Tempo não é dinheiro
Percebe-se porque é que Slavoj Žižek gosta tanto de ilustrar complicadas teses hegelianas e lacanianas com cinema de Hollywood. Sem Tempo, de Andrew Niccol, é um bom exemplo das potencialidades teóricas de algum entretenimento. Com excepção de Gattaca, todos os filmes escritos ou dirigidos por Niccol (A Vida em Directo, Simone, Terminal de Aeroporto, O Senhor da Guerra) são boas ideias desperdiçadas, e este não foge à regra, à conta de acção a mais e especulação a menos.
É que a ideia aqui parece mesmo óptima: construir uma ficção distópica em que o conceito de «tempo» substitui o conceito de «dinheiro». Em Sem Tempo, as pessoas vivem numa sociedade que conseguiu um avanço genético não-explicado que lhes permite durar por períodos de tempo longuíssimos, embora nunca envelheçam fisicamente para além dos 25 anos. Tudo aquilo que na civilização tal como a conhecemos diz respeito ao dinheiro é neste mundo aplicado ao tempo, visto que as pessoas, chegadas aos vinte e cinco, vivem anos extra através de reservas de tempo, que têm que acumular, caso contrário morrem. O tempo, tal como o dinheiro no nosso mundo, é matéria de vencimento, preço, jogo, empréstimo e assalto. E, tal como o dinheiro, está mal distribuído: «da má distribuição da riqueza e das coisas boas da Terra todos sem excepção têm a máxima culpa», como diz o poema. As grandes clivagens naquela sociedade são entre classes de pessoas que têm tempo e outras que não têm, e que vivem em «zonas de tempo» diferentes. É um «darwinismo» capitalista, diz-se a certa altura, como se houvesse capitalismo não-darwiniano.
No filme de Niccol, quem armazenou bastante tempo é atraente, tem olho azul e nunca passa exteriormente dos 25, ainda que tenha vivido muito mais (e assim temos Olivia Wilde a fazer de mãe de Justin Timberlake). Não se pode dizer que eles tenham «a cara que merecem», que é supostamente a cara dos 30, mas têm o aspecto que compraram, não com dinheiro mas com tempo. O tempo é uma moeda paradoxal, porque se pode trocar por tempo. Uma prostituta faz mesmo o seguinte convite: «ten minutes for an hour».
O problema em tudo isto, além das correrias e dos carros espatifados, está no facto de Niccol não querer que o tempo seja tempo, mas sim dinheiro. O truque não se aguenta. Se o tempo fosse apenas tempo, podíamos pensar seriamente acerca dessa distopia a que de facto chegámos hoje, e que faz com que ter mais de 25 anos passe por «velhice» nalguns quadrantes; ou podíamos dizer que o cinema de massas vive precisamente nesse mundo em que toda a gente tem olhos azuis grandes e 25 anos; mas como Niccol quer que «tempo» signifique «dinheiro», entramos numa dimensão de «estado do mundo», estada da crise. É um beco sem saída.
Niccol lembra-me aqueles progressistas pacatos e conformistas que nos últimos três anos deram em papaguear Proudhon por dá cá aquela palha, a propriedade é um roubo e tal, ou acabe-se com o dinheiro, etc, é estranho terem estado tão caladinhos quando o socialismo despesista esbanjava à grande, cúmplice objectivo do liberalismo ganancioso. As injustiças geradas pelo dinheiro não começaram com a crise, olhem que os marxistas sempre o disseram, mas estes neófitos anti-dinheiro metem dó.
Niccol quer desmontar «o sistema» assimilando o tempo e o dinheiro, mas «dinheiro» e «tempo» são questões ontológicas diferentes, e incomunicáveis; o estatuto do dinheiro é matéria política, enquanto o tempo é um enigma filosófico. Há sociedades que resolvem de modo mais ou menos razoável a questão da distribuição do dinheiro, mas nenhuma sociedade resolveu a questão do tempo, que é fatalmente finito, e que não tem solução. Tempo não é dinheiro. Embora louve a ambição de Niccol, parece-me que a confusão de conceitos torna a filme politicamente ingénuo e filosoficamente pueril. Talvez em breve Žižek lhe explique.
