Percutivo mas não ruidoso
Um poeta hermético que defende a «autenticidade»? Um estruturalista lírico? Um cosmopolita dialectal? Andrea Zanzotto (1921-2011) era tudo isso. Podia parecer um poeta mansamente autobiográfico e contido, na linha de uma tradição meditativa, ou então um profeta da vanguarda, mas afastou-se da linguagem tradicional sem nunca aderir à vanguarda dos Novíssimos (Pagliarani, Sanguinetti, Porta). Do volume Poesie 1938-1986 só consigo ter alguma afinidade com os poemas das primeiras décadas, sobretudo das colectâneas Dietro il paesaggio (1951) e Vocativo (1957). Zanzotto recusava a poesia política dizendo que era preciso combater o «terror quotidiano» (que ele conhecia bem, sobretudo por causa de desesperantes insónias). E reivindicava um forte sentimento de pertença territorial (o Veneto). A certa altura, porém, este eremita decidiu alargar o seu campo semântico, que era também um campo de resistência, tornando os poemas interdisciplanares, babélicos, herméticos, não fugindo sequer a níveis verbais infra-literários, como o balbucio infantil ou a afasia. Montale chamou-lhe um poeta «percutivo mas não ruidoso», mas essa segunda fase de Zanzotto é demasiado confusa para o meu ouvido (e para o meu conhecimento escasso da língua italiana), embora seja um bom exemplo de seriedade com que a poesia italiana tem investigado a linguagem poética.

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