1/30/2011

Valores

Imbuídos de humanismo cristão ou laico, podemos dizer que «as pessoas não têm um valor», que valem em si mesmas, na sua igual e infungível dignidade. Eu também acredito nisso em termos antropológicos, ontológicos e tal. E no entanto.

E no entanto, é claro que nos é atribuído um valor. O qual varia supostamente em função dos nossos talentos ou competências. Somos recompensados segundo o valor profissional, social e sexual que os outros nos outorgam. Que muitas vezes nem é um valor de uso mas um valor de troca, um valor de status, de fetiche. Marx escreveu páginas sobre o estatuto da «mercadoria» que não foram ainda ultrapassadas. E nós, em sociedade, somos uma mercadoria, porque todas as relações sociais produzem um valor, um lucro, uma mais-valia [há um belo desenho pornográfico de Klossowski chamado La récupération de la plus-value].

O «valor» que nos é atribuído não tem uma verdade intrínseca. Em geral é um valor «bolsista», mutável, feito de expectativas, acessos ou quebras de confiança, de necessidades momentâneas, tendências da estação, reposição de stocks.

A atribuição de valor (uma experiência que aprendemos na adolescência) é muito espalhafatosa e pode ser muito marcante, mas é um equívoco. Pobre de quem se convence de que vale muito ou pouco. Pobre de quem se julga de acordo com o que vale.

1/29/2011

Recursos intrínsecos



Life, friends, is boring. We must not say so.
After all, the sky flashes, the great sea yearns,
we ourselves flash and yearn,
and moreover my mother told me as a boy
(repeatingly) "Ever to confess you're bored
means you have no

Inner Resources." I conclude now I have no
inner resources, because I am heavy bored.
Peoples bore me,
literature bores me, especially great literature,
Henry bores me, with his plights & gripes
as bad as Achilles,

who loves people and valiant art, which bores me.
And the tranquil hills, & gin, look like a drag
and somehow a dog
has taken itself & its tail considerably away
into mountains or sea or sky, leaving
behind: me, wag.


[John Berryman, «Dream Song 14», The Dream Songs, 1969]

1/28/2011

Isto é um diário

Isto é um diário, mas não completamente, tem zonas de exclusão, assuntos íntimos como a fé e a família, ou triviais como a saúde e o dinheiro, ou deontologicamente melindrosos como o trabalho e os amigos, é um registo cheio de rasuras e lacunas, assim não ando nu pelas ruas e evito que as pessoas me virem a cara. Isto é um diário, mas não é um diário.

1/23/2011



Logo, às 23h, há edição especial do Governo Sombra.

Uma massa de ar frio que se instalou nos últimos dias em território continental

Não aprecio a adesão tribal, o voto pavloviano, o «mal menor». Muito menos numa eleição unipessoal. Não voto num político que recusa o escrutínio democrático. Nem voto em democratas que admiram Guevara.

1/22/2011

Autobiografia em diferido

Há dois modelos de texto autobiográfico: a autobiografia em directo e a autobiografia em diferido. Aqui pratica-se o segundo.

Alice

É mesmo muito longa a minha conversa com a Alice.

A obsessão facultativa

As obsessões dos outros cansam, bem sei, mas eu sou um obsessivo introspectivo. No contacto pessoal, ninguém se pode queixar de que eu maço as gentes com as minhas obsessões. Já os meus textos são assumidamente obsessivos. Porquê uma diferença tão grande? É feitio, com certeza, mas é igualmente uma questão de cortesia. As pessoas convivem umas com as outras também por acaso ou obrigação, mas quem lê fez essa escolha. E quando não fez, acho mal. Sempre que dei com textos meus usados em escolas, pedi desculpa aos alunos.

1/21/2011

Quatro dias sem apodrecer

Vous faites une expérience très simple: vou s restez quatre jours sans manger: vous verrez, vous ne penserez plus qu’à ça. Pétrarque fait une expérience très simple: il reste quatre jours sans écrire: vous verrez, il ne pensera plus qu’à ça. Ou alors, il reste quatre jours sans penser à Laure: il n’écrira plus que ça. Laure fait une expérience très simple: elle reste quatre jours sans pourrir: vou verrez, Pétrarque ne mangera plus que ça.

[Marc-Édouard Nabe]

Nem de propósito

Valorizo acima de tudo a beleza e a inteligência, nem de propósito as duas condições mais adversas à decência ética.

