
[Lloyd Cole, «Why in the World», álbum Broken Record, 2010.
Hasta luego no TAGV]
10/18/2010
Credor
I decree today that life is simply taking and not giving
England is mine and it owes me a living
[The Smiths, «Still Ill»]
10/17/2010
O lustre da resignação
Um amigo censura a minha atitude de «vencido da vida». Explica as razões pelas quais me considera um «vencedor», e lamenta que eu negue as evidências. Esboço uma réplica, mas depois lembro-me que nesta matéria há uma citação definitiva. Chego a casa, tiro o Eça da estante, e escrevo a resposta tomada de empréstimo:
O que de resto parece irritar o nosso caro Correio da Manhã é que se chamem vencidos àqueles que, para todos os efeitos públicos parecem ser realmente vencedores. Mas que o querido órgão, nosso colega, reflicta que para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal íntimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência fora com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma gaforina e a tesoura para tosquiar, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos vinte anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser um milionário, um poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou de mulheres, segundo as circunstâncias), e se apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho – ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do Poole e conservando no chapéu o lustre da resignação.
O que de resto parece irritar o nosso caro Correio da Manhã é que se chamem vencidos àqueles que, para todos os efeitos públicos parecem ser realmente vencedores. Mas que o querido órgão, nosso colega, reflicta que para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal íntimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência fora com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma gaforina e a tesoura para tosquiar, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos vinte anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser um milionário, um poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou de mulheres, segundo as circunstâncias), e se apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho – ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do Poole e conservando no chapéu o lustre da resignação.
10/16/2010
Nada de dois
Sei que o Lei Seca tem cinco ou seis leitores paulistas, daí a lembrança: a minha peça Nada de Dois, dirigida por Fred Mesquita, está em cena no Sesc Consolação, às segundas e terças, às 21.

[imagem retirada do blogue de teatro do jornal Folha de S. Paulo: a actriz Mirela Pizani em Nada de Dois, fotografada por Lenise Pinheiro]

[imagem retirada do blogue de teatro do jornal Folha de S. Paulo: a actriz Mirela Pizani em Nada de Dois, fotografada por Lenise Pinheiro]
Noruega
In Norway we’re used to darkness in people’s heads. We even prefer it. Because if there is no darkness, then what in heaven’s name are you thinking about? We Norwegians think people who are happy are perhaps just a little bit above themselves, don’t you?
[Being Norwegian, 2007, de David Greig]
[Being Norwegian, 2007, de David Greig]
Inquietude
Recebo uma mensagem no telemóvel. Não reconheço o número de que foi enviada, e o texto não vem assinado, portanto passo boa parte da noite e da manhã a tentar imaginar de quem será aquela mensagem, e o que significa. É um conjunto de palavras bastante críptico, ou então parece críptico apenas porque desconheço o remetente. A mensagem pode vir de umas quatro ou cinco mulheres, é de certeza de uma mulher, embora em nenhum caso faça completamente sentido, em termos de estilo e conteúdo. Reduzo a lista a duas «suspeitas», com resultados mais ou menos angustiantes. Se vier de A, é uma mensagem comovente e brutal. Se vier de B, é seca e ambígua. Um mesmo texto pode ter leituras completamente diferentes, que me assustam ou alegram durante uma noite e uma manhã. Tento descobrir, inclusive através de amigos, que número é aquele, em vão. Respondo então com outra mensagem, e pergunto quem está do outro lado. E afinal é uma outra pessoa, uma pessoa em quem não tinha pensado, é C, e C nem faz parte da história de A e B, é uma amiga, apenas uma amiga, e a mensagem de súbito não é nada enigmática ou perigosa, é uma mensagem normal, não uma mensagem brutal, ambígua, seca ou comovente. Esvaído o mistério, ficou porém a inquietude.
10/15/2010
10/14/2010
Não se justifica
Leio em Jacques Bouveresse, especialista de Musil (não há acasos), que a «pergunta do filisteu» é esta: há alguma justificação para a arte? O filisteu civilizado, que disfarça a mentalidade de taberneiro com uma patine argumentativa, esconde-se em questões instrumentais, processuais, adjectivas. Mas, quando se irrita, o filisteu assume enfim essa pergunta essencial: há alguma justificação para a arte? E não imaginem que se trata de uma pergunta ontológica: «justificação», aqui, significa apenas «utilidade».
Como se conta
Quem repete até à náusea a ideia paupérrima de que um bom romance é um romance que conta «uma boa história» devia mandar gravar em gesso uma frase do ficcionista argentino Fogwill: «A literatura não conta uma história, conta como se conta uma história».
Guardado toda a ternura
A mulher de Tolstoi, ao ler uma das suas últimas novelas, não me lembro qual, ficou comovida, e escreveu que não conhecia aquele homem afectuoso e sensível, que estava casada com ele há décadas mas que ele tinha aparentemente guardado toda a ternura para as páginas de uma novela.
Poesia e prática
Há um poeta americano actual, Thomas Lynch, que se especializou na escrita de elegias. Descubro agora que na vida civil é agente funerário.
10/13/2010
Part-time thing
I've had it to here
Being where
Love's a small word
A part-time thing
A paper ring
[Neil Diamond, na voz vivida de Johnny Cash]
Egipto
Quando falamos, de vez em quando, muito de vez em quando, contamos as novidades, ou nem isso, a minha desesperança, o teu desencanto, e já não há mais tempo, estás cansada, estou apressado, é uma amizade residual, pouco mais, julgo que nem entenderias se eu te dissesse que foste a pessoa depois da qual, que depois de ti, que nunca mentias, decidi que a mentira não tem perdão, que quem mente merece todos os castigos, águas em sangue, rãs, piolhos, moscas, animais doentes, sarna com úlceras, saraivadas de fogo, gafanhotos, trevas e a morte dos primogénitos. E tu saberias reconhecer que isso é apenas justiça, saberias dizer sem rancor que isso «vem na Bíblia».
Caçadores de cabeças
Ias a uma entrevista com headhunters, disseste, fiquei sobressaltado com essa expressão, «headhunters», é apenas gente que caça talentos, explicaste, mas eu imaginei logo um bando de jívaros, os aborígenes dos Andes, sabes, aqueles que cortavam cabeças e as reduziam até ficarem pequeninas e depois as traziam à ilharga como troféus. E nunca me lembro de ti sem pensar nos índios que cortavam cabeças. Embora os jívaros só fizessem isso aos inimigos.
10/12/2010
Repetição

