State of Britain (3)
Ontem, um dos comentadores convidados pela BBC, o historiador Simon Schama, lembrou que a «solenidade» existe «para o povo». Parece uma contradição. O «povo» supostamente detesta a solenidade, a princesa Diana tornou-se popular em grande parte porque representava a «informalidade» e a «sinceridade», contra a «solenidade» e a «reserva» dos costumes reais. Acontece que a «solenidade» está muitas vezes ao serviço de uma «distância» que tem ainda importância simbólica. Uma das figuras mais populares dos últimos anos, Obama, não podia estar mais distante da imagem que temos do «americano médio».
O casamento de William e Kate, ou de Guilherme e Catarina, como talvez se deva dizer agora, foi um evento social mas também um assunto de Estado. Carlos, que a todos parece uma caricatura de príncipe, apostou tudo num amor que ninguém compreende, e muitos esperam que abdique em favor do filho mais velho. Ontem, da cerimónia na Abadia de Westminster à aparição na varanda de Buckingham, do cortejo pelas ruas às multidões festivas em Hyde Park, assistimos na prática ao casamento de um rei, talvez o próximo rei inglês.
A cerimónia teve a pompa e a circunstância de uma monarquia ancestral, mais o toque «humano» dado pela óbvia simpatia de que gozam os noivos. William, menos atraente do que já foi, e cada vez mais parecido com o pai, às vezes sério, outras vezes quase alheado, outras ainda sorridente; Kate com uma cintura impossível, atenta e feliz, uma princesa «do povo», ou seja, sem «sangue azul», mas que, ao que tudo indica, conjuga a experiência de vida de uma burguesa educada e uma noção realista das funções que vai desempenhar. É mais «povo» do que Diana, e não cultiva as ilusões de Diana.
Kate e William parecem preparados para serem monarcas modernos. A monarquia é em muitos aspectos uma instituição arcaica, vinda de uma época aristocrática, com valores e códigos totalmente diferentes dos nossos. Mas tem sido um regime consentido e quase incontestado em muitas das nações mais ricas e «progressistas», como os países nórdicos. A monarquia, que reina mas não governa, mantém ainda algum prestígio simbólico e «representativo», ou «patriótico», que assegura, por enquanto, a sua sobrevivência. Há quem proteste, faça troca, se enfade, mas a atitude geral dos ingleses face a Kate e William corresponde àquilo que Schama chamou uma surpreendente «suspensão do cinismo».
[no Expresso]
O casamento de William e Kate, ou de Guilherme e Catarina, como talvez se deva dizer agora, foi um evento social mas também um assunto de Estado. Carlos, que a todos parece uma caricatura de príncipe, apostou tudo num amor que ninguém compreende, e muitos esperam que abdique em favor do filho mais velho. Ontem, da cerimónia na Abadia de Westminster à aparição na varanda de Buckingham, do cortejo pelas ruas às multidões festivas em Hyde Park, assistimos na prática ao casamento de um rei, talvez o próximo rei inglês.
A cerimónia teve a pompa e a circunstância de uma monarquia ancestral, mais o toque «humano» dado pela óbvia simpatia de que gozam os noivos. William, menos atraente do que já foi, e cada vez mais parecido com o pai, às vezes sério, outras vezes quase alheado, outras ainda sorridente; Kate com uma cintura impossível, atenta e feliz, uma princesa «do povo», ou seja, sem «sangue azul», mas que, ao que tudo indica, conjuga a experiência de vida de uma burguesa educada e uma noção realista das funções que vai desempenhar. É mais «povo» do que Diana, e não cultiva as ilusões de Diana.
Kate e William parecem preparados para serem monarcas modernos. A monarquia é em muitos aspectos uma instituição arcaica, vinda de uma época aristocrática, com valores e códigos totalmente diferentes dos nossos. Mas tem sido um regime consentido e quase incontestado em muitas das nações mais ricas e «progressistas», como os países nórdicos. A monarquia, que reina mas não governa, mantém ainda algum prestígio simbólico e «representativo», ou «patriótico», que assegura, por enquanto, a sua sobrevivência. Há quem proteste, faça troca, se enfade, mas a atitude geral dos ingleses face a Kate e William corresponde àquilo que Schama chamou uma surpreendente «suspensão do cinismo».
[no Expresso]

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