Norwegian Wood
O que o vietnamita Tran Anh Hung faz com o romance de Murakami (que não li) é portentoso: segue um triângulo amoroso adolescente eliminando quase por completo o mundo à volta daqueles três. A contestação política, a vida social, é tudo um ruído de fundo, tanto quanto o próprio mundo físico, que é desfocado, silenciado, posto fora de campo, boicotado. O erotismo em Norwegian Wood é sôfrego mas também delicado e minucioso, e a paixão existe de forma tão desmesurada porque supõe à partida a ideia de perda. Tran Anh Hung filma o amor sem contexto, sem ironia, sem cinismo, não me lembro de outro filme que o tenha feito, talvez desde Bresson. E depois, é verdade que me identifico-bastante com aquele desnorte tímido do rapaz, Toru, que tenta ser uma boa pessoa mas que percebe que isso não chega; com a seriedade tresloucada de Naoko, tão depressa carinhosa e carnal como frígida e demente; e ainda com aquela Midori [a actriz Kiko Mizuhara] que se parece tanto com uma rapariga que eu conheci, forte, frágil, fútil, dissimulada, encantadora, brutal. Até a canção dos Beatles bate certo: She asked me to stay and she told me to sit anywhere, / So I looked around and I noticed there wasn't a chair.


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