12/31/2010

Os melhores anos

















Daqui a um ano faço 39, a idade que o jovem Krapp tinha quando gravou as fitas que o velho Krapp descobre e ouve. Um momento alto de 2010 foi aliás a encenação de Krapp’s Last Tape com Michael Gambon. Comovi-me, é claro, com aquele homem isolado, desleixado, destreinado, maniento, impaciente, aquele velho que vive numa terra de ninguém rodeado de memórias gravadas em bobines. É tão arisco e tão frágil, Krapp, impressionante a maneira como ele reage às coisas antigas ditas por uma voz antiga, que é a sua, e pergunta como é que «aquele» é ele, é «eu», um palerma já velho aos 39 anos recordado por um palerma ainda mais velho. Decide gravar uma fita nova para acrescentar coisas, comentar, protestar, emendar, mas percebe que verdadeiramente não há mais nada a dizer. Estava tudo dito aos 39: «Here I end this reel. Box - (pause) - three, spool - (pause) - five. (Pause). Perhaps my best years are gone. When there was a chance of happiness. But I wouldn't want them back. Not with the fire in me now. No, I wouldn't want them back».

O copo meio

Para usar uma velha imagem, ninguém contesta que há um copo, e que o copo está a meio. Nem um panglossiano especialmente imbecil diria que o copo está cheio. Nem um niilista tresloucado diria que o copo está vazio. «Meio cheio» ou «meio vazio», então? Isso não tem nada a ver com o copo mas com ideias sobre o copo. Esta é a minha.

A carta













Não rasgo a carta. A carta rasga-se. A carta rasga-me.

12/30/2010

Hildur Andersen

Halvard Solness é o arquitecto que se sente ameaçado pela nova geração (como Ibsen se sentia ameaçado por Hamsun e Strindberg). Hilda Wangel é a juventude como tentação e tragédia.

Hilda Wangel «é» Hildur Andersen, a rapariga por quem Ibsen se apaixonou em 1891. Hildur, uma pianista de 27 anos, fez companhia ao dramaturgo na ausência da sra. Ibsen, que por razões de saúde estava no estrangeiro. Hildur e Ibsen iam juntos ao teatro, a concertos, a galerias. Ela até lhe decorou a casa.

O idílio foi casto e breve. Hildur prosseguiu os seus estudos em Viena, e Ibsen ficou em Christiania.

Décadas depois, Hildur Andersen destruiu todas as cartas que recebeu de Ibsen, e rasgou também a dedicatória do manuscrito de O Construtor Solness. Julga-se que a dedicatória dizia que a peça era dela.












[Gemma Arterton e Stephen Dillane em The Master Builder, Almeida Theatre, Londres]

Metade da vida

Fiz 38 anos, estou a meio da vida, ou antes, da esperança média, ninguém espera que viva até aos 76, a carcaça não aguenta outros 38 sem o prometido AVC, mas enfim, é em teoria metade da vida, devia proferir alguma frase minimamente sábia, fazer de pequenino Séneca ou Montaigne aos 38, o que é a vida aos 38, a meio do caminho: mas o que há a dizer senão que a decepção é fatal, o tempo escasseia e não se aprende nada?

Provérbio transmontano ou lá o que é

Quem aos vinte não é e aos trinta não tem, aos quarenta não é ninguém.

A música de uma ideia


















Releio The Whitsun Weddings, e demoro-me nos poemas «Love Songs in Age» e «Dockery and Son». Em 1964, Larkin era pouco mais velho do que eu sou agora, e acreditava que tudo o que existe é tédio e medo, ou acaba em tédio e medo, que são duas formas de nulidade.

No poema sobre o antigo colega de faculdade que entretanto já tem um filho na faculdade, o sujeito que deixou a vida fugir confronta-se com uma surpresa momentânea: a inesperada «normalidade» biográfica dos outros. Sente-se diminuído por causa disso? Não exactamente. Ele diz que cada um seguiu o seu caminho, que cada um atribuiu significados diferentes às palavras em que acredita e às opções tomadas. E depois o hábito instalou-se, o tempo passou, de modo que cada um se tornou naquilo que fez no passado.

