10/19/2011

Vergonhas tão altas e tão saradinhas

O Brasil foi uma saída da nossa pequenez, uma terra de aventuras comerciais, imperiais e missionárias, um território-continente em que tudo era possível, um paraíso natural. E obviamente uma utopia carnal: a Carta de Pero Vaz de Caminha diz logo ao que vem: «Ali andavam entre eles [os índios] três ou quatro moças bem novinhas e gentis, com cabelos mui pretos e compridos pelas costas e suas vergonhas tão altas e tão saradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha». Alguns estudiosos têm sugerido que esse fascínio pelas indígenas não é atribuível apenas ao exotismo e à liberdade, mas a uma espécie de paradigma oculto da nossa mitologia erótica: a moura, essa mulher morena e sensual que queríamos possuir quanto mais não fosse por justiça poética.