11/30/2010

Construção civil

Aquilo que pensamos ou dissemos um do outro, um ao outro, foi sempre, que ideia estranha, uma questão de construção civil: de casas, estradas, pontes, aeroportos, da distância que nos une e separa, do conforto e do risco, do sítio em que moramos ou em que íamos morar.

11/29/2010

O amor liberta



O amor liberta. O amor é uma prisão. Mas como é que é uma prisão liberta? Talvez na medida em que me mantém aqui, cativo e atento, à tua espera.

11/28/2010

Seven Dials

Em Seven Dials, aquele cruzamento de que gosto tanto entre o West End e Covent Garden, lembrei-me de ti, de quem é que eu me havia de lembrar em Seven Dials? Em Londres, centro da cidade, centro do mundo, há sete ruas, sete caminhos, uma decisão. The stranger who finds himself in the Dials for the first time (…) at the entrance of Seven obscure passages, uncertain which to take, will see enough around him to keep his curiosity awake for no inconsiderable time (Dickens). E depois, em Seven Dials, é preciso escolher um caminho. Que caminho é que escolheste?

11/25/2010

Olympia [de Manet a Ferry]

Dito isso

But yes, I am conservative by nature so it would be fair to say I was supporting them [Tories] now. That said, I always felt politics and art don't mix very well.

[Bryan Ferry ao Telegraph, 2008]

O tédio do pessimismo

Há pessoas que acham que ser pessimista deve ser «angustiante». Estão enganadas. Ser pessimista é sobretudo cansativo. Todos os dias o mundo confirma a ideia que temos do mundo. Imaginem: todos os dias.

11/24/2010

Uma certa tendência

Trollope disse uma vez que se orgulhava da sua biblioteca de cinco mil volumes, dos seus cavalos favoritos, dos bons vinhos que guardava na garrafeira e daquilo a que chamou «uma certa tendência para desaparecer».

Eu não possuo estábulos nem licores requintados, mas gosto de ficar em casa no contentamento dos livros, e também já não dispenso «uma certa tendência para desaparecer», tanto metafórica como literal. Mas não é orgulho: é necessidade.

11/22/2010

Hora de Greenwich



My kith and kin
I have sinned
The alarm rang loud, the lights were on
I didn't see a thing
My kith and kin
Death just walked in, again
And he said
«London, can you wait
For all the things I need to say
How long can you wait?»


[Gene]

Em luzes











Desço à rua, faço uma pausa, saio de casa, acabo um trabalho, espreito pela janela, e sinto sempre a falta do automóvel preto em luzes à minha espera. Falta da tua brandura dolente, tensa, secretamente divertida, da tua coragem em não aceitar compromissos, da tua ternura indirecta e cautelosa, do teu riso contagioso, dos teus olhos interrogando um gesto, de algum sentido que dê sentido a isto tudo. As ruas e os passeios estão cheios de automóveis, mas neles vão pessoas iguais umas às outras, indistintas para mim, indiferentes, falta a calma, a certeza e a alegria dentro daquele automóvel preto.

11/20/2010

Balla
















[está nas lojas, e inclui a minha estreia em lyrics na faixa 4]

11/15/2010

As vidas dos outros

O lançamento de As Vidas dos Outros é amanhã, 16 de Novembro, às 21.30, no Cinco Lounge. Haverá leituras, assinaturas e polémicas sobre Lucas Cranach.

I have longed to move away

















I have longed to move away
From the hissing of the spent lie
And the old terrors' continual cry
Growing more terrible as the day
Goes over the hill into the deep sea;
I have longed to move away
From the repetition of salutes,
For there are ghosts in the air
And ghostly echoes on paper,
And the thunder of calls and notes.

I have longed to move away but am afraid;
Some life, yet unspent, might explode
Out of the old lie burning on the ground,
And, crackling into the air, leave me half-blind.
Neither by night's ancient fear,
The parting of hat from hair,
Pursed lips at the receiver,
Shall I fall to death's feather.
By these I would not care to die,
Half convention and half lie.


[Dylan Thomas]

Darwin para gordos














A fat man (…) looks like a cross between a very young child and a pregnant mother. There have been cultures in which obesity in women was considered the ideal of sexual attraction, but in no culture, so far as I know, has a fat man been considered more attractive than a thin one. If my own weight and experience give me any authority, I would say that fatness in the male is the physical expression of a psychological wish to withdraw from sexual competition and, by combining mother and child in his own person, to become emotionally self-sufficient.

[Auden, The Dyer’s Hand, 1962, num ensaio sobre Falstaff]

B. S. Johnson



Write a book of debt everyone must pay
exact revenge in a grotesque way

build a taj mahal on vacation time
the kid will frag the sap before the ink is dry

its as good as any joke I know

Write a book of leaves shuffled by the wind
two unbound lives orderless and grim

setup to ensure failing miserably
to sublimate a world into poetry

but make sure your last intentions known (...)


[Pernice Brothers, «B.S. Johnson», álbum Live a Little, 2006]

A rede social

A Rede Social é o biopic de um geek de sucesso? Uma fábula sobre a ambição e a corrupção? Uma meditação sobre o Facebook? Tudo isso, e nada disso.

Versão «ficcionada» de um controverso livro sobre o Facebook, A Rede Social traça um retrato impiedoso do seu criador, Mark Zuckerberg, um miúdo traumatizado, obcecado, arrogante e invertebrado. Mas o «Zuckerberg» de David Fincher nunca passa de um enigma ensimesmado e inexpressivo. Não esperem daqui psicologia sofisticada, muito menos tragédia grega.