O poema sobre a mulher que ouve discos antigos é mais ambíguo. A rapariga envelheceu, o vinil também, mas a música continua nova e fresca, como se fosse «that much-mentioned brilliance, love». Aqueles discos não são apenas memorial de um tempo, de pessoas e acontecimentos: são a memória de uma ideia. Ela acreditou um dia nessa ideia, nessa possibilidade. Quando a rapariga era ainda rapariga, acreditou num amor que «resolve», que satisfaz», que «ordena». Anos depois, verifica que nada disso aconteceu, e já é tarde. Mas a música, essa, continua fresca, nova e brilhante. É a música de uma ideia.

Vitória moral

Impressiona-me na biologia a vontade da vida em ser vida, os estratagemas que a vida inventa para sobreviver nas condições mais adversas. Impressiona-me no darwinismo a implacável luta genética pela sobrevivência dos mais aptos. Penso então que as pessoas que não tiveram filhos, como eu, foram cúmplices da estratégia da vida, e não oponentes. A vida, sabendo que o material era de fraca qualidade, decidiu não ir a jogo; não se reproduzindo, a vida desistiu em favor de outra vida mais capaz, e com isso alcançou ao menos uma vitória moral.

Vida de adulto

Madrugada dentro, numa noite mansamente triste de Inverno, lembro-me de quanto mudei. Há quase duas décadas, aqui deitado, não aceitava levar uma vida que não fosse digna de ser vivida. Queria imperativamente deixar alguma coisa que me sobrevivesse. Agora é diferente. Já sei que de mim nada fica, mas não acho a vida menos digna de ser vivida por causa disso. Desisti da infelicidade porque aceitei o fracasso. É a vida de adulto.

12/22/2010

A uma sombra



I watch them ’til they’re gone
And they leave me hanging on
To a shadow


[Bob Dylan, «Love Sick»]

O amor em concreto













O que é o amor, em concreto? Não perguntes o que é sem este «em concreto», acabarás com arbitrariedades verbais, piedades, coisas vãs. O que é o amor em concreto, concreto como cimento, como betão, concreto como uma pedra, imagem tão diferente do complicado e impudico coração? O verbete «amor» fala em emoção, estética, ideologia, doença, e nada disso interessa agora mas apenas o amor em concreto, corpos, cortinas, cheiros, cães, o amor que com ou sem aspas mostramos aos outros para que acreditemos também, vejam a minha felicidade, a minha normalidade, a minha desistência. Com o teu amor concreto o mundo encontra uma base estável no meio dos vendavais. E agora suportas todas as decepções. O amor é um vício, uma gangrena, faz mais falta um amor concreto, hábitos, fotos, impostos, torneiras, é contra o amor que o amor concreto triunfa, onde estavas, amor, quando foste preciso, quando ela precisava, ao passo que eu estive sempre aqui ao seu lado? Que importam as tuas escaladas, os teus mergulhos, que tristes acrobacias são essas, que escusado espectáculo, quando eu dou (diz o amor concreto) a desculpa, o descanso, os domingos? O amor perdeu porque é seu costume, saiu para a rua com a roupa errada, enquanto o amor concreto trouxe agasalho, é prudente e precavido, tem botões, chaves, ferramentas. O amor diz que ama mas desconhece o tempo e o tédio, é por ser banal que o amor concreto o humilha, não há amor mais forte que o amor em concreto, o amor que te toca, protege, exaspera, o que é o amor ao pé disso, simples hipótese rabiscada num guardanapo, devaneio de asténicos, vida alternativa. Vinhas com os teus exércitos, amor, mas foste dizimado, o amor em concreto é o único, escondo-me agora na vergonha dos indignos enquanto em concreto o amor concreto está onde sempre esteve, tranquilo no inverno com o teu amor nos braços.

12/20/2010

2010: alguns (poucos) filmes













Não vi o Wiseman nem o Ruiz, mas nem com esses conseguia encontrar dez grandes filmes em 2010. Em compensação, houve obras medianas ou pouco mais que me tocaram por motivos éticos (Um Homem Sério, o norueguês Águas Agitadas) ou etários (Greenberg, algumas coisas de A Rede Social). E tivemos um regresso apreciável (Polanski), um Ozon inteligente, uma bela «instalação» de Kiarostami com uns excessivos noventa minutos, um João Botelho sem farsa, e o inevitável filme humanista e simpático (Whisky). Mas nada que encha as medidas, como dois grandes filmes de 2009 que só vi em 2010: O Profeta e O Laço Branco.

