6/10/2011

O século dezanove através dos tempos

Gostava de ter vivido no século XIX, digo. E logo uns desatam num arraial de risada, e outros argumentam com os avanços da tecnologia ou da higiene. Mas eu não pretendo fazer género, muito menos negar as evidências do progresso. E nem sequer creio que a espécie humana em 1811 fosse diferente da espécie humana em 2011. Sucede que em «1811» (digamos assim) encontro algumas crenças e códigos de conduta nos quais me reconheço. Não posso ter a experiência directa de 1811, mas é comum encontrar textos e testemunhos desse século que me dizem bastante mais do que o discurso actual. Há nos oitocentistas que eu leio uma seriedade fundamental na maneira de encarar a existência. A espécie era igual, em 1811, mas talvez as pessoas, certas pessoas, não se comportassem com tanto cinismo e sarcasmo. O «desencantamento do mundo» tem sido demasiado agreste, e desembocou numa cultura competitiva, lúdica e amarga, com pouca capacidade de entusiasmo, gentileza e risco. Daí que prefira a companhia dos oitocentistas, meus contemporâneos.