11/16/2011

Nativos digitais

Ainda não consigo gostar da imagem digital, não sei se algum dia me habituarei, falta-lhe densidade, espessura, mas enfim, reconheço que o digital tem sido muito benéfico para o cinema. Filmar torna-se mais fácil, ainda não é a «câmara-caneta» anunciada por Astruc mas quase, o cinema ficou de súbito bastante acessível e de difusão imediata. E o digital tem contribuído muito para reconfigurar a distinção entre ficção e documentário, criando novos tipos de narrativas híbridas. Este ano, vimos pelo menos quatro obras filmadas em digital que ilustram bem esta nova fase. Uns são talvez mais «ficção» do que «documento». Soderbergh fez um filme ficcional clínico e estilizado, usando uma estrela porno como protagonista e criando uma ambiguidade com o «grau zero» de representação e com aquele registo tão intimista quanto distanciado. Hellman pôde finalmente voltar ao cinema, e celebrou o regresso multiplicando narrativas dentro de narrativas dentro de narrativas, começando a história com um dvd em cuja imagem entramos e que é afinal o filme que estamos a ver, entre o falso documentário e o jogo de espelhos. Outros dois cineastas colocaram-se mais do lado do documental. Cavalier continua a fazer home movies, diários pessoais, idiossincráticos, minimalistas, e agora convidou um actor famoso para contracenar com ele, e ambos fingem que estão a gravar um filme de ficção, enquanto comem e conversam. Panahi, em prisão domiciliária, e proibido de filmar pelas autoridades iranianas, usou o digital (e o telemóvel) para gravar um testemunho, um inocente «não-filme» nada inocente, e com o qual ensaia todos os processos narrativos do cinema, quase sem pegar na câmara, quase sem ninguém que o ajude, e sem nunca pôr um pé fora de casa. É algo mais do que anedótico sabermos que este último filme chegou ao Ocidente numa pen drive metida dentro de um bolo de aniversário.