1/30/2011

Valores

Imbuídos de humanismo cristão ou laico, podemos dizer que «as pessoas não têm um valor», que valem em si mesmas, na sua igual e infungível dignidade. Eu também acredito nisso em termos antropológicos, ontológicos e tal. E no entanto.

E no entanto, é claro que nos é atribuído um valor. O qual varia supostamente em função dos nossos talentos ou competências. Somos recompensados segundo o valor profissional, social e sexual que os outros nos outorgam. Que muitas vezes nem é um valor de uso mas um valor de troca, um valor de status, de fetiche. Marx escreveu páginas sobre o estatuto da «mercadoria» que não foram ainda ultrapassadas. E nós, em sociedade, somos uma mercadoria, porque todas as relações sociais produzem um valor, um lucro, uma mais-valia [há um belo desenho pornográfico de Klossowski chamado La récupération de la plus-value].

O «valor» que nos é atribuído não tem uma verdade intrínseca. Em geral é um valor «bolsista», mutável, feito de expectativas, acessos ou quebras de confiança, de necessidades momentâneas, tendências da estação, reposição de stocks.

A atribuição de valor (uma experiência que aprendemos na adolescência) é muito espalhafatosa e pode ser muito marcante, mas é um equívoco. Pobre de quem se convence de que vale muito ou pouco. Pobre de quem se julga de acordo com o que vale.