Por isso tenho apenas quatro «filmes do ano». Ruínas, de Manuel Mozos, notável retrato de Portugal como destroço assombrado; Lola, de Brillante Mendonza, cinema à chuva com gente verdadeira; Canino, uma espécie de Haneke grego; e 24 City, de Jia Zhang-ke, a China entre o passado e o futuro, e um exercício que leva muito longe a indistinção entre documentário e ficção, com efeitos inquietantes e comoventes.

Ah, e nenhum filme em 2010 foi tão bom como Whatever Works, mas metam-se na vossa vida.

12/19/2010

O bosque sagrado


















Poemas de Adília Lopes, Al Berto, Alberto Pimenta, Alexandre O’Neill, Alexandre Pinheiro Torres, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Paula Inácio, António Botto, António Franco Alexandre, António José Forte, António Osório, Armando Silva Carvalho, Carlos de Oliveira, Daniel Jonas, Edmundo de Bettencourt, Eugénio de Andrade, Fátima Maldonado, Fernando Assis Pacheco, Fernando Guerreiro, Fernando Pinto do Amaral, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Gil de Carvalho, Helder Moura Pereira, Herberto Helder, Inês Lourenço, João José Cochofel, João Lopes, Jorge de Sena, Jorge Sousa Braga, José Alberto Oliveira, José Gomes Ferreira, José Mário Silva, José Miguel Silva, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Nava, Luís Quintais, Luiza Neto Jorge, Manuel António Pina, Manuel de Freitas, Manuel Gusmão, Maria Andresen, Mário Cesariny, Miguel-Manso, Nuno Júdice, Pedro Mexia, Pedro Tamen, Raul de Carvalho, Ruy Belo, Ruy Cinatti, Rui Lage e Vasco Graça Moura.

12/17/2010

The hills are alive with celibate cries

I'm spellbound, but a woman divides
and the hills are alive with celibate cries
but you know where you came from
you know where you're going
and you know where you belong
you said I was ill, and you were not wrong


[The Smiths, «These Things Take Time»]

Pro-choice

O celibato é «involuntário». Quase toda a gente prefere alguém a ninguém. Mas também é «voluntário». Quase toda a gente teria alguém se quisesse. Um celibatário vive de acordo com aquilo que escolhe, mas não com aquilo que deseja.

A natureza da natureza

Perguntam-me se já me enganei «completamente» acerca de alguém. Tento encontrar uma resposta. Tive algumas grandes decepções, é verdade. E sempre com pessoas competitivas, cínicas e agressivas. Mas nunca ignorei que fossem competitivas, cínicas e agressivas; não estava completamente enganado. Achei foi que essas pessoas não seriam competitivas, cínicas e agressivas comigo. Não me enganei acerca da natureza delas, enganei-me acerca da natureza.

12/16/2010

O ano da transparência

Richard Stengel, editor da revista Time, descreveu de forma sucinta e excelente os dois «profetas da transparência» do ano 2010:

In a sense, Zuckerberg and Assange are two sides of the same coin. Both express a desire for openness and transparency. While Assange attacks big institutions and governments through involuntary transparency with the goal of disempowering them, Zuckerberg enables individuals to voluntarily share information with the idea of empowering them. Assange sees the world as filled with real and imagined enemies; Zuckerberg sees the world as filled with potential friends. Both have a certain disdain for privacy: in Assange's case because he feels it allows malevolence to flourish; in Zuckerberg's case because he sees it as a cultural anachronism, an impediment to a more efficient and open connection between people.

É também um bom resumo das minhas perplexidades e reticências face ao Facebook e à Wikileaks.

12/15/2010

A tua marca


















Em mim como um marcador num livro.

12/14/2010

Tudo o que temos de fazer

Comovi-me quando ouvi de novo aquele frenesi dionisíaco e triste. E lembrei-me desses tempos de exaltação e entusiasmo, éramos doentes românticos, possuídos por uma tradição ancestral e febril. Cantávamos «all we got to do is surrender» e nem sabíamos que era uma despedida.



