O último Papa
Na colectânea de ficções Il libro nero (1952), Giovanni Papini incluiu uma história chamada «A conversão do Papa». É a biografia de um homem, filho de um herético executado pela Inquisição, que vai para um convento, torna-se frade virtuoso e afamado, depois bispo e enfim cardeal. Até que um dia é eleito Papa. Decide então vingar-se da morte do pai. Ateu convicto, fingiu que acreditava durante anos, mas agora vai poder aparecer à varanda do Vaticano e anunciar aos fiéis que Deus não existe. Só que ele vacila quando vê o povo na Praça. O povo acredita, espera, necessita de alento e consolo. E o Papa ateu converte-se. À fé, talvez, ou pelo menos ao catolicismo. E agradece, comovido, à multidão dos crentes. Na peça de teatro «Elle» (1955), Jean Genet imagina um Papa que posa para uma sessão fotográfica e que está convencido de que um Papa é mais uma imagem do que outra coisa, um ícone que representa uma ilusão. É um Papa inseguro, farsesco, hipócrita, poético, desabrido. Mas que importa a pessoa do Papa, o que conta é o cargo. Quem manda é o símbolo, a imagem, a fotografia. Ver é crer, mesmo que não se creia em nada. No conto «The Last Word» (1988), Graham Greene descreve a situação do «último Papa», num futuro em que o cristianismo foi erradicado, dominado por um despotismo mundial ateu. O único cristão que sobrou foi justamente o último Papa eleito, que entretanto se fez um velho amnésico e demente. Ainda assim, o General pede-lhe que se suicide, porque enquanto houver um cristão vivo, um só, existe perigo. E mesmo com todos mortos, é perigoso que nem fique sequer a inquietação religiosa. Não sei se Nanni Moretti conhece alguns destes textos. Em todo o caso, Habemus Papam (2011) não tem a intenção apologética de Papini e Greene nem se dedica ao escárnio como Genet; Moretti é agnóstico ou ateu mas não sentiu necessidade de atacar a Igreja, o desporto oficial da burguesia actual. Na verdade, Habemus Papam escolhe o Papa como figura que representa uma angústia e uma recusa. O Papa é em geral um homem idoso, não se candidata, e pode pasar de incógnito a mundialmente conhecido. Além disso, o Papa é «infalível», e Moretti quer mostrar um homem falível. Velho, cândido, doce, frágil, amedrontado, o Cardeal Melville (Michel Piccoli) gostava de ter sido actor, mas ser Papa não lhe serve, o Papa é um actor que deixa de ser uma pessoa, isto é, que tem de abdicar da sua individualidade para encarnar toda uma Igreja. A representação e o espectáculo vaticanos assustam Melville. No Conclave, ele partilha do mesmo sentimento de «non sum dignus» dos outros cardeais, mas é mais atormentado do que eles, e por isso não quer aceitar a eleição mesmo depois de ser escolhido, ou pelo menos não aceita tomar posse, aparecer em público enquanto Papa, ser reconhecido como tal. Quando o psicanalista interpretado por Moretti vem «analisar» o Papa, é-nos dito logo que «a alma» e «o inconsciente» são incompatíveis, e a tentativa de deitar o Vaticano no divã morre à nascença. Mas é verdade que aquele indivíduo chamado Melville precisa de ajuda. Ele chegou quase ao fim da vida sem confiança, nem serenidade, nem satisfação. Não é por acaso que quando foge do Vaticano vai assistir a uma peça de Tchekhov, o poeta da vida fracassada. A angústia individual de Melville não permite que ele se dissolva pacificamente num colectivo, e ele não abdica do seu eu em favor do seu múnus. Filmando a dúvida do cardeal, filma também um homem que recusa o poder, uma ave rara nos dias que correm. Melville escolhe o egoísmo do falhado em vez da glória do reprimido. E isso é assustador e poético ao mesmo tempo. Além do mais, para um crente, conceber um Papa que recusa o cargo porque não está à altura, não é uma heresia: nestes tempos de crise chega a ser uma evidência.


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