Só mais uma coisa
Não faltam, na galeria dos detectives ficcionais, personagens desajeitadas ou antipáticas, que fazem da busca da verdade um percurso divertido ou desagradável. O inspector Columbo tem lugar de destaque nesse panteão. Não era antipático, pelo contrário, era cortês e afável, embora aparentemente distraído, quase ausente. Mas era terrivelmente desajeitado, amarrotado, mal pronto, cheio de tiques físicos e verbais, o olho de vidro franzido, um discurso coloquial e às vezes confuso, gestos frenéticos a procurar fósforos, charuto apagado na boca e, claro, aquela famosa gabardina, que ele parecia usar vinte e quatro horas por dia, trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Como acontecia com os seus antecessores detectives, o exotismo funcionava como uma manobra de diversão, porque depois ele descobria a verdade através de pequenos detalhes nos quais ninguém tinha reparado, «just one more thing», «só mais uma coisa», perguntava, e o caso estava resolvido. Columbo, cujas primeiras temporadas (1971-1978) vi quando era miúdo, fez-me descobrir Peter Falk (1927-2011), actor invulgar, ao mesmo tempo metódico e genuíno. Havia alguma coisa de incomodativo no seu comportamento, que nunca me pareceu simplesmente patusco ou cómico, mas também imprevisível, secreto, quase dorido, talvez explosivo. Cassavetes tratou de nos mostrar esse outro lado.


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