9/21/2011

REM 1980-2011


Quando Bill Berry abandonou a banda, em 1997, os REM podiam ter deixado o palco em beleza. Os cinco discos que fizeram desde essa data não adiantam nem atrasam, todos têm umas quantas canções boas, mas nenhum parece relevante, há uma sensação de repetição, inconsequência, preguiça. Reveal (2001) é o que mais se aproxima de um regresso ao passado, e Accelerate (2008), com a sua pujança sónica, foi uma prova de vida, mas tudo já era muito «automatic for the people». O fim da banda, anunciado depois do lançamento de Collapse into Now (2011), é uma implosão controlada que não deixou ninguém desolado.

Até porque temos sempre o catálogo, e que catálogo. Os cinco primeiros álbuns dos REM são perfeitos: Murmur (1983) é uma obra-prima, college rock críptico, dormente mas espicaçado por guitarras cristalinas, achados melódicos, introspecções agudas. Berry, Buck, Mills e Stipe tornam-se depois menos pós-punk e mais folk, uma folk ciclotímica, atravessada pelos fantasmas da Guerra Civil e por hinos ambientalistas, canções de desejo e vingança, guitarras à Byrds, palavras surreais e encantatórias. Reckoning (1984), Fables of the Reconstruction (1985), Lifes Rich Pageant (1986) e Document (1987) são álbuns quase sem concorrência no rock americano dessa década. Já Green (1988) me parece retrospectivamente uma hesitação antes do colapso ou do estrelato.

Seguiu-se um sucesso à escala global, tudo por causa de uma canção com bandolim chamada «Losing My Religion». Out of Time (1991) é um álbum magnífico, tão bem feito que faz esquecer que o todo é muito superior à soma das partes, pois há canções menores, disparatadas e incoerentes. Mas o cuidado na produção e nos arranjos («Half a World Away») e o fulgor emocional («Country Feedback») tornam-no inesquecível. Foi um álbum que me acompanhou em anos decisivos da minha vida, nunca ouvi tantas vezes um disco, tantas vezes em «repeat», noite dentro. Tive problemas com Automatic for the People (1992), álbum de uma melancolia sublime e grandiloquente, mas como há pelo meio incidentes não-musicais, passamos em frente.

Michael Stipe começou a levar-se demasiado a sério como figura pública, mas ainda gravou álbuns decentes, como Monster (1994), que assumiu um som «sujo» e agressivo, e New Adventures in Hi-Fi (1996), uma colecção maravilhosamente aleatória de canções gravadas durante as digressões. Em 1997, Berry decidiu ir para a sua quinta descansar. Os outros três deviam ter feito o mesmo. É difícil estar no topo da forma durante quase três décadas, mas entre 1983 e 1992 os REM foram a melhor banda americana, uma banda à qual devo mais coisas do que posso e devo aqui dizer.