O conforto intelectual
O livro mais ousado e divertido que li nos últimos tempos foi um ensaio de Marcel Aymé chamado Le Confort intellectuel (1949). Aymé é o protótipo do «anarquista de direita», refractário e desalinhado. Acusado de conivência com o colaboracionismo, passou por algumas dificuldades depois de 1945. Uma vez «reabilitado», recusou a Legião de Honra que lhe outorgaram e convite para que se candidatasse à Academia Francesa. Aymé interrompeu a sua extensa obra romanesca para redigir Le Confort, panfleto em forma de diálogo com um tal senhor Lepage, erudito reaccionário com uma opinião muito negativa de literatura francesa do romantismo para cá. Lepage, alter-ego de Aymé, diz que a ascensão da burguesia, em 1789, com as revoluções esquerdistas ou liberais, e depois, no pós-II Guerra, inquinou a literatura francesa com tiques e poses, do satanismo ao existencialismo, passando pelo esteticismo finissecular e pelo surrealismo. Tudo, segundo ele, nasceu de um mesmo «vírus» romântico, manifestação de uma sensibilidade burguesa desregrada, de uma língua que abandonou o rigor clássico, de um culto histérico da personalidade, e de um conformismo estético e político. Para Aymé, a literatura contemporânea, à custa de se apresentar como «transgressora» acabou por se tornar comodista. Não acompanho a maioria das ideias de Aymé, nomeadamente a sua estapafúrdia hostilidade a Baudelaire, mas gosto deste Le Confort intellectuel, um livro valente e veemente, que lembra, em patusco, o brilhante La Littérature à l’estomac, de Julien Gracq, publicado um ano mais tarde.

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