1/07/2011

O cinema em 1878












O telefone foi inventado em 1876, o fonógrafo em 1877 e o cinema em 1878. Bem, esta última data não é exacta, embora não seja totalmente falsa. De facto, foi em 1878, num rancho de Palo Alto, Califórnia, que o fotógrafo inglês Eadweard Muybridge fotografou cavalos a trote e a galope usando doze câmaras dispostas lado a lado, e activadas quer por fios que os cavalos rompiam na passada quer por dispositivos eléctricos. Era um exercício de “motion pictures” que implicava uma série de operações logísticas e novidades químicas, destinadas a multiplicar o número de imagens e a acelerar o processo de revelação. Mas tudo correu bem. Ao captar imagens num milésimo de segundo, uma velocidade que o olho humano não detecta, Muybridge conseguiu esclarecer dúvidas antigas sobre o movimento, incluindo aquela pergunta clássica sobre se um cavalo estava alguma vez com as quatro patas levantadas ao mesmo tempo. Depois, juntou as fotografias por ordem, eliminou elementos inúteis, pintou silhuetas por cima das fotos e projectou-as com uma lanterna mágica e um “zoopraxiscópio”. Foi com esta máquina nova, que exibia o movimento de animais e pessoas, que Muybridge fez uma digressão triunfante pela América e pela Europa, quase vinte anos antes da famosa sessão dos Lumière.

(...) A exposição da Tate (comprem o catálogo se puderem) mostra que Eadweard Muybridge foi muito mais do que um pioneiro do cinema. Foi um dos cronistas da América como potência emergente. E um homem que continuamente ampliou as possibilidades do meio, em termos de profundidade, velocidade e continuidade. Quando Leland Stanford o contratou, queria ter alguma certeza sobre o movimento dos seus cavalos através de “uma máquina que não mente”. A “verdade” estaria naquela tecnologia, que capta aquilo que o olho humano não consegue. Por isso Muybridge usou muitas vezes fotografias simultâneas do mesmo corpo em vários ângulos, método que oferecia um panorama do corpo humano. Uma verdade sobre a sua fisiologia e o seu movimento. Pela mesma razão, gostava de fotografar a água a ser atirada ao ar, falsamente suspensa no micro-segundo da fotografia, uma interrupção puramente estética das leis da física, que aliás seguiam, intocadas, na realidade. E logo nessa altura um jornal chamou a atenção para um terrível paradoxo: se a “verdade” depende da tecnologia, será ainda uma verdade humana?

Ninguém é mais actual que o grande Muybridge.


[no Público de amanhã]