[Waterboys, «The Pan Within», álbum This is the Sea, 1985]

2010: vinte livros


















Clarice Lispector - Uma Vida
Benjamin Moser
tradução de Maria Beatriz Sequeira
Civilização

Salazar - Biografia Política
Filipe Ribeiro de Meneses
D. Quixote

Uma Antologia de Poesia Chinesa
tradução de Gil de Carvalho
Assírio & Alvim

O Príncipe de Homburgo
Heinrich von Kleist
tradução de Luísa Costa Gomes
Ática

Adoecer
Hélia Correia
Relógio D’Água

Amores
Henry Green
tradução de José Miguel Silva
Relógio D’Água

Contos Completos II
John Cheever
tradução de José Lima
Sextante

O Estaleiro
Juan Carlos Onetti
tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu
Ulisseia

Um Repentino Pensamento Libertador
Kjell Askildsen
tradução de Mário Semião
Ahab

O Jogo Favorito
Leonard Cohen
tradução de Alice Rocha
Alfaguara

Demolição
Lydia Davis
tradução de José Mário Silva
Ulisseia

A Flor Azul
Penelope Fitzgerald
tradução de José Miguel Silva
Relógio D'Água

O Homem do Castelo Alto
Philip K. Dick
tradução de David Soares
Saída de Emergência

A Literatura Nazi nas Américas
Roberto Bolaño
tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Quetzal

Divórcio em Buda
Sándor Márai
tradução de Ernesto Rodrigues
D. Quixote

As Aventuras de Augie March
Saul Bellow
tradução de Salvato Telles de Menezes
Quetzal

Obra Poética
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho

O Anjo da História
Walter Benjamin
tradução de João Barrento
Assírio & Alvim

O Prelúdio
William Wordsworth
tradução de Maria de Lourdes Guimarães
Relógio D'Água

A Beleza e a Tristeza
Yasunary Kawabata
tradução de Maria João Freire de Andrade
D. Quixote

There is but one concern

A grande fogueira

Em arrumações, encontro três cadernos cheios de transcrições de mensagens. Não sabia que ainda os tinha, nem me lembrava deles, andavam desaparecidos há anos. Um deles cai ao chão e fica aberto, talvez de propósito. Espreito. Não gosto do que leio. É espantoso que ela tenha escrito coisas destas, impossível perdoar a quem escreveu isto. Fecho o caderno, quase chocado. Que faço agora? Leio mais? Guardo no fundo de uma gaveta? Destruo? Faço como o Lowell, que citou nos poemas as cartas da sua ex [The Dolphin, 1973]? É a hipótese menos deontológica, a mais selvagem, e neste caso também a mais justa, felizmente não tinha os cadernos à mão quando fui enxovalhado em público. Mas o tempo da legítima defesa passou. Por isso arrumo-os e esqueço-me deles. Até que chegue, mais cedo que tarde, o dia da grande fogueira. E possam enfim arder os cadernos, ela e eu.

12/13/2010

Outro futuro



Eu nunca dei um passo atrás / Que não fosse capaz de um dia o emendar

In translation

«Vocês os dois ficaram lost in translation», dizem-me, não é uma alusão ao filme, mas podia, não sabem que ela tantas vezes confessou que sentia exactamente como aquela rapariga e desejava um segredo puro dito a um único ouvido, um segredo que não ouvíssemos, o tédio feliz e lasso das noites de Tóquio, nós a dormirmos na mesma cama sem nos tocarmos. «Lost in translation» porque não comunicamos na mesma língua, ela fala uma língua pragmática e exasperada, decidida e inquieta, eu uso uma língua idealista e seca, exaltante e hesitante, que nunca se encontram, nunca se equivalem, e eu penso à noite, talvez ela pense também, que vida seria essa, que vida teria sido a nossa, se alguma vez tivesse havido uma vida que fosse nossa? «Vocês os dois ficaram lost in translation», dizem-me, que resumo tão certo e triste.

A acção e a reacção















Oliver Platt na cama com Amanda Peet. Platt é grande, feio, gordo, cara rotunda e amarfanhada, nariz abatatado, boca de tolinho, cabelinho à foda-se. Peet é magrinha, bem feita, insinuante, covinhas numas maçãs do rosto alevantadas e olhos azuis pálidos que apartam oceanos bíblicos.

A intenção da cena é essencialmente moralista, mas o efeito é irrealista. Um desnível estético assim talvez aconteça ocasionalmente na «vida real», mas no cinema essa plausibilidade parece implausível, soa a falso. E a sala reage. Alguns espectadores, humanistas, acham a cena cómica. Outros, quase todos homens, acham repugnante. E o que é verdade ali não é a cena mas a reacção.

A troca

Hollywood adaptou «Baster», o conto de Jeffrey Eugenides sobre uma inseminação que corre mal. O próprio romancista resumiu o resultado dizendo que transformaram Darwin em Disney.

