Magnetic fields
Estava todo lá dentro. Todo não, as extremidades apenas. Eu explico. Tive uma recaída de uma queda antiga, com vinte anos, já me aconteceram coisas passadas há vinte anos, quem diria, neste caso uma micro-ruptura num menisco, órgão que eu supunha exclusivo de jogadores do Portimonense. O médico mandou-me fazer uma ressonância magnética. Lembrei-me do dr. House, sempre a mandar fazer «éme-ar-ais» a torto e a direito, num hospital que claramente não pertence ao SNS e que tem a Olivia Wilde a fazer o internato. Ficção, portanto. Escusado será dizer que não tive tanta sorte. Cheguei ensopado da chuva ao centro de exames e fui encaminhado para uma salinha com uma enfermeira gira e uma enfermeira não-gira. Fui atendido pela não-gira. Deu-me um impresso, que preenchi. Era exaustivo. Tive que contar toda a minha história clínica e não só, incluindo alergias, próteses, a minha opinião sobre o Estado social e a infabilidade papal. A seguir, a enfermeira mandou-me vestir uma bata e pôr um plástico azul em volta dos pés. Lá fiz a coisa, e saí do vestiário naquele estado, de cuecas, barbatanas azuis e um balandrau sucinto em cima do meu corpo de nadador olímpico. Um espectáculo deprimente. Fui levado ao micro-ondas. Na melhor das hipóteses, parece uma cápsula espacial. Na pior, um instrumento concebido pelo doutor Mengele. Há dias, aprendi que o genial físico teórico Ettore Majorana concebeu os cálculos que estão na origem da ressonância magnética. Também concebeu experiências que estão na origem da bomba atómica, por isso estão a ver a ideia. Trepei para o tabuleiro e enfiaram-me no forno, felizmente só até ao cós. Eu achava que um mri era uma espécie de radiografia com bazófias. Estava enganado. É uma maquineta assustadora. A enfermeira avisou que a máquina fazia muito barulho, que não me assustasse. Enquanto o tubo me lia o menisco, ia de facto fazendo muito barulho, de vários tipos. Registei quatro: antiaérea nazi num campanário normando, fotocopiadora asmática, alarme anti-roubo comprado nos chineses e nave de Darth Vader em aterrissagem. A enfermeira tinha-me dado uns auscultadores para eu evitar ouvir o chinfrim. Pedi os dois primeiros álbuns dos Feelies. Não havia. Deram-me em vez disso uma musiqueta género eflúvio silvestre, pipilante, beatífico. Parecia a Enya, o que não é um elogio. Alguém já disse que se a vagina cantasse, cantava como a Enya. Ao fim de dez minutos de estudo minucioso das minhas canelas e de zumbidos metálicos, cabeceei um pouco com a Enya. Felizmente, o exame estava acabado. Barbataneei para o vestiário, voltei de lá esplendorosamente mal pronto, e fui recebido pelo médico. Ele ostentava aquele ar fascinado que sempre provoco nos médicos de todas as especialidades. Claramente eu apresentava um caso patológico, mais um. Todos os médicos me querem usar para papers que apresentam em congressos, onde vão contribuir para o avanço da ciência e enganar as esposas. O médico sentenciou professoralmente que eu tinha «um bocado da rótula solto na cartilagem». Eu disse-lhe «bom dia para si também» e saí para a rua chuvosa e magnética.


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