1/18/2011

O mito masculino

Nos meios da burguesia média-alta, muitas mulheres pensam «como homens», ou antes, pensam de acordo com os padrões actuais da «masculinidade». Claro que o masculino não se esgota numas quantas características epocais de «masculinidade»; mas é inegável que algumas dessas facetas se tornaram culturalmente hegemónicas. E é nesse contexto que muitas mulheres mostram uma surpreendente empatia com a ideia de «masculinidade», ao mesmo tempo que desprezam ostensivamente as mulheres a quem atribuem características «femininas».

O psicanalista Arno Gruen escreveu: «A adopção do mito masculino pela mulher é um acto de auto-traição. A fé na supremacia masculina nega o carinho materno como base da auto-estima. Por isso, não surpreende que a auto-estima de muitas mulheres, na nossa cultura, se baseie em qualidades “masculinas” (…)».

Gruen não faz o elogio de uma «feminilidade» biologista; apenas alerta para o perigo de trocarmos a autonomia pelo culto do poder. Sobretudo quando o «poder» é automaticamente identificado com o «masculino». E com um «masculino» grotescamente darwiniano.

O que Gruen lembra é que a «masculinidade» se tornou o «único fundamento da auto-estima», tanto masculina como feminina. E que esse fundamento é, para todos, uma fraude e uma traição.

[A Loucura da Normalidade (1987), edição portuguesa Assírio & Alvim]