Quando me encontraste, quando te encontrei, tudo foi estranho e novo, eu tinha chegado ao fim, não queria mais, não queria mais que aquilo se repetisse. Mas a história repetiu-se, a história repete-se sempre, e depois eu chegava a casa e estava a dar na TV, em repetição, uma série em que tu entravas. Contigo e comigo a história não se repetiu como tragédia nem como farsa, foi um epílogo agridoce, um instante frágil, uma tristeza fina. E agora estou aqui sentado sem ti a ler um livro, e vou percebendo que é um livro sobre nós, e o livro chama-se Gjentagelsen, que é dinamarquês para Repetição.
A única excepção
Passa na telefonia uma cançoneta sentimental, ela soa desamparada, diz que o amor não existe ou que existe mas acabou, acha que ninguém é de confiança, mas depois emenda, excepto ele, emenda, excepto tu, «you are [uma pausa] the only exception», bela maneira de dizer aquilo que ainda sente, «tu és a única excepção», assim não é tão embaraçoso, evitamos as palavras do costume, palavras gastas e ridículas, basta «tu és a única excepção», ouço a canção e posso dizer isso de ti, ela foi a única excepção, posso dizer-te isso a ti, tu foste a única excepção, e é por isso talvez, não sei, que também uso o tempo presente, embora o tempo presente tenha acabado, digo «tu és a única excepção», tu és [depois uma pausa] a única excepção.
10/11/2010
10/02/2010
10/01/2010
Average Botticelli
A rapariga mais bonita deste ano, numa esplanada do Rossio, acho sempre que não tenho um tipo físico, mas depois descubro alguém deslumbrante e tem, de facto, um tipo específico, que atravessa tempo e costumes, e que os especialistas chamam average Botticelli, variações mínimas sobre as criaturas botticellianas, graça e altivez doce num meio sorriso, num meio enigma.
La maman et la putain

Dizem que os homens dividem as mulheres entre mães e putas. É possível. Pessoalmente, conheço poucas mães e poucas putas. Toda a gente usa o seu corpo como pode, não é pecado, mas convivi apenas com duas ou três mulheres que «vivem» disso. Quanto às mães, há de facto o instinto maternal em sentido estrito, mas quase não conheço mulheres «maternais», pois em Lisboa a piedade é vista como uma fraqueza. La maman et la putain? Aqui não há disso.
Uma outra misantropia é possível
Leio biografias dos grandes misantropos ingleses, Amis, Dahl, Larkin, Waugh, os «curmudgeons» do costume, mas continuo a achar que uma outra misantropia é possível; sem amargura, sobranceria, preconceitos ou rudeza. Uma misantropia educada, calada, introspectiva. Uma misantropia da ausência. Para quê estragar a festa quando se pode simplesmente não ir à festa?
Doutor mundinho
Há uns anos conheci, de chofre, o mundinho lisboeta do arrivismo social, do deslumbramento mediático, da coterie exibicionista, da cultura como penacho, do darwinismo canibal, da máfia da foda. Odiei; e não, «não me passou». Continuo na minha: desejo que a vossa sabedoria vos sufoque.
One L

Em One L (1977), Scott Turow conta a sua experiência traumática no primeiro ano do curso de Direito em Harvard. Ele superou o trauma, pelos vistos, tanto que se tornou advogado e romancista especializado em advogados. E no entanto, One L é uma história tétrica. Tudo é competição, autoritarismo, humilhação, angústia. Turow, benigno, critica currículos e métodos, mas nunca se lembra se desmontar a própria ideologia jurídica.
Eu lembro-me bem de 1L e dos LL todos, lembro-me da competição, do autoritarismo, da humilhação e da angústia. Nunca tive angústias com aquelas de 1L (ou, no meu caso, 3L), angústias que apertam o pescoço, fazem um buraco no estômago, dão suores frios e tremuras, nunca na puta da vida tive angústias assim, nunca mais na vida terei angústias assim, como as angústias de 1L.