Eugenides estava interessado na falta de equivalência entre beleza e inteligência, e nas patéticas angústias que daí nascem. E denunciava o irremediável horror biologista em que vivemos, que a técnica apenas desoculta e facilita.

Por isso, a inseminação artificial trocada é em «Baster» deliberada; mas em The Switch é um acidente, em contexto cómico. Em «Baster» é o homem feio que impõe dolosamente o seu material genético à mulher que quer engravidar, mas em The Switch o homem é fisicamente normal e a troca de esperma quase desculpável.

Em vez de documentar a estratificação física da sociedade e a crueldade da nossa condição animal, Hollywood opta pela fantasia. Troca Darwin por Disney. Entretém.

A raiva das frases

«A raiva das frases secou-te o coração», disse a mãe de Flaubert ao filho. Terrível sentença vinda fosse de quem fosse, e mais ainda de uma mãe. «La rage des phrases» talvez seja o mesmo que «la rage de l'expression», cunhada no século seguinte por outro francês. Talvez a raiva intelectual de querer exprimir exactamente alguma coisa se confunda com a raiva emocional de a passar a escrito. Mas à mãe não interessa tanto a raiva das frases; o que ela lamenta é um coração que secou.

12/10/2010

José Matias











(...) O narrador não entende aquele caso, e nós também não. Filósofo pretensioso, ele tenta explicar José Matias recorrendo ao utilitarismo de Bentham e ao animalismo de Darwin, mas nenhum tratado erudito explica a «espantosa tortuosidade espiritual» de José Matias, que teve tudo à sua mercê, após dez anos de espera, e de tudo abdicou. E que ainda assim continua amante e torturado, e agora extravagante e boémio, de tão desesperado. Passam sete anos, anos de dissipação e continuada devoção: «(…) arrancou o corpo pesado à poltrona de verga, e forçou os passos mal firmes para a janela, a que abriu violentamente as cortinas, depois a vidraça... E ficou hirto, como colhido pelo silêncio e escuro sossego da noite estrelada. Eu espreitei, meu amigo! Na casa da Parreira duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas à macia aragem. E essa claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um roupão branco, parada à beira do terraço, como esquecido numa contemplação. (...) Ela, imóvel, repousava, mandando um doce olhar, talvez um sorriso, ao seu doce amigo. O miserável, fascinando, sem respirar, sorvia o encanto daquela visão benfazeja».(...)

[no Público de amanhã]

Esta noite
















O músico e produtor Armando Teixeira, que assina como Balla, apresenta na sexta-feira, no Lux, em Lisboa, o álbum «Equilíbrio».

«Equilíbrio», agora editado, é o quarto álbum do músico e produtor que integrou os Da Weasel, Boris Ex-Machina, Bizarra Locomotiva e assina ainda o alterego Bullet. Antes deste disco, Balla fez uma revisão da matéria, com «Resumo», que soma temas gravados entre 2000 e 2008.

O novo álbum é o que reúne mais participações, com os convidados Samuel Úria, Luís Varatojo e Liliana Correia, e há ainda um tema dos UHF que serve de base para «Montra». José Luís Peixoto, Miguel Esteves Cardoso e Pedro Mexia, que se estreia na escrita para música, entram no álbum com letras para quatro canções musicadas por Armando Teixeira.

«Equilíbrio» será apresentado na sexta-feira, às 22h, no Lux (Lisboa), com a participação de Samuel Úria e Liliana Correia.
[DN]

12/09/2010

Bittersweet strawberry



Bittersweet strawberry marshmallow butterscotch
Polarbear cashew dixieland phosphate chocolate
My tutti frutti special raspberry, leave it to me
Three grace scotch lassie cherry smash lemon free

(...)

Golden champagne juicy grapefruit lucky monday
High school football hot fudge buffalo tulip sundae
Almond caramel frappe pineapple rootbeer
Black and white pennyapple henry ford sweetheart maple te
a

É a letra mais original do ano: uma lista de batidos e gelados que John Grant comia quando era criança, e a que empresta agora um tocante poder verbal e evocativo.

Minas de sentimento

Eu não sou nem bom nem generoso como tu julgas. É um engano em que tu e mais alguns vivem. Eu sou simplesmente frio e não te digo que sou reservado porque não quero que penses que escondo em mim minas de sentimento.

