Uma vingança imaginária
Tinha dificuldades com «Unhappy Birthday». Talvez por vir a seguir a «Last Night I Dreamt». Aquela amargura cínica parecia-me um pouco chocante depois de uma desilusão sublime. Ninguém deseja a ninguém um aniversário infeliz. Ninguém diz que fica um bocadinho triste se a outra pessoa morrer, mas só um bocadinho. Que comportamento tão detestável desejar mal a alguém que nos deixou. «From the one you left behind» era a justificação, que eu achava injustificável.
Mas claro que esse «from the one you left behind», repetido com evidente gosto, não é uma causa, é apenas uma condição, e uma assinatura. A causa é «’cause you’re evil / and you lie». Não é a mesma coisa. Nem toda a gente que nos deixa é má e mente. Pessoalmente, estimo mais as pessoas que me deixam do que as que ficam comigo. Mas a maldade e a mentira mudam tudo.
Terceiros dizem ao narrador que ele se deve sentir feliz, pois «loved and lost» é melhor que nada. Mas não é o «loved and lost» que conta, é o «evil» e o «lie». Que o deixem, mas não assim, através da crueldade e da reserva mental.
É por isso que o narrador diz «I've come to wish you an unhappy birthday». Ele deseja à outra pessoa a infelicidade, o envelhecimento, a solidã. A maldade tornou o narrador numa criatura malvada.
Mas é curiosa a ilusão final, a ilusão de que a outra pessoa se preocupa com aquilo que nos acontece, com as nossas ameaças, com o nosso masoquismo, com o nosso destino. O narrador, que é um homem inteligente, tem forçosamente de saber que a outra pessoa se está nas tintas. Mas ele precisa de fazer o luto daquela relação através de uma vingança, nem que seja uma vingança imaginária.
A sua vingança é uma construção verbal, a que a outra pessoa é totalmente indiferente, mas que o narrador imagina como um rude golpe no outro. Por isso no final repete, quase alegre, o «from the one you left behind», e esse seu estatuto é todo o gozo desta desforra imaginária.

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