Reino da Dinamarca
O concerto de John Grant, autor de um dos melhores álbuns de 2010, não foi memorável. Ele confessou logo de início alguns problemas de voz, aliás notórios, e isso contribuiu para que o espectáculo fosse curtinho e com pouca densidade. E no entanto, na noite de ontem pudemos perceber ao vivo o efeito de verdade que têm as canções de Grant. E a diferença que isso instala no panorama da canção actual. Grant reconduz todos os temas e todas as referências à sua biografia, assume completamente a dimensão confessional, catártica, daquilo que escreve. E as canções de Queen of Denmark, que têm a elegância e a verve do grande cancioneiro americano, vivem além disso de fúria, fragilidade, dramatismo, queixume, fracasso, nojo, falso sarcasmo, enfim, expõem as vísceras, em disco como em palco, uma coisa muito pré-modernista, muito de outras épocas, e que desperta em tanta gente o entusiasmo de uma compaixão que se tornou quase clandestina.

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