Ernesto Sabato 1911-2011
Ernesto Sabato andou pelo comunismo e o humanismo existencialista e acabou numa espécie de «anarquismo cristão». Dos escritores novecentistas «comprometidos», sempre me pareceu um dos mais basicamente decentes, na linha de Camus, que o admirava. Nunca más (1984), o detalhado relatório que Sabato coordenou, descreve as violações dos direitos humanos durante a ditadura argentina, e as passagens que li, há muitos anos, nunca mais me permitiram conviver com a desculpabilização «tacticista» das ditaduras.
Li, de forma descontínua, dois dos três romances de Sabato, e, com grande entusiasmo, três colectâneas ensaísticas: Hombres y engranajes (1951), Heterodoxia (1953) e Apologias y rechazos (1979). Nessas meditações e anotações, encontrei sempre um homem inquieto, insatisfeito, angustiado, tão diferente do típico intelectual sul-americano, que geralmente se encosta a um «ideal» e se mantém imune aos factos.
Sabato começou como cientista, mas abandonou a ciência porque lhe parecia uma actividade insuficientemente ética, demasiado neutra. Os textos ensaísticos de Sabato são tudo menos eticamente neutros, mas gosto deles porque nunca se tornam justificativos, eufemísticos, ínvios, perversos. Talvez a inquietude de Sabato me tenha tocado porque existe nela uma estranha vitalidade, algo que um jornal argentino definiu como «a força vital do pessimismo».


<< Página inicial