1/19/2011

Correcção

Tens que fazer como os bons jornais online: não apenas corrigir aquilo que disseste, mas anunciar que fizeste essa correcção.

1/18/2011

Annus Mirabilis [lido por Larkin]

O mito masculino

Nos meios da burguesia média-alta, muitas mulheres pensam «como homens», ou antes, pensam de acordo com os padrões actuais da «masculinidade». Claro que o masculino não se esgota numas quantas características epocais de «masculinidade»; mas é inegável que algumas dessas facetas se tornaram culturalmente hegemónicas. E é nesse contexto que muitas mulheres mostram uma surpreendente empatia com a ideia de «masculinidade», ao mesmo tempo que desprezam ostensivamente as mulheres a quem atribuem características «femininas».

O psicanalista Arno Gruen escreveu: «A adopção do mito masculino pela mulher é um acto de auto-traição. A fé na supremacia masculina nega o carinho materno como base da auto-estima. Por isso, não surpreende que a auto-estima de muitas mulheres, na nossa cultura, se baseie em qualidades “masculinas” (…)».

Gruen não faz o elogio de uma «feminilidade» biologista; apenas alerta para o perigo de trocarmos a autonomia pelo culto do poder. Sobretudo quando o «poder» é automaticamente identificado com o «masculino». E com um «masculino» grotescamente darwiniano.

O que Gruen lembra é que a «masculinidade» se tornou o «único fundamento da auto-estima», tanto masculina como feminina. E que esse fundamento é, para todos, uma fraude e uma traição.

[A Loucura da Normalidade (1987), edição portuguesa Assírio & Alvim]

1/15/2011

O diabo nos detalhes


















Quando se trata de fazer escolhas, o diabo está nos detalhes. Quem esteja atento aos detalhes evita todas as escolhas, ou delas se arrepende rapidamente. Os detalhes, para quem esteja atento, são a maldição da escolha, pois inquinam toda a perfeição, inquinam a grande ilusão da escolha que é escolher o que é perfeito. Por causa do detalhe fica-se sozinho, e acompanhado, naturalmente, pelo diabo.

Esclarecimento

PHIL: (...) What are you looking for? Who is your perfect guy?

RITA: (...) He’s kind, sensitive, gentle, he’s not afraid to cry in front of me.

PHIL: This is a
man we’re taking about, right?

[Bill Murray e Andie MacDowell, Groundhog Day, 1993]

1/14/2011

Critério

Eliot chamou à sua revista Criterion. É um princípio básico do pensamento conservador: seguir um critério, ou seja, um «padrão que serve de base para que coisas e pessoas possam ser comparadas e julgadas». Eu sou há anos o feroz editor da minha Criterion pessoal. A revista não vende nada, mas nunca fez uma única cedência.

Homem de letras

















Publicou em 1969 The Rise and Fall of the Man of Letters, e foi um exemplo admirável dessa figura anacrónica e distinta: o «homem de letras». Nomeado editor do Times Literary Suplement em 1974, acabou com a detestável prática das recensões anónimas. Cultíssimo, editou excelentes antologias na Oxford University Press, entre as quais The Oxford Book of Aphorisms (1983), Comic Verse (1996), English Prose (1998), Essays (2002), Literary Anecdotes (2006) e Parodies (2010). Crítico incansável, escreveu em todo o lado, da Spectator ao New York Times, da New Statesman à Standpoint, da New York Review of Books ao Sunday Telegraph. John Gross nasceu em 1935 e morreu em 2011. Requiescat in pace.

1/12/2011

Very nice very nice very nice very nice

I'll never make that mistake again

Outra noite, talvez, outra rapariga

MAN: I touched your breasts.
WOMAN: Where?
MAN: On the bridge. I felt your breasts.
WOMAN: Really?
MAN: Standing behind you.
WOMAN: I wondered whether you would, whether you wanted to, whether you would.
MAN: Yes.
WOMAN: I wondered how you would go about it, whether you wanted to, sufficiently.
MAN: I put my hands under your sweater, I undid your brassiere, I felt your breasts.
WOMAN: Another night, perhaps. Another girl.


