Vaclav Havel 1936-2011
«Um espectro assombra a Europa de Leste», escreveu Havel, «o espectro da dissidência». Quando eu era miúdo, os heróis do anticomunismo chamavam-se Walesa e Havel. Walesa era o operário franco e impulsivo. Havel, o burguês tímido, afável, irónico e cheio de dúvidas, um bom modelo. Com Havel e com Kundera eu percebi o que era «bloco socialista», não apenas um despotismo, isso já sabia, mas também o domínio do kitsch e da verdade enquanto farsa. Havel explicou que a «verdade», na esfera soviética, era um conceito com curso legal mas com uma lógica abstrusa. Por isso, chamou à Checoslováquia o «absurdistão». Defensor incansável da ideia de «responsabilidade», também demonstrou coragem prática, e depois de encabeçar a plataforma de direitos humanos Carta 77 esteve várias vezes preso. Beckett dedicou-lhe então uma peça política, uma das poucas que escreveu, Catástrofe. Na minha estante, os escritos políticos de Havel estão ao lado de Camus e Orwell, exemplos morais em século imoral. O seu teatro conheço mal, li apenas um volume de peças editado em português e Largo Desolato (1984); em ambos os casos gostei do estilo absurdista, umas vezes contido e alegórico, outras delirante e virtuoso, textos tão divertidos e terríveis como os de Ionesco e Kafka. No último terço da sua vida, Havel passou de dissidente a presidente. Foi depois da «Revolução de Veludo» de 89, um nome com conotações curiosas; Havel era um fã dos Velvet Underground, e argumentava que um regime, como o checo, que persegue o rock, é fatalmente iníquo, porque quem começa a proibir cabeludos e decibéis acaba a proibir ideias e modos de vida. Dissidente impecável, Havel revelou-se um presidente mediano. Relutante face ao jogo político, pareceu inábil nalgumas tomadas de posições, pouco dado ao clima conspirativo, talvez demasiado «idealista», hostil ao revanchismo, imune à beatice capitalista. Ida e Volta do Castelo (2007) é uma análise lúcida desses anos. A secessão da Eslováquia entristeceu-o. Apadrinhou todos os acordos pró-ocidentais. E manteve uma confiança céptica que nunca esquecia as lições históricas. Vaclav Havel continua a ser um dos meus heróis, falível mas justo, não há melhor epitáfio para uma vida pública.

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