10/30/2011

A meio duma frase

Passa de novo logo às 18.30 o Prémio Revelação do Doclisboa 2011: Ami, Entends-tu, de Nathalie Nambot. Ami, Entends-tu é um filme sobre a poesia. Não é apenas «poético»: respira com o mesmo fôlego da poesia. Ossip Mandelstam (1891-1938) era um acmeísta russo, um daqueles sumptuosos «modernistas neoclássicos» entrincheirados entre os velhos simbolistas e os jovens futuristas. A sua poesia densa e imagista tem quase tudo aquilo que desagradava aos soviéticos, do cosmopolitismo cultural ao fascínio pela religião, passando pela experimentação formal, o vocabulário arcaizante, o subjectivismo, o hermetismo pungente. Não admira que fosse perseguido pelo regime. Morreu a caminho de um campo de concentração em 38, depois de ter sido removido «a meio de uma frase» da companhia da mulher, Nadejda. As memórias de Nadejda Mandelstam são um dos grandes testemunhos sobre o horror das ideologias e o triunfo inabalável da imaginação poética e da paixão amorosa. Em Ami, Entends-tu, Nadejda fala para a câmara, no seu apartamento escuro e encafuado. Conta como ela e Ossip tinham um amor único, inabalável, apesar de sabermos que Mandelstam tergiversou. Conta que tão terrível como a opressão é a indiferença que a opressão gera. Conta que muitos dos poemas de Mandelstam dos últimos anos, depois de um fatal poema sobre Estaline, não eram mais escritos, mas decorados, passavam de boca em boca e de coração em coração como no Fahrenheit 451. Uma outra mulher bela e triste lê os esplendorosos poemas de Mandelstam, e parece que o russo é uma língua feita de propósito para a poesia, de tal modo os poemas são tocantes mesmo sem lermos as legendas. Enquanto isso, as imagens que aparecem são mínimas, um mar gelado, uma luz que se acende e apaga, talvez um farol, o caos urbano, o tempo lento e cíclico, a voz da alma gémea Akhmátova, o Inverno desolado do exílio de Mandelstam, que acabou um quase cadáver de tanto frio e tanta fome. E há uma rima política terrível, com o ataque ao teatro Dubrovka e o homicídio de Anna Politkovskaya. Uma lembrança de que ao lado do triunfo perene e surdo da poesia, continua a mesma mentira, a mesma mentira da opressão e da indiferença, a mesma vontade de fazer desaparecer alguém «a meio duma frase».