11/23/2011

O corpo que habitam

As actrizes de cinema são demasiadas vezes solicitadas apenas por causa do seu corpo, o corpo estético, sexual, objectificado, vendável. O facto de o cinema usar tanto o corpo das mulheres faz com que não se interesse verdadeiramente pelo corpo das mulheres, pelo corpo enquanto corpo, digamos. Há uns tempos, a versão americana de Funny Games expunha longamente o corpo de Naomi Watts, numa situação incomodativa, deserotizada, uma cena de sequestro e tortura que incluía comentários desagradáveis ao corpo da personagem interpretada por Watts, que uma mulher madura com um corpo atraente mas normal. Há outros exemplos interessantes, do sublime ao lixo, passando pelo quase anedótico. Sublime é a exposição longuíssima do corpo nu de Emmanuelle Béart em La Belle Noiseuse, corpo esplendoroso de uma mulher que no entanto vamos reconhecendo como personagem viva, como pessoa, e de algum modo como objecto artístico igual a outros, são demasiados minutos de um corpo nu e estático, o que transforma a excitação em contemplação, algo notável, tratando-se de Béart. Depois, há um filme péssimo com Julian Sands (passe a redundância), Boxing Helena, em que temos uma Sherilyn Fenn amputada, feita cativa pelo seu admirador, Vénus de Milo ácida e vingativa, que é só corpo, e bocado de corpo, mas que consegue ainda que o espírito humano triunfe. E há momentos anedóticos, como os dedos dos pés de Uma Thurman no primeiro Kill Bill, com Tarantino claramente fascinado com aqueles dedões em grande plano, quase protagonistas de uma cena inteira. E agora temos o novo Almodóvar, com a câmara colada à pele de Elena Anaya, estudando o que é a pele, em que medida a pele é identidade. Devo dizer que Anaya é uma das poucas mulheres de celulóide (ou de digital) que me provoca oscilações cardíacas como algumas mulheres que conheço pessoalmente, incluindo, vagamente, no sentido bíblico; mas em La Piel Que Habito aquela nudez perfeitinha e mignone é constantemente sabotada: por um lado porque ela usa uma roupa muito justa que funciona como segunda pele; e por outro, porque sabemos que a pele da personagem é uma pele transplantada, e isso cria uma incomodidade inultrapassável. Almodóvar, de resto, não se fica por aqui, na medida em que a rapariga é na verdade um rapaz que foi modificado cirurgicamente, e nem é preciso entrar em considerações homossexuais, uma vez que o corpo feminino actual é cada vez mais um corpo modificado, embora de um modo, felizmente, bem mais restrito. Estas representações do corpo serão todas incómodas, fetichistas, abusivas, mas valem mil vezes o papel típico das jovens actrizes, aquela receita gratuita que Roger Corman definiu como «tits every 10 minutes».