Photomaton
(...) Em 1929, a revista «La Révolution surréaliste» ensaia uma aproximação estética ao photomaton. Em torno de um desenho de uma mulher nua e da frase “Je ne vois pas la [femme] cachée dans la forêt” estão individualmente dezasseis surrealistas engravatados, todos de olhos fechados. Um Aragon compenetrado, um Breton sereno, um Buñuel de pálpebras pesadas, um Éluard visionário, um Magritte adormecido, um Ernst alucinado, um Dali efebo. Segundo os surrealistas, o photomaton era uma fotografia psicanalítica, que nos confrontava com aquilo que somos e não conhecemos, com uma imagem que reconhecemos mas nos surpreende. Era também uma forma de escrita automática, reveladora, imprevisível, excitante. Supostamente, o retrato dos dezasseis mostra o que vêem os surrealistas quando fecham os olhos, embora nós os vejamos apenas a eles de olhos fechados. A sugestão de que viam mulheres nuas não foi seguida à risca.
Nem todos os surrealistas levavam o photomaton tão a sério. Um deles, Raymond Queneau, explorou bastante uma das grandes potencialidades da máquina: a careta, espécie de comédia muda ao alcance de todos. Era um exemplo de dessacralização do acto fotográfico. O photomaton reinventou a fotografia porque a privatizou, dispensando a figura do técnico. O fotografado senta-se sozinho, num tamborete, corre a cortina, compõe-se ou descompõe-se a seu gosto, confere a imagem ao espelho e faz-se luz. É de algum modo uma fotografia sem estética, crua, identitária, mas sempre surpreendente.
O aspecto clínico do photomaton acabou por ser aproveitado pelas autoridades. O photomaton representava um espaço exíguo, padronizado, captava uma pose estática com uma iluminação frontal, era por isso um instrumento ideal de identificação. Essa fotografia objectiva, escreveu Barthes, fez de nós sujeitos penais. E de novo solenes.«Smiling is not accepted by your passport authorities”, avisavam os photomatons oficiais.
[amanhã no Expresso]


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