11/09/2011

Um católico diabólico

Um crítico definiu assim Jules Barbey d’Aurevilly: «pensa como de Maistre e escreve como de Sade». É uma síntese magnífica. Católico ultramontano viciado na podridão e na obscenidade, Barbey era várias coisas ao mesmo tempo, um aristocrata normando, um polemista infrene,um dândi, um apologista de Roma, um dissoluto, um cínico, um grave moralista. Era também amigo de Baudelaire. Quando publicou livros «escandalosos» como a colectâneas de contos Les Diaboliques (1874), disse, como era costume à época, que descrevia o mal para melhor o expor e o condenar. Mas era uma desculpa esfarrapada, e Barbey nunca sairia à rua esfarrapado. Os seis contos de Les Diaboliques são exercícios de uma imaginação doentia, à Poe, mas com maior refinamento estilístico, uma escrita insolente de tão civilizada, e no entanto ao serviço histórias de cordel, excessivas, inacreditáveis, grotescas. Les Diaboliques vive de sangue e sexo, mas não porque queira «expor» ou «condenar» o mal. Um outro crítico francês escreveu que Barbey, como católico radical, sabia que só havia dois caminhos para a imoralidade: santificá-la ou perdoá-la. Ou, porque não, ambas as coisas.