É que a ideia aqui parece mesmo óptima: construir uma ficção distópica em que o conceito de «tempo» substitui o conceito de «dinheiro». Em Sem Tempo, as pessoas vivem numa sociedade que conseguiu um avanço genético não-explicado que lhes permite durar por períodos de tempo longuíssimos, embora nunca envelheçam fisicamente para além dos 25 anos. Tudo aquilo que na civilização tal como a conhecemos diz respeito ao dinheiro é neste mundo aplicado ao tempo, visto que as pessoas, chegadas aos vinte e cinco, vivem anos extra através de reservas de tempo, que têm que acumular, caso contrário morrem. O tempo, tal como o dinheiro no nosso mundo, é matéria de vencimento, preço, jogo, empréstimo e assalto. E, tal como o dinheiro, está mal distribuído: «da má distribuição da riqueza e das coisas boas da Terra todos sem excepção têm a máxima culpa», como diz o poema. As grandes clivagens naquela sociedade são entre classes de pessoas que têm tempo e outras que não têm, e que vivem em «zonas de tempo» diferentes. É um «darwinismo» capitalista, diz-se a certa altura, como se houvesse capitalismo não-darwiniano.
No filme de Niccol, quem armazenou bastante tempo é atraente, tem olho azul e nunca passa exteriormente dos 25, ainda que tenha vivido muito mais (e assim temos Olivia Wilde a fazer de mãe de Justin Timberlake). Não se pode dizer que eles tenham «a cara que merecem», que é supostamente a cara dos 30, mas têm o aspecto que compraram, não com dinheiro mas com tempo. O tempo é uma moeda paradoxal, porque se pode trocar por tempo. Uma prostituta faz mesmo o seguinte convite: «ten minutes for an hour».
O problema em tudo isto, além das correrias e dos carros espatifados, está no facto de Niccol não querer que o tempo seja tempo, mas sim dinheiro. O truque não se aguenta. Se o tempo fosse apenas tempo, podíamos pensar seriamente acerca dessa distopia a que de facto chegámos hoje, e que faz com que ter mais de 25 anos passe por «velhice» nalguns quadrantes; ou podíamos dizer que o cinema de massas vive precisamente nesse mundo em que toda a gente tem olhos azuis grandes e 25 anos; mas como Niccol quer que «tempo» signifique «dinheiro», entramos numa dimensão de «estado do mundo», estada da crise. É um beco sem saída.
Niccol lembra-me aqueles progressistas pacatos e conformistas que nos últimos três anos deram em papaguear Proudhon por dá cá aquela palha, a propriedade é um roubo e tal, ou acabe-se com o dinheiro, etc, é estranho terem estado tão caladinhos quando o socialismo despesista esbanjava à grande, cúmplice objectivo do liberalismo ganancioso. As injustiças geradas pelo dinheiro não começaram com a crise, olhem que os marxistas sempre o disseram, mas estes neófitos anti-dinheiro metem dó.
Niccol quer desmontar «o sistema» assimilando o tempo e o dinheiro, mas «dinheiro» e «tempo» são questões ontológicas diferentes, e incomunicáveis; o estatuto do dinheiro é matéria política, enquanto o tempo é um enigma filosófico. Há sociedades que resolvem de modo mais ou menos razoável a questão da distribuição do dinheiro, mas nenhuma sociedade resolveu a questão do tempo, que é fatalmente finito, e que não tem solução. Tempo não é dinheiro. Embora louve a ambição de Niccol, parece-me que a confusão de conceitos torna a filme politicamente ingénuo e filosoficamente pueril. Talvez em breve Žižek lhe explique.

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