12/31/2011

Petersburgo
















Diário de S. Petersburgo: Inauguração de um monumento a Dostoievski (1997) é um dos mais tocantes documentários de Alexander Sokurov. O filme, com imagens toscas, em vídeo, mas com ângulos e movimentos de cineasta, regista a inauguração da estátua de Dostoievski em S. Petersburgo, a cidade onde morreu. Estão presentes as autoridades locais, que dizem palavras de circunstância, e as autoridades eclesiásticas, demasiado enfáticas e prosélitas, bem como uma extraordinária pequena multidão de russos comuns, calados, respeitosos, curiosos, surpreendidos, pacatos, comovidos. Os testemunhos são fortíssimos, em especial dos estudiosos de Dostoievski e de um seu descendente. Para eles, aquela estátua do romancista é uma memória da resistência, uma resistência que para eles tem muito a ver com a memórias do comunismo, mas que representa também mais de dois séculos de repressão e sofrimento, sempre vitimando os «humilhados e ofendidos», mesmo quando os verdugos invocavam o seu nome. As palavras dignas daqueles russos vincados, dignos, são comoventes, «ganhámos o direito», dizem eles, de ter esta estátua, de recordar alguém que se confunde com a cidade, que se confunde com os russos, «ganhámos o direito», dizem, de perpetuar o sofrimento e a angústia, íntimo e político, das coisas da pólis e da alma, e eles dizem isto quase em lágrimas, enquanto os sinos repicam, e alguém, suponho que o próprio cineasta, lê passagens de Dostoievski, que nos diz para não fugirmos do sofrimento e da angústia, que vivamos com eles, não em submissão mas em guerra, com uma coragem feita da soma dos medos, e há um excerto onde se diz «não deixes que a literatura nos abandone», os sinos não param, as pessoas circulam em volta da estátua, não conheço outra oração assim, «não deixes que a literatura nos abandone».