2/25/2011

Isso exige um cuidado especial



Imaginem um jornal inteiramente escrito por uma pessoa. Foi isso que aconteceu com Die Fackel («o facho», ou, um termo menos equívoco, «a tocha») a partir de 1911, faz agora um século. Die Fackel existia há mais de uma década quando o seu director, Karl Kraus, dispensou toda a gente e se tornou redactor único, cargo que manteria até à morte, em 1936. Deixou trinta mil páginas de jornal, provavelmente a melhor crónica de uma época a que já chamaram o «apocalipse alegre».

Há nele bastante menos «alegria» do que «apocalipse». Nascido em 1874, na Boémia, Kraus cresceu em Viena, onde estudou direito e filosofia. Começou a frequentar os cafés e os jornais, e com vinte e poucos anos escreveu um panfleto no qual arrasava os autores austríacos do seu tempo. Mas a verdadeira embirração de Kraus era o jornalismo. «O que a sífilis poupou será devastado pela imprensa», decretou. Ele lia os jornais todos, que eram muitos, vivia mergulhado em jornais, não porque acreditasse neles mas porque via no jornalismo o mais agudo sintoma de uma cultura degenerada. Para Kraus, os jornais não relatavam acontecimentos: eram, em si mesmos, o acontecimento. Por isso, quando queria provar um argumento recorria a citações.

(....) Kraus não concordava nem com quem concordava com ele, e não fugia à misantropia: «Divido as pessoas que não cumprimento em quatro grupos. Há aquelas que não cumprimento para não me comprometer. Esse é o caso mais simples. Há aquelas que não cumprimento para não as comprometer. Isso já exige uma certa atenção. Mas então há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto a elas. Com essas é ainda mais difícil de lidar. E por fim há aquelas que não cumprimento para não me prejudicar junto a mim mesmo. Isso exige um cuidado especial». (...)

[a partir de amanhã, no Expresso, todas as semanas e «de acordo com a antiga ortografia»]