[Harold Pinter, Night, 1969]

1/07/2011

O cinema em 1878












O telefone foi inventado em 1876, o fonógrafo em 1877 e o cinema em 1878. Bem, esta última data não é exacta, embora não seja totalmente falsa. De facto, foi em 1878, num rancho de Palo Alto, Califórnia, que o fotógrafo inglês Eadweard Muybridge fotografou cavalos a trote e a galope usando doze câmaras dispostas lado a lado, e activadas quer por fios que os cavalos rompiam na passada quer por dispositivos eléctricos. Era um exercício de “motion pictures” que implicava uma série de operações logísticas e novidades químicas, destinadas a multiplicar o número de imagens e a acelerar o processo de revelação. Mas tudo correu bem. Ao captar imagens num milésimo de segundo, uma velocidade que o olho humano não detecta, Muybridge conseguiu esclarecer dúvidas antigas sobre o movimento, incluindo aquela pergunta clássica sobre se um cavalo estava alguma vez com as quatro patas levantadas ao mesmo tempo. Depois, juntou as fotografias por ordem, eliminou elementos inúteis, pintou silhuetas por cima das fotos e projectou-as com uma lanterna mágica e um “zoopraxiscópio”. Foi com esta máquina nova, que exibia o movimento de animais e pessoas, que Muybridge fez uma digressão triunfante pela América e pela Europa, quase vinte anos antes da famosa sessão dos Lumière.

(...) A exposição da Tate (comprem o catálogo se puderem) mostra que Eadweard Muybridge foi muito mais do que um pioneiro do cinema. Foi um dos cronistas da América como potência emergente. E um homem que continuamente ampliou as possibilidades do meio, em termos de profundidade, velocidade e continuidade. Quando Leland Stanford o contratou, queria ter alguma certeza sobre o movimento dos seus cavalos através de “uma máquina que não mente”. A “verdade” estaria naquela tecnologia, que capta aquilo que o olho humano não consegue. Por isso Muybridge usou muitas vezes fotografias simultâneas do mesmo corpo em vários ângulos, método que oferecia um panorama do corpo humano. Uma verdade sobre a sua fisiologia e o seu movimento. Pela mesma razão, gostava de fotografar a água a ser atirada ao ar, falsamente suspensa no micro-segundo da fotografia, uma interrupção puramente estética das leis da física, que aliás seguiam, intocadas, na realidade. E logo nessa altura um jornal chamou a atenção para um terrível paradoxo: se a “verdade” depende da tecnologia, será ainda uma verdade humana?

Ninguém é mais actual que o grande Muybridge.


[no Público de amanhã]

1/06/2011

Nem de propósito

Mark Zuckerberg nasceu em 1984.

Um mal necessário?

Escutas telefónicas, intercepção de e-mails, devassa informática, quebras de confidencialidade, fugas de informação, fontes anónimas. Amigos meus, mais à esquerda ou mais à direita, acham que se trata de «um mal necessário». Confesso que não estou convencido quanto ao «necessário».

Revista de imprensa

É como diz o magnata murdochiano em Pravda: podíamos fazer bons jornais, mas os maus jornais custam menos e vendem mais.

[Pravda, 1985, de Howard Brenton e David Hare]

1/05/2011

Chuckles

Lawyers for the man dedicated to information sharing argued at a bond hearing Tuesday that a possible location for Assange's stay while he's out on bond in England should not be made public due to privacy concerns, a rationale that drew chuckles from those in attendance. The home, belonging to friend and supporter Vaughn Smith, is reportedly a sprawling 10-bedroom estate. The motion for privacy was denied.

[ABCNews.com]

1/04/2011

Querubins













Não acredito em tronos e dominações, principados e potestades, mas acredito em querubins: anjos que impedem que regressemos ao Paraíso.

1/03/2011

Lyotard redux

No café, na mesa ao lado, três miúdas preparam um exame em voz alta. É psicologia, talvez sociologia, ou um pouco de ambas, em todo o caso um amontoado de clichés, estatísticas e boas intenções. A certa altura, surge o fatal conceito de «pós-modernidade». As raparigas tentam uma definição do bicho. Alinhavam umas frases incompletas sobre a «racionalidade» e os «valores», mas não parecem convencidas. Até que uma delas propõe: «A pós-modernidade é a gente estar-se a cagar para o que os outros pensam de nós». Faz uma pausa e depois declara: «Eu estou-me a cagar». As outras concordam abanando a cabeça. Bom 2011.