7/06/2011

A inscrição da nostalgia


















Não sou grande adepto da pintura enquanto simples inscrição. Detesto Miró, por exemplo, que acho mais paleontologia do que arte. Porém, gosto de Cy Twombly (1928-2011), cujas telas são tantas vezes inscrições, manchas, rasuras. Geralmente comparavam o que ele fazia ao grafito, mas Twombly explicou que preferia a nostalgia ao protesto. Uma nostalgia construída com base em alusões clássicas e exultações cromáticas. Alguns desses signos herméticos supõem um certo infantilismo ou primitivismo; mas é um primitivismo mergulhado em memória histórica, um primitivismo mediterrânico, mito-poético; e o infantilismo parece genuinamente visceral, é a caligrafia ou a pincelada enquanto gesto e experiência (como em Pollock). A pintura de Cy Twombly tende para o abstracto mas mantém vestígios do concreto, não ilustra, não refere, e no entanto tem quase sempre pontos de referência, geográficos ou literários, é desse referente que o artista parte, juntando imagens e textos, ou fragmentos de textos e hipóteses de imagens, chega a um sentido mesmo sem transmitir directamente o sentido.