Summer and Smoke
Summer and Smoke (1948) começa como um Tennessee Williams vintage. Estamos numa daquelas cidadezinhas sulistas abrasadoras, ignorantes, opressivas. Os protagonistas são um jovem médico materialista e hedonista e uma filha de pastor muito puritana e afectada. Gostam um do outro, mas têm concepções de «amor» opostas; para ele, o amor é natural como uma lição de anatomia, para ela é majestoso e inefável como uma catedral gótica. Ele acredita na carne, ela em «laços espirituais». Tudo isto em registo um pouco caricatural mas bastante verosímil, e com aquela efeverscência poética típica de TW.
Não acontece nada entre ele e ela no primeiro acto. Ele vai-se embora da cidade, casa-se, e ela cai de cama, deprimida. Quando se reencontram, no verão seguinte, ela mudou completamente de ideias. Aquela rapariga que dizia «não» morreu há um ano, sufocada pelo fumo de algo que ardia dentro dela.
Só que ele também mudou bastante, e as posições invertem-se, cruelmente. Agora que ela é sensual, ele tornou-se espiritual; agora que ela é máquina, ele é fumo; agora que ela é fogo, ele é gelo.
Por isso, a ele só lhe resta a mitificação de um amor «impossível», e ela não tem outra remédio senão «cair verticalmente no vício». Cada um teve razão fora de tempo, e quando se despedem são já dois destroços.


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