Os meus nazis
Às vezes penso que se deviam conhecer ou ter conhecido, iam dar-se bem. De todo o mal, este mal foi o único importante, o único que me assombra, que não se desfaz. Um amigo, aos vinte, e uma mulher que amei, aos trinta e poucos. Se se conhecessem, iam dar-se bem. São, cada um a sua maneira, nietzschianos, ambos têm ou tinham um total desprezo pelos fracos, apesar da educação católica. Talvez não houvesse neles uma intenção malévola, eram simplesmente incapazes de não tratar com impiedade alguém que sabiam fraco ou fragilizado. Não eram maus, era apenas a sua natureza, como diz o escorpião quando ferra o sapo. Inteligentes, ambiciosos, cínicos, infelizes, gostavam da competição, da arrogância, da agressão. Em ambos os casos, alimentavam um vago trauma social, não exactamente classista, eram «de fora» e sentiam-se superiores aos «de dentro», nada lhes dava mais gozo do que uma frase perspicaz e cruel sobre quem estava «dentro» e não o merecia. Nunca percebi por que me deixaram entrar na vida deles, custa-me acreditar que fosse desde o início um joguete, suponho que reconheciam em mim alguma qualidade, não sei qual, qualidade obviamente desperdiçada numa pessoa fraca. Gostavam de mostrar o seu ascendente sobre mim, através de pequenas humilhações, num caso, ou de um teatro permanente, no outro. Eu era um fraco «de qualidade», digamos assim, tinha talvez algo que eles queriam, não sei bem o quê, e sempre aceitei a superioridade deles, o que naturalmente lhes agradava mas não era suficiente. Julguei que a «amizade» e aquela outra palavra contrariassem a natureza deles, ou o fizessem no futuro. Quis ter esperança, impedir o inevitável. Quando chegou o momento, nenhum deles hesitou um segundo, um forte não pode hesitar perante um fraco senão perde as suas capacidades, como um Sansão de cabeça tosquiada, e eles fizeram de conta que não tinha havido uma escolha, achavam que a verdade era apenas uma questão de perspectiva, acreditavam que a moralidade é aplicável apenas aos carneiros, e não percebiam como é que um fraco não aceita que os fortes prevalecem porque é seu direito e destino. Antes e depois, quem me quis fez mal foi gentinha sem importância, e o mal passou logo, mas os meus nietzschianos nunca se hão-de apagar da memória, vão comigo para a cova, o que sou deve muito ao que eles foram comigo, criaturas que desprezavam os fracos e que nos fracos não distinguiam amigos e inimigos, é tudo a mesma raça maldita, exterminável, não eram apenas teóricos estes dois, acreditavam na prática acima de tudo, na acção, porque a acção é o contrario da fraqueza, iam dar-se bem se conhecessem, não são pessoas más, é apenas a sua natureza, gente forte que despreza gente fraca, eu não fui excepção, e quando chegou o momento a vontade deles triunfou sobre a minha esperança, e eu acabei, e depois eles para mim, os meus amigos, os meus nazis.

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