Ainda está à minha espera
Quando passámos pelos lados do Lumiar, o taxista indicou vagamente um prédio ou um quarteirão e disse: «Aqui vive uma rapariga que ainda está à minha espera». Olhei para o taxista. De lado parecia ter cinquenta e poucos, ao espelho aparentava cinquenta e muitos. Percebi que ele queria contar a história. «Ainda está à sua espera?», perguntei. Explicou-me que tinham namorado há uns anos, muitos anos, e depois ele foi-se embora, teve que ir, não entendi bem se emigrou ou se esteve no exército, o certo é que quando voltou a Lisboa já vinha casado, ou junto, mas de qualquer modo essa relação não funcionou e agora ele está desimpedido. Embora não tenha retomado o contacto com a rapariga, rapariga agora cinquentona, chegou-lhe notícia de que ela nunca se tinha casado, e de que ainda estava à espera dele. Arrisquei o óbvio: «Ainda gosta dela?». Ele não quis responder. Começou a dizer que ela guardava dele uma imagem falsa. E não se tratava de nenhum equívoco de natureza romântica: «Ela pensa que eu tenho dinheiro, mas eu perdi o dinheiro todo, agora não tenho dinheiro nenhum». Tentei argumentar que ela não esperaria décadas só por causa do dinheiro dele. E talvez o que eu disse fosse verdade, porque ele nem me deixou terminar a frase, atalhou logo, que não dava, que era demasiado tarde, que era impossível. E no entanto voltou a comentar alto «ela ainda está à minha espera», como se não levasse passageiros, como se as suas próprias desculpas fossem insuficientes para apagar o risco de uma vida alternativa.

<< Página inicial