The artist has run out of pain
Ouvi mal a letra, aconteceu-me tantas vezes, «the artist has run out of pain», grande verso, claro que depois percebi que não era assim, era «the artist has run out of paint», faz mais sentido mas não é tão bom, falta de tinta é um percalço mas falta de sofrimento é outra coisa, não sei se bênção ou maldição, afinal o «artista», aquele que se julga artista, precisa do sofrimento, sem o sofrimento por que razão havia de perder tempo com coisas criadas, artefactos, tentativas? Mas às vezes acontece, esgota-se o sofrimento, não talvez o sofrimento em si, alojado algures em neurónios de que nem suspeito, mas a capacidade de fazer do sofrimento o nosso contra-campo, a nossa contracena, a nossa conversa. Estou cansado, tenho mais do que idade para estar cansado, esgotou-se-me o sofrimento como ao outro a tinta, não o matei mas dispensei-o, jubilei-o, exilei-o, dei-lhe folga, pedi-lhe que metesse férias, mandei-o ver se chovia. O sofrimento, a certa altura, é como um comediante que anda nisto há décadas. Perdeu a graça, caiu em desgraça, graças a quem devo dar graças, se é que há algo ou alguém, nalgum átomo de que nem suspeito.

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