Um método perigoso
(...) Mas alguma coisa correu mal. A análise cria uma grande proximidade emocional entre analista e paciente, e há um pacto que não pode ser quebrado. No movimento chamado de “transferência” é preciso que tudo se mantenha no plano simbólico, e que ambas as partes tenham noção desse estatuto. Mas o pacto analítico falhou, forçosamente por culpa de Jung, sobre quem recaíam as obrigações deontológicas. Sabina estava dependente, Jung ouvia-a, compreendia-a, demonstrava ternura. Por isso ela idealizou-o, fez dele um deus. Essa desigualdade devia ser mantida, como um dique. Só que Jung deixou-se ir, expôs a sua fragilidade, as suas carências emocionais, os seus desejos sexuais reprimidos, e de repente tornou-se igual a ela, dependente dela como ela dele. Estavam ambos no mesmo plano, e a relação passou de instrumental a verdadeira, com sentimentos “autênticos”. Tornaram-se amantes. “Agora sou eu quem está doente”, confessou Jung. (...)
[amanhã, no Expresso]


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