[Césario Verde, carta ao Conde de Monsaraz]

12/08/2010

Famous last words













A minha Atlântida ficava em Shelton Street.

Defesa de J. Pinto Fernandes

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.


Em «Quadrilha», de Drummond de Andrade, há uma divertida sucessão de amores desencontrados, «não-correspondidos», como se diz, até que a cadeia se quebra quando aparece alguém que «não amava ninguém». Depois, o poema revela telegraficamente o desfecho de cada vida, finais pouco felizes, e alguns trágicos. Apropriadamente, a mulher que «não amava ninguém» foi a única que se casou. E casou com «J. Pinto Fernandes», cuja inicial lembra a designação de uma empresa, e nos inspira uma imediata antipatia, tanto mais que ele «não tinha entrado na história». Mas o J aponta provavelmente para um nome bastante comum, como José, sem nada de ridículo, certamente não tão ridículo como Raimundo. E se o senhor J. é «Pinto Fernandes», os outros devem ser certamente «Alves» e «Figueiredo» e assim. Gente banal com nomes banais. O poema sugere uma empatia para com todos os envolvidos, com excepção de J. Pinto Fernandes; mas acho que é possível, e até indispensável, defender uma conclusão diferente. Claro que João, Teresa, Raimundo, Maria e Joaquim, que amaram e não foram amados, merecem a nossa compaixão. Mas se o «não amava ninguém» de Lili também vale para o casamento dela com J. Pinto Fernandes, então eu diria que Lili é a única personagem negativa desta quadrilha. Quando a J. Pinto Fernandes, nada nos garante que seja mais duvidoso ou menos louvável do que Joaquim, Maria, Raimundo, Teresa e João. Além de que é provável que amasse Lili, que porventura não o amava a ele, o que dá a J. uma aura trágica que nos toca. O facto de não ter entrado na história não o desqualifica. Entrou certamente noutras histórias, na sua história, todas as histórias têm sempre gente nova a entrar. Não sei muita coisa sobre J. Pinto Fernandes, mas sei que já perdi duas mulheres para ele, e acho que ele as merece mais do que eu.

Arctic monkey

Nos últimos quatro anos, não têm conta as vezes que me já disseram que sou «frio». Curiosamente, nos trinta e quatro anos anteriores nunca ninguém me chamou «frio». É como se tivesse feito um transplante árctico.

A pergunta «por que não gosta da vida literária?»

José Gomes Ferreira escreve no seu diário que Carlos de Oliveira lhe disse que Fernando Namora contou que Álvaro Salema ficou furioso com Ferreira de Castro porque este pediu ajuda a Augusto de Castro.

12/07/2010

O arco e a ferida

Pessoas supostamente próximas dizem que estou endurecido, insensível, selvagem. Serei tudo isso, tornei-me tudo isso, mas sugiro que leiam os clássicos. Leiam o Filoctetes de Sófocles.

Filoctetes detesta os homens e a sociedade. E porquê? Porque foi abandonado numa ilha deserta pelos seus companheiros, aqueles em quem mais confiava, deixado a agonizar com uma mordedura de víbora que tornou um dos seus pés numa chaga infecta.

Assim que Filoctetes foi ferido, aqueles em quem confiava não quiseram saber mais dele, não lhe suportavam a presença, a visão, o cheiro, não aguentavam os seus lamentos lancinantes. Ele já não era útil. Foram-se embora, ele que morresse sozinho.

Não morreu. Viveu dez anos naquela ilha, sem ninguém, e sem maneira de regressar a casa, horrorizado com a deslealdade e sofrendo dores atrozes. Tornou-se endurecido, insensível, selvagem. Um farrapo humano.

É por isso que Filoctetes não quer saber do convívio com gente impiedosa. É inflexível, nunca mais quer nada com eles, «nunca, nunca», diz, nem que os deuses intercedam. O trauma justifica a insolência.

Vêm então uns quantos ter com ele, cobiçando o seu arco infalivel, que lhes dá jeito numa guerra longínqua. Mas são os mesmos que o rejeitaram por causa da sua ferida. Quem não quis a ferida, não terá o arco.

Na peça de Sófocles, um «deus ex machina» faz com que Filoctetes mude de ideias; mas o «deus ex machina» já não se usa, «nunca» é «nunca», deixem os selvagens serem selvagens à sua vontade, antes um farrapo humano do que um herói desumano. Vem nos clássicos.

