6/20/2011

Pedro Hestnes 1962-2011














Pedro Hestnes é para mim sinónimo de cinema português, o cinema português que vi entre o final do liceu e o fim da faculdade, os filmes de Botelho, Canijo, Costa, Villaverde (e Mozos uns anos depois), cinema da geração anterior à minha ou já quase da minha e no qual eu tentava descobrir o país em que vivia, e a possibilidade de haver um cinema nesse país, e a possibilidade de haver um país. Em muitos desses filmes estava Pedro Hestnes, magro, esquivo, tristonho, balbuciante, devotado, calado, perdido, intenso. Tinha e tenho, como tantos de nós, um problema com o cinema português, e o problema faz parte dessa relação, já não a imagino sem ele, mas Pedro Hestnes não fazia parte desse problema, era pelo contrário a possibilidade de aquele cinema a que eu resistia ter um rosto com quem empatizava de imediato. O negrume de Tempos Difíceis ou O Sangue era-me sempre um pouco alheio, feito de referências que não eram as minhas, de mundividências opostas à minha, às vezes de ruas onde nunca tinha ido ou de vidas que não conhecia. Mas com Pedro Hestnes eu sentia-me representado nesses filmes, entrava nesses filmes através dele, não porque eu me parecesse nalguma coisa com ele, ou ele comigo, nada de nada, mas por causa daquele abandono comunicante que ele transmitia, geralmente com poucas palavras e poucos gestos, como se houvesse nele uma verdade secreta mas transmissível, algo que nos tocava a nós, da sua idade ou pouco mais novos, um modo de ser que era «português», o que quer que isso seja, mas que era também daquele tempo, de 1988 a 1994, os meus anos do fim do liceu e da faculdade, anos em que tentava descobrir-me de algum modo através do cinema, e também do cinema português, e também do meu fecundo problema com esse cinema. Foi sempre ele, o Pedro Hestnes, de quem nunca fui amigo ou conhecido, a quem apertei a mão uma vez, há três anos, e nem o reconhecia se não mo tivessem apresentado, tão mudado estava, foi ele quem me permitiu ver o cinema português, é essa a palavra, vê-lo como coisa minha, embora distante, coisa de família, dor mansa, quase vegetal. Penso no rapaz do Agosto de Jorge Silva Melo, um rapaz português de outra década mas inteiramente da nossa, das nossas, adolescente, atrevido, ingénuo, terno, perverso, um cão batido de quem eu gostei como de nenhum outro dos nossos actores, dos actores quase da nossa idade, dos actores quase nossos amigos, raparigas e rapazes tristes do nosso tempo e do nosso cinema e do nosso problema.