Pobre Itália
Berlusconi chegou ao poder com uma das piores ideias ditas «de direita»: a ideia de que o sucesso nos negócios privados é uma especial habilitação para a condução da coisa pública. Viu-se. O homem que triunfou por causa da acumulação de capital acaba de se demitir por indecente e má figura perante os «mercados». Ironias. Entretanto, foram dezassete anos, como Presidente do Conselho ou como líder da oposição, quase duas décadas de gafes, dislates, momices, bazófias. É difícil pensar numa figura mais inapresentável na política europeia recente. Não por acaso, deu-se sempre bem com Khadafi e Putin, exímios democratas. Berlusconi devia estar barrado da governação há muito tempo, talvez desde sempre: incontáveis processos por corrupção, controlo quase monopolista dos media, aprovação de amnistias ad hominem, perseguição a juízes e jornalistas. E a cereja no bolo: fama comprovada de bode velho, com meninas pagas, incluindo menores de idade. A Itália, pátria do gosto, não merecia este episódio de retinto mau-gosto. Agora é preciso retomar o processo de refundação do sistema político. A Primeira República [1946-1994] estava podre, e a Segunda não melhorou a situação. Tudo indica que o Presidente italiano percebe que é precisar afastar actores políticos nefastos, como a Liga Norte, separatista e socialmente racista, e, à esquerda, a Itália dos Valores, o PRD transalpino, moralismo arrogante e tudo. Essa é a boa notícia, a segunda boa notícia. A má notícia é que o Governo vai ser entregue a um técnico, aparentemente sem eleições à vista. Como se em democracia houvesse boas soluções políticas que não sejam isso mesmo, políticas, e portanto eleitorais. Talvez a Itália passe do circo à tecnocracia, mas isso é apenas uma limpeza, não uma resposta. Pobre Itália.

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