10/12/2011

O escândalo das formas

Tenho-me divertido com a «autobiografia não-autorizada» de Julian Assange. Só esse conceito já é um achado. E tem bastante graça a obsessão dele com a sua «privacidade». E imensa graça o Guardian e o New York Times que agora lhe chamam egocêntrico, paranóico, autoritário, intolerante, misógino, intrujão, o mesmo indivíduo que esses jornais há uns meses promoveram a herói mundial. Bem sei, não devemos confundir a mensagem e o mensageiro, e algumas das revelações da Wikileaks eram relevantes, sobretudo as que diziam respeito a violações de direitos humanos. Mas a mentalidade Wikileaks sempre me pareceu nefasta, ainda para mais integrada neste novo dogma de que tudo o que é tecnológico é intrinsecamente bom. Umberto Eco escreveu que o Wikileaks revelou um escândalo aparente e um escândalo das formas. O escândalo aparente diz respeito às comunicações entre embaixadas, que afinal pouco passavam de banalidades, coscuvilhices e evidências. Mas há um escândalo das formas, diz Eco, que é o fim do segredo, a ideia de transparência total, a total falta de fiabilidade da Net como meio de transmissão de segredos, sem os quais uma sociedade humana não existe. Eco não tem grande coisa a dizer sobre Assange, e Assange, no meio disto, é o lado anedótico. Mas o clima de beatice tecnológica está a tornar-se a religião do século.