12/13/2011

A mighty stranger (3)




Wuthering Heights já foi adaptado ao cinema umas vezes vinte vezes, e por gente tão distinta como Wyler, Buñuel e Rivette; no entanto, não conheço nenhuma versão tão forte como a de Andrea Arnold. Depois de Sinal de Alerta (2006) e de Aquário (2009), sabemos que Arnold é uma das mais interessantes cineastas emergentes, e este monte dos vendavais confirma esse estatuto, com uma abordagem brutalista, in-yer-face, ao romance de Emily Brontë. Esta tragédia rural claustrofóbica, de caixão à cova, foi filmada num Yorkshire inóspito, com panorâmicas campestres mas poucos planos de conjunto nas cenas domésticas, câmara manual em cima dos actores, pouca iluminação, enquadramentos apertados e oscilantes, e uma igual atenção dada a humanos, cavalos, insectos, charnecas e ventania. É o romantismo a cru, todos os comportamentos são primitivos, instintivos, violentos, a paixão apenas mais um elemento feroz, e mantém-se selvagem mesmo enquadrada pela selvajaria, é a paixão enquanto fúria poética, insensata, letal. A transposição é tão segura que até a introdução de um Heathcliff negro não parece abusiva nem demagógica, serve de barreira adicional a um amor entre dois animais indomáveis, quase irmãos, quase amantes, crianças entretanto crescidas, no meio da escuridão, da lama, da tempestade. Arnold e a sua co-argumentista descarnam o romance até ao osso, o filme nunca parece uma «adaptação», muito menos uma «adaptação literária», não há quaisquer traços de pomposidade ou de sentimentalismo, o que é uma bela homenagem a Brontë. Apesar de ser um romance «vitoriano», Wuthering Heights (1847) tem uma pulsão romântica, está de certo modo desajustado do seu tempo, e portanto também do nosso, Wuthering Heights (2011) resolve esse problema criando um tempo primordial, intemporal, inclemente, um cenário à imagem e semelhança daquela magnífica obsessão.