9/26/2011

Alternativa

Nenhuma outra banda me influenciou de modo tão visível, eu tinha dezoito anos e o mimetismo era inevitável, cabelo comprido, camisolas de flanela, aquela revolta contida que tanto convinha ao meu feitio e à minha circunstância. Duas décadas depois, ouço as «demos» de Nevermind (1991) e percebo que essa fúria amansada foi um conceito do produtor Butch Vig, que Cobain aceitou a contragosto. Bleach (1989) era um álbum de punk gritado e incompreensível, de uma ferocidade viciante mas sem saída. Faltava uma ideia nova, e Nevermind encontrou uma fórmula prodigiosa: redistribuiu a dinâmica em versos lentos e refrões violentos, modulou dissonâncias e reverberações, afinou um baixo de uma limpidez assombrosa, ajustou vocação melódica e riffs colossais, desenhou momentos intimistas no meio da melancolia barulhenta, deu equivalência à mágoa lúcida e à lucidez magoada. In Utero (1993) é um disco mais visceral (mais Steve Albini), mas também bastante mais indeciso, com alguns retoques de timidez comercial, uma hesitação que o álbum anterior evitou. Há quem ache que Butch Vig emasculou o som dos Nirvana, mas eu creio que ele conseguiu fazer com o rock, então um presumível falecido, entrasse pelo mainstream adentro sem convite e sem cerimónia, destronando os injustos convivas. E que isso foi extraordinário de se ver. Aquela revolta brutal e elegante começou então a ser chamada «música alternativa», e para mim, em 1991, não havia mesmo alternativa.