O que é que queres?

(...) What was it you wanted
I ain’t keeping score
Are you the same person
That was here before?
Is it something important?
Maybe not
What was it you wanted?
Tell me again I forgot

Whatever you wanted
What could it be
Did somebody tell you
That you could get it from me
Is it something that comes natural
Is it easy to say
Why do you want it
Who are you anyway?

(...)

Where were you when it started
Do you want it for free
What was it you wanted
Are you talking to me?




[Bob Dylan, «What Was It You Wanted», álbum Oh Mercy, 1989, aqui numa versão alternativa]

12/05/2010

E no entanto esta não é a última palavra

Em Londres, no hotel, ligo a televisão antes de dormir e, nem de propósito, está a dar em repetição o último episódio de Brideshead Revisited (1981), o meu preferido.

Revejo aquela cena que, segundo alguns críticos, impede o romance de Waugh de ser uma obra-prima, a pouco subtil mas delicada extrema-unção de Lord Marchmain, e aquele gesto trôpego com que ele faz o sinal da cruz. E não nego que a cena me toca, tal como me toca o momento em que Julia vem dizer a Charles que está tudo acabado, e ele, sentado nas escadas, diz que já sabia, num momento de incrível desolação, aceitação e raiva.

Mas o que eu gosto mesmo, mais que tudo, é o epílogo. Passaram uns anos, estamos em plena guerra mundial, e Brideshead é usado como aquartelamento. Charles Ryder, agora capitão de infantaria, vai dar uma volta pela mansão onde foi tão feliz e infeliz. Entra na capela. E na capela, intacta, encontra uma lâmpada a arder ainda junto ao sacrário. Pronuncia uma velha oração meio esquecida, e sai, pensativo e melancólico.

Pensa agora no destino de todas as coisas criadas. Os construtores construíram aquela casa com pedras vindas do antigo castelo, e não sabiam que uso iriam dar à casa as gerações futuras. As gerações seguintes foram aumentando a casa, e em volta as árvores foram crescendo. Até que chegou o tempo da decadência e da extinção. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

«E no entanto, [cito de memória] esta não é a última palavra; nem sequer é uma palavra adequada; é uma palavra morta de há anos atrás». Pois do trabalho dos construtores nasceu afinal alguma coisa, uma coisa nova no meio daquela tragédia humana. Aquela pequena chama numa deplorável lâmpada de cobre ainda arde no tabernáculo. É a velha chama dos antigos cavaleiros, que arde agora para outros soldados, numa nova luta.

Essa lâmpada «só podia ter sido acendida pelos construtores e pelos grandes trágicos», diz Charles Ryder, «e aí a encontrei esta manhã, ardendo de novo entre velhas pedras».

38

Trente-huit ans.
Isolé comme un sourd.
Je regarde ma vie.
Elle m’apparaît à plat.


[Pascal Jardin, Guerre après guerre, 1973]

And some may say

12/04/2010

My favourite things

Nas minhas novas estantes e gavetas, vou guardando o teu espólio, a carta já tão manuseada, os postais de museus, os livros em espanhol, e também o teu cheiro, o teu casaco verde, o jeito lasso de atenderes o telefone, e os olhos brilhando à espera que eu diga alguma coisa desajeitada. E custa chamar a isto arquivo morto.

12/03/2010

A repetição

















Kierkegaard conhece Regine Olsen em casa de amigos em 1837, tinha ela 14 anos, pede-a em casamento em 1840, e rompe o noivado no ano seguinte. Era um acto socialmente grave mas inevitável, que a levou ao desespero. Kierkegaard nunca deixou de amar Regine, mas não podia casar com ela, pois o casamento não era a sua vocação.

Para que Regine pudesse continuar a sua vida em paz, sem ficar destroçada, tentou durante algum tempo convencê-la de que era um leviano que a tinha enganado. É daí que nascem «Diário de um Sedutor» e «Gjentagelsen» / «A Repetição», ambos publicados em 1843. Filósofo e teólogo, Kierkegaard tornava-se agora uma espécie de poeta.

«A Repetição» [trad. port.de José Miranda Justo, Relógio D’Água] é um livro breve escrito em Berlim na Primavera de 1843. Chegou às livrarias a 16 de Outubro, no mesmo dia que o genial «Temor e Tremor». É assinado com o pseudónimo Constantin Constantius. O uso de pseudónimos, que se tornará recorrente, marca o início da vida de Kierkegaard como escritor. Um escritor da ruptura e da justificação, tão brilhante e autobiográfico como o «Adolphe» (1806) de outro Constantius: Benjamin Constant.

