Anatomia
A trilogia «anatómica» de Neil LaBute é, parece-me, uma oportunidade perdida. Li as três peças e depois vi várias encenações, a última das quais no Almeida, em Londres, onde LaBute é uma estrela. Em The Shape of Things (2001), um rapaz pouco atraente muda a sua configuração física, à força de dietas, exercício e cirurgia, com o intuito de agradar à sua namorada atraente, mas descobre que o namoro e as mudanças faziam parte de um «projecto» de fim de curso. Em Fat Pig (2004), um jovem de sucesso inicia uma relação amorosa com uma bibliotecária gorda, mas mantém o caso secreto, porque tem vergonha do aspecto dela. Em Reasons to be Pretty (2008), um homem refere-se à namorada como «normal», em oposição a outra mulher, essa sim «bonita», e alguém conta essa frase à namorada, que o deixa. LaBute encara de frente o tema da «obsessão com a aparência», e tem a coragem de explorar temas desagradáveis, propensões inconfessáveis e instintos cruéis. Mas o seu moralismo estraga tudo, a começar, nas edições em livro, pelos prefácios explicativos, ao mesmo tempo grandiloquentes e demasiado banais. Uma vez mórmon, sempre mórmon, dir-se-á do percurso de LaBute, que aliás se tornou «persona non grata» na comunidade; mas o enquadramento religioso não explica tudo. A ideia de que a «obsessão com a aparência» é uma psicopatologia parece-me um erro de base. Sobretudo se estivermos a falar de «aparência física». Não é possível conceber uma economia política da sexualidade sem que a aparência seja uma moeda de troca. A «aparência» como moeda pode ser um conceito revoltante para algumas almas sensíveis, mas decorre naturalmente da beleza enquanto valor. «Belo» não significa «bom», desde os gregos que abandonámos esse equívoco, mas o «belo» é sem dúvida um «bem». Desejamos pessoas fisicamente belas porque reconhecemos uma qualidade naqueles traços físicos que em cada época definem o «belo». O culto da beleza, longe de ser uma patologia, é um sinal de civilização. A atractividade física pode gerar vantagens darwinianas, mas no mundo da natureza a copulação não depende em geral de considerações estéticas. A beleza como factor de atracção, e portanto como critério de escolha sexual, não é uma exigência de primatas, mas uma opção de pessoas numa fase cultural avançada. Uma fase estética, precisamente. Podemos amar o feio, que por virtude do amor nos parece bonito; mas não amamos o feio enquanto feio, o impulso que nos atrai para uma pessoa faz com que reformulemos o conceito concreto de belo de uma forma mais favorável, valorizando detalhes, contrapondo o movimento à imobilidade, explicando que a experiência física implica subtilezas que a simples contemplação não capta. LaBute vacila um pouco nos argumentos. Em The Shape of Things, o exercício de modificação é bastante cruel, em parte por causa do engano malévolo, e no entanto a rapariga tem razão quando diz que ele ficou mais atraente por causa dela, que ganhou alguma coisa com a experiência. Fat Pig relembra que as relações sexuais existem em sociedade, e que há determinados padrões que são um obstáculo à felicidade individual, mas salta entre a sexualidade e o amor de forma demasiado confusa. E em Reasons to be Pretty, encerramento sentimental da trilogia, uma frases anódina e melindrosa revela que não há intimidade sem eufemismo, apesar de ficarmos com a sensação de que a ruptura podia ter acontecido por qualquer outro motivo. Não há muitos dramaturgos actuais que explorem temas tão pertinentes, mas LaBute sofre de uma aflitiva superficialidade, não leva nada até ao fim, nem a irrisão, nem a crueldade, nem a tragédia, há sempre um recuo moral, um recuo de mestre-escola, uma incapacidade para se reconciliar com verdades desagradáveis e torná-las agradáveis, uma visão meramente «sociológica» das «aparências», quando era preciso uma ideia «ontológica». A anatomia não é uma imposição, a anatomia é o destino.


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