Fincher é bastante mais consequente quando disseca a dimensão empresarial do conceito Facebook. Zodíaco (2007) estava pejado de relatórios policiais, notas inconclusivas, até ao mais ínfimo detalhe; aqui temos jargão informático e linguagem negocial e jurídica. O Facebook é uma ideia que vale milhões, e isso interessa o cineasta, que conta a história como um clássico conflito de luta pelo poder. Um poder que hoje em dia está também nas mãos de uma elite tecnológica adolescente, mergulhada nas aspirações e insuficiências da adolescência. E que viu uma técnica de engate tornar-se numa batalha capitalista.

A tese de que Zuckerberg chegou ao sucesso global movido apenas pelo ressentimento classista e o insucesso amoroso é assustadora, e assustadoramente provável. Não há como gostar deste Zuckerberg de Fincher, que será ou não conforme ao original, não temos a certeza. «Todos os mitos de criação precisam de um demónio», diz-se a certa altura, mas este Zuckerberg parece apenas o demoniozinho a que a actual civilização tem direito.

E há aqui de facto um «mito da criação», ou perdemos toda a noção das proporções? O Facebook tem quinhentos milhões de inscritos, muito bem, mas de certeza que veio para ficar? Mais importante: podemos garantir que o Facebook mudou a nossa vida social de modo radical e definitivo? É cedo para ter a certeza.

O filme inclui intermináveis discussões sobre direitos de propriedade intelectual, e ainda bem, mas em compensação não há quase nada sobre a privacidade, o calcanhar de Aquiles do Facebook enquanto projecto «ideológico». Que ninguém se esqueça de que Zuckerberg já defendeu que uma democracia ideal é uma sociedade onde sabemos tudo sobre toda a gente. Ou seja: uma sociedade totalitária.

Enquanto cinema, A Rede Social é um objecto elegante, veloz, divertido, intenso, conciso, minucioso, irrepreensivelmente escrito; mas não nos ensina nada sobre a questão «tecnologia e vida privada». Fincher é especialista em «zeitgeist movies», mas desta fez ficou enredado no «caso Facebook», em vez de desmontar o «efeito Facebook», que é o que mais interessa.

Dito isto, que portentosa cena final: um rapazola que discute negócios milionários mas totalmente angustiado com a resposta ao «pedido de amizade» que fez a uma rapariga. E enquanto ela não responde ele faz «refresh», «refresh», «refresh».

11/14/2010

Cuidar dos vivos

Enquanto me afasto

Julguei que já não vinhas, era tarde, eu já nem devia estar ali, mas de repente, no meio da chuva e do frio, avançaste para mim, era o teu cabelo, o teu tom de pele, um chapéu igual aos teus, que escondia o nariz e os olhos, avançaste para mim, numa diagonal flagrante, tive um sobressalto, ou quase, nem houve tempo, ela levantou a cabeça, ela porque não eras tu, e eu virei a cabeça para o outro lado, envergonhado, por que diabo achava ainda que virias ter comigo, à vigésima quinta hora, no meio do frio e da chuva?

Enquanto me afasto, lentamente, penso que durante todo este tempo fui como um homem que pede a Deus um sinal. Um homem que acredita mas não aguenta mais silêncio, ou que não acredita e desafia um deus fictício. Essa bravata, no entanto, não nos diz nada sobre Deus. Quem tem que se manifestar é o homem. Tem que se manifestar a si mesmo, escolhendo a vida que leva. Um homem não é uma divindade: não há dúvida de que existe e não há dúvida de que deixará de existir em breve. Só ainda não sabemos se escolhe a liberdade ou o desespero.

Acontecimentos

Boa parte do que acontece, acontece debaixo do radar, entre a chuvinha do «confessionalismo», ninguém detecta nada, ninguém sabe de nada, mas alguma coisa forçosamente se passa, a criatura é temperamental mas não vive da imaginação, aquilo que a faz e desfaz tem um tempo, um lugar, um rosto. Não bastam pressentimentos e fantasias, é preciso o choque com a realidade.

Uma vez perguntaram a um primeiro-ministro inglês qual é a maior dificuldade que um estadista enfrenta. Ele respondeu: «Events, dear boy, events».

11/07/2010

Is it home of the free or what?




Here is London, giddy of London
Is it home of the free
Or what?

Can you squeeze me
Into an empty page of your diary
And psychologically save me?
I've got faith in you (...)

Oh, here is London
«Home of the brash, outrageous and free»
You are repressed
But you're remarkably dressed
Is it Real?
(...)

[Morrissey, «Hairdresser on Fire», álbum Bona Drag, 1990, reed. 2010]

11/06/2010

Peste emocional, alegria moral

Anda uma peste emocional à solta. Nos últimos meses, tenho ouvido inúmeras histórias de separações, divórcios, zangas e rupturas. Talvez um terço dos casais que conheço entrou em crise. Nalguns casos, é da idade, noutros houve terceiros envolvidos, mas muitas vezes aconteceu uma coisa bastante mais simples: um deles, geralmente ela, tornou explícito o que estava implícito. Houve uma opção pela verdade, em detrimento da segurança. E no meio do sofrimento, alguns dos meus amigos ostentam agora uma alegria moral tímida mas decidida.

11/04/2010

Les regrets


















Ele manda-lhe uma mensagem escrita: «Pas de regrets?».
Ela responde: «Que de regrets».

[Les regrets, de Cédric Kahn, 2009, com música de Philip Glass]