Embora curto, é um livro complexo, compósito, que inclui cartas, comentários às cartas, trechos narrativos e ensaios. Kierkegaard diz que o livrinho será lido por poucos e entendido por ninguém. E cita em seu abono Clemente de Alexandria, que escrevia textos herméticos para que os heréticos não o compreendessem, mas apenas os crentes. «A Repetição» também não se destina aos heréticos, esses «vigorosos defensores da realidade», mas aos que acreditam. Aos crentes na melancolia.

A Repetição conta a história de um rapaz, nunca nomeado, que se apaixona perdidamente por uma rapariga, e faz de Constantin Constantius seu confidente. O rapaz, tal como Kierkegaard, ama realmente a rapariga, mas é consumido pela melancolia. Constantin comenta: «Muito frequentemente as pessoas insistem em que um melancólico devia apaixonar-se e então a melancolia desapareceria completamente. Ora, se se trata realmente de um melancólico, como haveria de ser possível que a sua alma não se ocupasse melancolicamente daquilo que para ele se tornou a mais importante de todas as coisas?» (...)


[no Público de amanhã]

In pitch dark I go walking in your landscape

12/02/2010

Persona

David Thomson escreveu que «ninguém devia poder representar profissionalmente sem ter visto Persona» [1966].É de facto uma das mais belas peças modernas, embora seja na verdade um guião de cinema. E que cinema: o encontro glorioso de Strindberg e Nikvist, A Mais Forte em grandes planos ontológicos.

Elisabet Vogler, uma actriz, emudeceu a meio de um espectáculo, e é tratada em casa pela enfermeira Alma, uma rapariga dedicada, despachada, sensata. Elisabet não dirá nada o tempo todo, só murmura uma palavra («nada») e grita outra («não»). Então é Alma quem vai falando, e expondo a sua intimidade até níveis perigosos.

Elisabet está farta de representar papéis, em palco e na vida, cansou-se do vampirismo que é a representação em público, e quer interromper o jogo da verdade e da mentira («isso só importa no teatro, e talvez nem aí», comenta a sua médica).

Mas o seu silêncio é apenas mais um papel, que vai manter até se cansar dele. Enquanto isso, naquela casa de verão, Elisabet faz de Alma o seu objecto de estudo. Cria-se entre elas uma relação insalubre e insustentável, perversa e sádica mas também erótica e simbiótica, a certa altura já nem sabemos quem é quem, onde está a realidade e a fantasia. O jogo é entre o silêncio de Elisabet e a logomaquia de Alma, e isso talvez seja terapêutico para a actriz, mas é destrutivo para a enfermeira.

João Canijo levou Persona ao palco, fazendo as suas actrizes representar em frente a um ecrã onde é projectado o filme de Bergman. E para o público, todas as possibilidades se vão sucedendo, da cópia à homenagem, umas vezes seguimos o ecrã e outras o palco, às vezes há desfasamentos, outros parece que as actrizes estão a fazer uma dobragem em português do filme sueco. Katrin Kaasa, tão nórdica como Bibi Andersson, fala durante noventa minutos, e à nossa vista altera-se, desgasta-se, desfaz-se. Teresa Tavares, menos árctica e mais carnal que Liv Ullmann, dá espaço à outra rapariga e ao seu discurso, e enquanto isso olha para ela com paternalismo, crueldade, doçura e medo.

Ninguém devia poder representar sem ver Persona. Nem que seja em palco.

12/01/2010

Pele sofisticada e ossos ingénuos

Procuro uma frase, um mote, nesta instabilidade toda, e encontro-a de imediato em Bellow: «I have sophisticated skin and naïve bones».

Ainda não se desfez

Um ano depois

Há um ano, escrevi aqui sobre o apostole Tomé, e o facto de ele nunca ter tocado em Jesus ressuscitado: «Por causa de Caravaggio e de outros artistas, julgamos que Tomé só acreditou quando tocou Jesus. É falso. Tomé acreditou na palavra. Não é isso que se pede a quem confia?». Uma semana depois, escrevi também, em tom bem menos bíblico: «Ninguém troca o bem que tem pelo bem que imagina». Passou um ano, mas é como se tivesse passado um dia.