7/05/2011

Cara ilusão

Descubro nas Complete Stories de Kigsley Amis um conto agudíssimo chamado «Dear Illusion». O protagonista é Edward Arthur Potter, um poeta consagrado mas pouco lido que vive em reclusão, na província. À jornalista que o vai entrevistar ele mostra-se bem consciente dos equívocos a que chamamos «consagração», «modernidade», «esquecimento» e «sucesso». Em resumo: Potter duvida da qualidade dos seus poemas. E isso não é uma angústia banal. Há quarenta anos, ele abdicou da vida por causa da poesia, sentia uma necessidade absoluta de escrever e de esquecer tudo o mais, só a poesia dava algum sentido à vida, ainda que fosse um sentido precário e amargo: «It’s a bad bargain even if the poems are good. Whatever that may mean. From my point of view, nothing at all could compensate for getting on for forty years of feeling bad with a couple of days of not feeling so bad and ten minutes of feeling all right thrown in about once a month». Potter trabalhou nos seus poemas anos e anos, enquanto as outras pessoas, as pessoas normais, faziam coisas reais e concretas. Mas se a sua poesia não presta, então a sua existência é um logro.

Inquieto com o que confessou na entrevista, Potter decide testar as suas suspeitas de uma vez por todas. Assim, uns tempos depois, anuncia à imprensa que escreveu uma nova colectânea, com a qual dá por terminada a sua produção poética. O livro é publicado e recebe elogios quase unânimes. Mas Potter revela que escreveu todos esses poemas num único dia, de jacto, sem revisão nem trabalho algum, e com resultados catastróficos. O livro foi aclamado porque as pessoas acham ou imaginam que ele é um «bom poeta», mesmo quando os poemas são maus, e se forem maus não faz diferença nenhuma. O bom poeta, percebe Potter, é aquele que escreve maus poemas e continua a ser considerado um bom poeta.

Para Edward Arthur Porter, o sucesso daqueles maus poemas é a prova de que precisava, a confirmação de que viveu em vão, e de que toda a ilusão se desfaz.